quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

RECEITA PARA UM SARAU OU CULINÁRIA AO PÉ DA LETRA, À MODA DA CASA DA POESIA DE CORDEL
                                                          *Por: Pedro Pernambuco ou Simão Pedro dos Santos 

Encontro músico-poético,
Mas tem de ser feito à noite
Com brisa batendo à porta
Com vento a dar leve açoite
Violões, livros, piano.
Logo após o senoite.

Junte a Lou Valadares
Com Guto na maestria
Muita pimenta poética
Muito conto e poesia.
Tempere com muita música
E como entrada, alegria!

Pegue um molho de poemas
Pique bem letra e som
Adicione de Silvestre
De seus textos, um muito bom!
Macere a prosa de Toni
E da festa tá dado o tom!

Reserve de Carmen e Marcos
A poesia e o canto
Ferrabrás ou Trem das onze.
Coloque mais outro tanto
Da graça desse casal
E está pronto o encanto.

Tempere de Evaldo Silva
Prosa, autenticidade
De Regina, os belos contos.
De Rute a simplicidade:
A leitura mais bonita
Com graça e muita verdade.

Misture música e cores
De Américo e sua Maria,
A Lúcia que o ilumina
E com ele faz melodia
Em cantares com que alegram
Nossas noites de poesia.

Coloque um pouco de Marta
Que nos traz a sua voz
Cura o corpo, cura almas,
Um primeiro, o outro, após.
Seu cantar enfeita a noite
E enfeitiça a todos nós.

Doure com Anísio, intérprete
De Vinicius e outros tantos,
Que traz na alma o deslumbre
De tantos e quantos cantos,
Dos poetas traz as letras.
Da poesia, os encantos!

Acrescente de Paulucci
Todo o sal da melodia
Das músicas que tanto canta
Mastigando poesia,
Degustando sonho bom
E toda a noite se alumia!

Adicione mais açúcar
À Lou, que com mais doçura
Apresenta esse Sarau
De delicada candura.
Junte tudo e leve à alma:
Alimente-se de ternura!

Literalmente, quentão
É esse nosso momento.
Mas também há um que traz
Doce sabor, quase bento!
Quentão com tanta doçura:
Vanilda faz com talento!

Junte os ingredientes.
Todos acima citados!
À poesia, à música,
A mil poemas recitados.
Coloque todos na alma
São mil saraus degustados!

Leve ao forno a poesia
Deixe-a ficar gratinada
Muita música, (bem sequinha!)
A crônica bem refinada.
Sambas, choros e boleros
A dança bem compassada!

E por quase duas horas
Desse momento consuma.
Mastigue bem mastigado
De Drummond, não só alguma:
Mas toda a poesia.
Mastigue uma por uma!

Cecília, Ascenso, Murilo
Jorge de Lima, Patativa
Misture bem do Bandeira
Sua poesia viva.
Ao pé da letra. Pasárgada!
Cidade-mito rediviva!

Junte seu Raul Martins
E a ele faça aplauso,
Cantante. Canta e encanta!
Não provoca desaplauso!
Tambasco! Quase Tabasco!
Apimente e tá dito o causo!

Reserve um tinto vinho
Sirva com nacos de pão
Pão que sempre traz a vida
Para a alma. O coração.
Boa água? Também sirva.
Essa é fonte. Inspiração.

Refogue muitas palavras
Corte excessos. Resuma.
Polvilhe. Pique. Tempere
As letras uma por uma.
Sirva tudo em grandes pratos
Pra que o Sarau as consuma.

Sirva tudo em mesa lauta
Bordada a fios d’ouro,
Ouro da nossa palavra
Que coroada de louro,
Já vem bela e lapidada,
Desde o seu nascedouro.

A sobremesa se faz
De sequilhos bem poéticos
Queremos poemas fartos
Nós não somos dietéticos.
Poemas? Só bem rotundos!
Para que os esqueléticos?

Ao Pé da Letra. Sarau!
A teus pés sempre estaremos
Letras que tanto encantam
Louvado seja! Cantemos!
Com pés e mãos te servimos.
Com a boca. Sarauemos!

Ao Pé da Letra, Sarau!
Aos pés das letras estamos
Sopas de todas as letras
A comer prontos estamos.
Louvada seja esta mesa!
Em torno da qual estamos!

(*Texto de minha autoria, lido no Sarau ao Pé da Letra, do qual participo, e que acontece a cada terceira 5.ª feira de cada mês, na cidade de Vassouras - RJ).


  

























2013 – Lições do tempo. Aprendizado dos homens.
                                          Prof. Pedro Pernambuco*

Abordada por poetas, romancistas, filósofos, teólogos, dramaturgos, mitólogos, a temática do tempo percorre obras universais, locais, contemporâneas ou de um passado qualquer da história humana.
Na mitologia grega, Cronos, deus da agricultura, representava também a ideia de tempo. A própria agricultura depende e requisita o tempo. Cronos/Tempo devorava seus filhos, (grande simbologia) à exceção de Zeus, que foi salvo ao nascer, por Reia, sua mãe. Ao crescer, Zeus faz seu pai vomitar a seus irmãos Hades, Hera, Héstia, Poseidon e Deméter - anteriormente devorados - e com Hades e Poseidon destrona-o e torna-se o eterno deus do Olimpo.

No Eclesiastes, capítulo 3, o tempo também aparece: de nascer, de morrer, de plantar, de colher, de sorrir, de chorar, de dançar, de espalhar e de juntar pedras. Tempo de abraçar e de se afastar. De perder e de guardar. De guerra, de paz, entre outras conjeturas.

Carlos Drummond de Andrade, afiado com as questões que sempre envolveram o mundo, buscou no tempo mote para sua lavra: “Esse é tempo de partido,/tempo de homens partidos./Em vão percorremos volumes,/viajamos e nos colorimos./A hora pressentida esmigalha-se em pó na rua./Os homens pedem carne. Fogo. Sapatos./As leis não bastam. Os lírios não nascem da lei./Meu nome é tumulto, e escreve-se na pedra”. (Nosso tempo)

Cecília Meireles escreveu: “Houve um tempo em que minha janela se abria/sobre uma cidade que parecia ser feita de giz./Perto da janela havia um pequeno jardim quase seco./Era uma época de estiagem, de terra esfarelada,/e o jardim parecia morto” (A arte de ser feliz).

Renato Russo, (Legião Urbana), voz possante, olhar crítico e maduro para ver o mundo à sua volta, escreve: “Tempo perdido” e com propriedade assevera: “Todos os dias quando acordo,/Não tenho mais o tempo que passou/Mas tenho muito tempo/Temos todo o tempo do mundo”.

Cazuza, com o Barão Vermelho, e depois em carreira solo, cantou “O tempo não para”, dele e Arnaldo Brandão, em cuja letra há a seguinte sabedoria: “Mas se você achar /Que eu tô derrotado /Saiba que ainda estão rolando os dados/Porque o tempo, o tempo não para.

Reiner Maria Rilke, escritor checo, bom e sensível poeta, lapidou em Cartas a um jovem poeta, p. 32, o seguinte texto:
O tempo não é uma medida. Um ano não conta, dez anos não representam nada. Ser artista não significa contar, é crescer como a árvore que não apressa a sua seiva e resiste, serena, aos grandes ventos da primavera, sem temer que o verão possa não vir. O verão há de vir. Mas só vem para aqueles que sabem esperar, tão sossegados como se tivessem na frente a eternidade.

Hilda Hilst, poeta das coisas de amantes e amados, disse no sugestivo poema Do amor: Ama-me. Ainda é tempo. Interroga-me./E eu te direi que nosso tempo é agora. Roberto e Erasmo Carlos, que há muito tempo cantam e embalam gerações sugeriram em Amor sem limite: “Quando a gente ama alguém de verdade/Esse amor não se esquece/O tempo passa, tudo passa, mas no peito/O amor permanece/E qualquer minuto longe é demais/A saudade atormenta/Mas qualquer minuto perto é bom demais. Em Todo o sentimento, Chico Buarque e Cristóvão Bastos disseram: Preciso não dormir/Até se consumar/O tempo da gente./Preciso conduzir/Um tempo de te amar,/Te amando devagar e urgentemente.

Infinita é a lista de textos de vária natureza sobre o tempo, esse fenômeno que atrai e inspira. Amedronta e traz pavor. E por falar nisso, chegamos ao final de 2013. Cronos, apressado, devorou rapidamente esse seu filho, mas antes de esse Titã ser deglutido nos foi permitido presenciar e compartilhar a dor da perda de jovens que tiveram sonhos tolhidos na Boate Kiss; vimos Barack Obama e seu vice, Joe Biden, tomarem posse pela segunda vez frente ao governo dos EUA; Renan Calheiros, sob protestos, tomou mais uma vez as rédeas do Senado Federal; Bento XVI renunciou a seu pontificado; Hugo Chavez perdeu para a morte; o sanfoneiro e cantor José Domingos de Moraes, o Dominguinhos, foi encontrar seu mestre Luiz Gonzaga e tantos que foram antes e sem nos avisar.

2013. Tempo. Vivemos discussões tantas: pré-sal, Comissão da Verdade, Feliciano, protestos por todo o país. Mortes brutais: torcedor boliviano. Criança boliviana em assalto em São Paulo. Chorão, do Charlie Brown Jn. Amarildo. Atentado terrorista em Boston. Perdas. Perdas. Perdas.

2013. Tempo. Mensaleiros. Condenações. Prisões. Ódios. Elogios. Joaquim Barbosa. Cotação à Presidência do país desse mesmo ministro do Supremo Tribunal Federal. Contradições desse meu país de tantas emotividades.

2013. Tempo de Francisco. Novo Papa. De Ordem não franciscana, mas com o coração pleno dos ensinamentos de Francisco de Assis. Diga-se ainda, o coração de Francisco não é só herdeiro teórico do frade de Assis: seu coração é praticante cabal desse aprendizado universal com toda a sua carga de perdão, compadecimento e amor a todos os irmãos, independentemente de credo, cor social, nação, escolhas. Francisco, o Papa, é revivescência de Francisco, o frade, em sua prática de  cristianismo autêntico.

2013. Tempo de partida de Nelson Mandela, o Madiba de seu povo. Chegou ao fim, a 5 de dezembro a trajetória de um dos mais admiráveis líderes da humanidade, em ações que vêm da primeira metade do século XX até os primeiros 13 anos desse nosso século e milênio. Deixa-nos esse sul-africano e a sensação que temos é a de que a humanidade ficará vazia de grandes líderes por muitos anos. Aprendemos com Mandela a grande lição de humanidade na veemência de sua alegria, na seriedade de suas ações e de sua luta, na glória do acerto e na resignação do erro. Com o velho líder aprendemos que é possível acatar o perdão, sem esquecer os algozes, que se é fácil odiar, não é difícil amar. Essa maestria teria de servir como o legado a que todos os homens deveriam se deixar arraigar. Ficou a grande lição de quem estabeleceu diálogos em sua trajetória de brio.

2013! Lições aprendidas. A graça e a beleza do viver e do esperar. E como dizia o pensador e educador Paulo Freire, do esperançar. Vão-se as angústias, as dores, os ódios, as tristezas. Tantos  sofrimentos da humanidade.

Façamos do vindouro 2014 o laboratório para nossas criações e recriações. Ano de importantes decisões: Copa do Mundo. Eleições. Agreguemos as lições de 2013 para pôr em prática a escolha de legisladores de cepa e de governadores e presidente que levem adiante sonhos de realizações.
     
Para terminar nossa prosa, voltemos à notícia sobre a morte de Nelson Mandela, ao lado da qual, com muita decepção, líamos sobre prisões e promessas de prisões de políticos envolvidos com o chamado mensalão. Não julguemos pela emoção. Deixemos que a justiça o faça racionalmente. Não tenhamos vergonha de ser brasileiros. Façamos, porém, prevalecer nas urnas em 2014, nosso julgamento com voto consciente e justo. Sejamos justos conosco e com nossos irmãos. Com todos os nossos irmãos. Oxalá 2014 seja um tempo de paz e justiça.

*Pseudônimo de Simão Pedro dos Santos.
Professor de letras da Universidade Severino Sombra – Vassouras – RJ.
Professor de Literatura Brasileira no Centro de Estudos Integrados – CEI – Barra do Piraí – RJ.

(Texto originalmente publicado na coluna Escrivaninha de Cedro, mantida por mim no Tribuna do Interior, periódico editado em Vassouras-RJ, com circulação em toda a região sul e em parte da Baixada Fluminense).