segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Oração a São Francisco (Na cadência do cordel)

Por Simão Pedro dos Santos

Oremos a São Francisco
Que de bênção é sinônimo
Que o rio, seu homônimo
Não nos faça correr risco
De não ter de água um cisco
O que nos fará temer.
Que o santo com seu poder
A Deus, no céu, por todos rogue
Que o Pai, a fúria revogue
E faça por cá chover!

Que o santo dos animais
Do fogo, do raio e água
Aplaque essa nossa mágoa
De gemidos e de ais!
De água mande sinais
Que aplaquem nosso temer
Que aplaquem nosso gemer
Que minore a dor primeira
Que o céu abra a torneira
E faça por cá chover! 

Também o homem incauto
Seguramente tem culpa
Agora vem com desculpa
E vem culpando-se auto
Ajude-nos, santo arauto!
Não nos faça a fé perder.
Mande-nos água de beber
E de lavar consciência
Que Deus tenha complacência
E faça por cá chover!

Que o santo de Assis
Provindo da velha Itália
Despeje água da talha
Do céu com seus mil anis
Por sobre o nosso país,
Que sofre a já se perder.
Pois não ver rios encher
De líquido tão preciso.
Que Deus seja generoso
E faça por cá chover.

Mas de uma por todas vezes
Sejamos inteligentes:
Não destruído nascentes
Nem sendo péssimos fregueses.
Por só pedir quando reses
E roçados vêm a morrer.
Que o nosso interceder
Se irmane à preservação.
Que Deus nos dê o perdão.
E faça por cá chover!



  


segunda-feira, 1 de setembro de 2014

                                                                     Requiem para Ariano Suassuna

            Prof. Pedro Pernambuco*
                       Revisor.uss@gmail.com
        
De vermelho e negro ele se vestia. O vermelho da vida. O negro... Ah, o negro... Saudades, Ariano!

Venham os cantadores e ponteiem suas violas doridas. Venham os cordelistas com seus romances armoriais. Venham os cantadores de coco. Venham Mateus e Bastião com seus Bumbas-meu-boi multicoloridos. Venham, mestres de maracatus. Cirandeiros. Frevistas. Passistas. Ajuntem-se os vaqueiros, os aboiadores, os rabequeiros. Venha o povo das alegres feiras com seus cheiros e sabores. Venham os bonecos de Vitalino. Os viventes das xilogravuras de J. Borges. Os mamulengos do velho teatro popular. Venha o circo. As bandinhas de pífano. O sertão embandeirado com sua mítica Pedra do Reino. Venha, Quaderna. Venham. Cantem Excelências ao mestre que os cantou.

Venha a onça malhada, (povo brasileiro) e retribua em canto lindo tudo o que o poeta cantou. Que desse chão brasileiro suba um canto de ausência e dor. Mas que desse mesmo chão erga-se canto uníssono às palavras e à poesia da verve que enalteceu suas bonitezas. Cantem todos, em honra desse filho da Compadecida.

Venham negros, índios, brancos. Brasileiros de todas as cores. Cantem um hino de saudade. Mas não deixem de cantar canções alegres ao gentil palhaço que nos deixou. Venham, crianças, prossigam com o sorriso puro, a fé e a esperança que o velho poeta fez questão de espalhar. Cantem a canção do circo de muitas cores. Cantem com muitas vozes o que esse pássaro viu do Brasil real.

Venha Chicó. Siga com as mentiras boas, saudáveis. Sem maldade. Mentiras de defesa. Mentiras que vencem o mal.
Venha João Grilo. Seja essa sabedoria em meio às adversidades. Você não é só o gracejo. Você é reflexão.

Venham João Grilo e Chicó. Toquem a gaitinha. Toquem uma Excelência para seu criador. Ele não desmorrerá. Também não nos deixará, pois vocês conosco estão.

Venha, Chicó. Venha, João Grilo. Cantem. Cantem para espantar as mazelas do mundo. As injustiças. A fome. A miséria e os miseráveis que os exploram! Cantem um canto àquele que os trouxe para nos legar o riso, para nos fazer refletir. Para nos fazer sonhar. Cantem uma melodia de saudade e de retribuição.

Venham João Grilo e Chicó. Cantem à memória deste que foi para as estrelas. Cantem uma Excelência pelo encantamento a que não esperávamos. A que não queríamos. De que não sabíamos quando. Mas infelizmente, sabemos que foi assim...

Requiescat in pace – descanse em paz, velho poeta e mestre!


* Pseudônimo de Simão Pedro dos Santos.
Professor de Letras da Universidade Severino Sombra – Vassouras – RJ.
Professor de literatura brasileira do Centro de Estudos Integrados – Barra do Piraí – RJ.

Texto originalmente publicado no Tribuna do Interior, jornal que circula na cidade de Vassouras – RJ, região sul fluminense e baixada fluminense

     
  
                                                Ano de eleições: reflitamos
Pedro Pernambuco*
Revisor.uss@gmail.com
Mais uma vez, chegam as eleições. É possível esperar um país melhor? Para alguns, é possível: esperanças se renovam, apesar de desventuras, de ires e vires, de traições, das promessas... Há quem creia na mudança, em realizações. Pode ser que para os próximos quatro anos as coisas deem certo. Até lá, podemos ter uma vida e uma realidade melhores. Sigamos.

Não esqueçamos de que em nossas mãos está a escolha.  O risco disso recai apenas sobre nossas cabeças. Saber escolher é o que nos resta. É o que alegamos todos os anos. Vamos à pergunta, porém: como fazer para empreender a boa escolha?  (O referencial aqui é o do eleitor sério, que não se vende, que não barganha seu voto). Como escolher, sem cair engodo, no “conto do vigário”, nas malhas da enganação?

Precisamos de uma receita, de uma fórmula para, na condição de milhões de eleitores, termos a sensação de que soubemos decidir o futuro do Brasil. Temos o poder do voto, mas não dispomos do da profecia, do ver antes, da adivinhação.

Como fazer essa escolha? Como saber (e não nos referimos às raposas a que já conhecemos), que podemos confiar numa renovação que corresponda aos ideais de honestidade, de fidelidade, de resposta e respeito aos cidadãos?  Quantos há nessa eleição que transmitam a ideia de que, por Brasília ou pelas Assembleias de seus estados, irão representar o voto que receberam?

Quantos há para honrar compromisso com saúde, educação, transporte, emprego, moradia? (Para falarmos apenas desses necessários chavões). Não é fácil escolher. Interesses particulares ou de grupos se pulverizam para setores como o mercado, as várias empresas, a religião, (leia-se igrejas-empresas com interesses escusos), o futebol e toda sorte de cartéis que se possa imaginar.

Como fazer? Como arcar com tamanha responsabilidade? Depararemos com  promessas, incansáveis repetições, programas os mais diversos e estapafúrdios. Desses, já sabemos, e neles acreditaremos segundo o tamanho de nossa ingenuidade, contudo, o que faremos se não somos os ingênuos?

Vivemos uma crise tão desproporcional no ambiente político, que das tantas agulhas do palheiro, talvez não encontremos uma. E se uma encontrarmos, para não ser tão cruéis, essa não disporá de fio suficiente, para tecer os nossos ideais, pois não adianta a boa linha se o tecido estiver velho e apodrecido, como já dissera o Cristo. 

Como fazer, meus irmãos, a boa escolha? O que mais dói é ter de fazer essa escolha. Como não há saída, tudo está em nossas digitais, em nossa consciência, em nosso olhar. Mais uma vez, confiemos (os eleitores sérios), que haja pelo menos duas agulhas a que possamos creditar o tecer dos ideais da mudança que desejamos, para que venhamos viver numa sociedade justa, séria, digna e solidária.

No mais, não lavemos as mãos, pois há mais Barrabás do que Cristo nesse grande mundo de Deus.  
     
*Pseudônimo de Simão Pedro dos Santos – Professor de Letras da Universidade Severino Sombra – Vassouras – RJ e de Literatura Brasileira do Centro de Estudos Integrados – Barra do Piraí – RJ. 

Texto originalmente publicado no Tribuna do Interior, jornal que circula na cidade de Vassouras – RJ, região sul fluminense e baixada fluminense.