segunda-feira, 10 de dezembro de 2012


Nova ortografia: um lembrete aos falantes da língua portuguesa

Vivenciamos a adaptação à nova ortografia desde 1.º de janeiro de 2009, período que se estende a 1.º de janeiro de 2013. Quatro anos de ajustamento ao que se propôs em língua portuguesa, quanto às novidades e mudanças em relação apenas à palavra escrita e do ponto de vista ortográfico, o que se estende a todos os países lusófonos. Não estamos inocentes de que essa nova prática ortográfica teria um tempo determinado para adaptação, e de que, terminado esse prazo, entra em vigor o acordo que atravessou, para discussão e aprovação, toda a década de 90 e quase uma década do século atual.
Desse modo, lembrem-se todos que, em prova de qualquer natureza, documentos oficiais, textos jornalísticos, jurídicos, entre outros, em língua portuguesa, do próximo ano em diante, serão elaborados segundo essas novas regras ortográficas. A insistência ou resistência em manter tradição linguística implicará erro gramatical, o que redundará em prejuízo àquele que persiste em não aceitar as mudanças que, de certo modo, revelam o dinamismo inerente a toda língua viva.
Só para lembrar: dobram-se o –S e o –R se estes forem seguidos de vogal como em ultraSSonografia e ultraRRomântico, neoSSimbolismo e contraRRegras. Não se escreve mais lingüiça, e sim, linguiça, embora essa iguaria brasileira continue a ser a pedida em nossos barzinhos populares. Não se escreve zôo, abreviatura de zoológico, mas zoo, sem o circunflexo, mesmo que lá estejam animais e que deles não judiemos e os respeitemos. Não se escreve crêem, mas creem, embora crenças continuem. Não é para se escrever feiúra, mas feiura, apesar de que, quem amar ao feio bonito este lhe pareça. Não se escreve alcatéia, mas alcateia, coletivo de lobo, mesmo havendo lobos em peles de ovelhas. Colméia passa a ser colmeia, mas a vida pode ser doce. Tramóia passa a tramoia. Coisa feia! Deixe-se disso!
E heróico, ah, esse é a cara do povo brasileiro! E passa a ser heroico. Pura feição do nosso povo que dá brados retumbantes... Apesar de tudo...
Querida platéia, ou melhor, querida plateia, voltaremos na próxima com mais informações. Até lá, com mais uma odisséia da língua portuguesa. Opa! Com mais uma odisseia da língua portuguesa.
Ah! Não esqueçam: 1.º de janeiro de 2013, todos a escreverem segundo a nova ortografia. E sem paranóia!


Pedro Pernambuco. Pseudônimo de Simão Pedro dos Santos, professor da Universidade Severino Sombra  Vassouras - RJ.  e do Centro de Estudos Integrados - Barra do Piraí - RJ. Apresentador do Programa Rodas musicais e outras conversas, aos domingos, a partir das 9h, com repetição às 17h.

Cinquenta vezes mais... Nova ortografia

Senhores,
Ainda uma vez estamos aqui para tratar das mudanças ortográficas que a 1.º de janeiro de 2013 entram em vigor. Não esqueçamos!

Com a devida exceção, -K, -W e -Y não são usados para nomes próprios, como é comum à Kamilla (se há como escrever Camila); Wânia, (se há como grafar Vânia); e Yvan, (se há como escrever Ivan). Por favor, senhores tabeliães, há correspondentes em português para substantivos como esses.

Expliquemos: -K, -W e -Y, tão presentes em nossa língua, são usados na escrita de símbolos e unidades de medidas. Nesse caso, -K será útil para mencionar, por exemplo, km, kg, kl abreviados, mas se escritos por extenso, deverão aparecer dessa forma: quilômetro, quilograma e quilolitro.
-W interessa a abreviações como watt (usado em áreas como a da eletricidade).
-Y pode indicar, universalmente, na tabela periódica, o elemento químico o Ítrio (escrito assim, em português).

No entanto, fiquem atentos: nomes próprios de origem estrangeira que não têm correspondente em português deverão se manter. Desse modo, William, não é Ulian; Washington, não é Uóston e Wellington não é Ueliton. Por favor, show se escreve assim, playboy, idem e kung fu, também.

Quem aguentará alguém que não se adapte às novas regras? Consequentemente, não aceitem em seus escritórios secretárias bilíngues que não se expressem em bom português. Meu Deus! Como será o inglês de alguém que não sabe minimamente seu idioma? Essa é a nossa arguição, essa é a razão da defesa de nossas ideias. E como há delinquentes dessa velha e poética língua de Camões! Mas fiquemos tranquilos: um dia tudo dará certo, talvez em dez quinquênios, ou melhor, daqui a cinquenta anos.
Lembremos, portanto, que Müller e derivados se escrevem dessa forma, pois é vocábulo de origem estrangeira. Nunca escrevam Muller.

Não temamos! Nesse velho mundo cheio de lobos, há muitas alcateias, muita malícia, muita armadilha. Mas dia, os que estiveram em garras de lobo, poderão viver asteroides, planetoides de felicidades! Merecido!
Embora seja uma odisseia, procurem saber que paroxítonas seguidas de ditongos abertos -éi e -ói perderam o acento agudo que os seguia. Muito cuidado!

Não esqueçam: para ser herói ou para termos heróis, havemos de conhecer os papéis de cada um na sociedade. E só assim distribuiremos troféu ou troféus a quem merece. Saibam que oxítonas finais serão sempre acentuadas, flexionadas ou não.

Magoo, abençoo, perdoo, voo, veem e deem se escrevem assim. Por exemplo, não magoo a ninguém. Abençoo e perdoo a todos, pois os que veem com o coração enxergam sempre à frente e alçam voos para o infinito de suas ideias.  

Ficamos por aqui. Por enquanto. Antes que alguém me grite: para com essas ideias, rapaz! Pelo-me de medo de importunar os outros. Pararei por aqui.
E de um polo a outro dessa fala, não sei fico mudo, se me aquieto, se me tranquilizo ou se irei jogar polo, a cujas regras desconheço. Pode isso? Acho que não pode. Para ser franco, acho que nunca pôde!    


Pedro Pernambuco. Pseudônimo de Simão Pedro dos Santos, professor da Universidade Severino Sombra  Vassouras - RJ e do Centro de Estudos Integrados - Barra do Piraí - RJ. 

  

     

sábado, 27 de outubro de 2012


Política e consciência social: quando será isso possível? 
                                                    Pedro Pernambuco*

Em reportagem da Folha/UOL, de 23/10/2012, Fernando Haddad, (PT – SP), candidato a prefeito por São Paulo, promete mudar a forma de como a prefeitura paulistana fiscaliza a emissão de ruídos dos cultos.

Fez o candidato críticas à chamada lei do Psiu. A referida lei regula poluição sonora e é usada na multa a igrejas. Quaisquer igrejas, conforme entendi. Não faz muito tempo, moradores de um bairro dessa mesma capital reclamavam das badaladas diuturnas de um sino católico.

Já os evangélicos têm usado a questão de forma polêmica e política, quer dizer, politiqueira, e usam o termo "perseguição" por parte da atual prefeitura. Não sou de São Paulo, não votaria em Serra, mas também não deixaria de pensar e repensar se votaria em candidatos sensacionalistas à cata de votos. Evangélicos que tanto pregam ordem, decência, obediência, inclusive às leis, surpreendem quando o assunto é a ordem em nome do respeito comunitário. Dá para entender?

Na verdade, não o Evangelho, aquele de Cristo, puro, autêntico, mas determinados segmentos evangélicos têm-se mostrado extremamente soberbos, politiqueiros, matreiros mesmo, em nome de uma afirmação que não condiz com aquela em que dizem acreditar: a afirmação pela fé.

Tem beirado o escândalo esse comportamento em nome de partidos, em nome de alianças nada sérias, sem programa, sem nexo. Apenas e simplesmente pela busca desenfreada pelo poder.

É uma pena que igrejas tenham se misturado à política. (Leia-se politicagem, politicalha). Tudo o que há não menos de trinta anos era duramente criticado por seus líderes tidos como conservadores. Não é proibido fazer política. Nunca deverá ser, mas não deveria ser permitido pela consciência individual e coletiva fazer política que não seja em nome e pelo bem da coletividade.

Religiosos têm de cultuar àquilo em que creem, têm e devem ter liberdade de culto e de ir e vir. Está na Constituição e não vale só para grupos isolados, mas para os cidadãos. Todos os cidadãos, e isso inclui evangélicos e não evangélicos.

Então vamos nos posicionar, defender nossos credos, nossos direitos, mas vamos respeitar às leis que são criadas exatamente para nos proteger, sejamos crédulos ou não. É questão de respeito. Pelo outro e por nós mesmos. Não sejamos egoístas nem ególatras. Coloquemo-nos no lugar do outro. E votemos bem. Sem contradizer a um livro de leis a que os senhores evangélicos mais prezam e a que tanto amor e respeito devotam: a Bíblia!

E, senhores políticos, não se pode governar para grupos. Infelizmente, essas ideias não poderiam ser passadas em nenhuma hipótese, mas, tomara, sejam apenas promessas vazias de campanha!

Pseudônimo de Simão Pedro dos Santos - Professor de Letras na Universidade Severino Sombra - Vassouras - RJ e de Literatura Brasileira no Centro de Ensino Integrado - CEI - Barra do Piraí - RJ.
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segunda-feira, 25 de junho de 2012


Ano eleitoral e redes sociais – que eleitores deveremos ser?
                                                                              Pedro Pernambuco*
Ano eleitoral. O que fazer na escolha de candidatos que correspondam às nossas expectativas sem que nos enganemos? Nossa grande pergunta é a seguinte: que cidadão está apto a um cargo eleitoral sem interesses particulares? Que eleitor está apto a votar sem interesses particulares? Havemos de entender que político é aquele que exerce atividade pública e isto, em outras palavras, é a arte de bem governar.

Votar, participar dos destinos da cidade, ter interesses em questões ambientais, propor a melhoria de sua comunidade, eleger seu líder, não jogar lixo nas ruas são atitudes políticas do homem, uma vez que vivemos em sociedade. Aristóteles, filósofo grego, afirmara séculos antes de Cristo, que todo homem é um ser político. Fácil de entender: é aquele que opina e participa dos destinos de seu povo, de sua cidade, pois todo ser político visa o bem comum, já que o homem é um ser gregário, ou seja, não vive só, segundo ainda Aristóteles.

Fazer política é não ser politiqueiro, não tomar parte da politicagem, mas, conscientemente, agir, com o fim de ampliar, melhorar, fazer com que ideias inteligentes sejam aplicadas em sociedade para o bem de todos e não de grupos isolados, particulares, que trabalham em torno de si. Fazer política, viver política, como cidadão que vota, não é trocar favores, mas vivenciar o interesse social com caráter democrático.

Fazer e viver a política é, teoricamente, e na prática, ser cidadão que não faz escambo de seu voto. Quanto vale uma telha? Qual o preço de um tijolo? Por que remédios têm de valer por votos? Se há essa troca, o que se pode dizer do cidadão? O que se pode cobrar do candidato a quem se escolheu para decidir os rumos de seu povo?

Há de se compreender, por exemplo, que quem é eleito para o Legislativo tem por função criar, modificar ou até revogar leis para o Estado e para a conduta dos que nele vivem. Ao Legislativo cabe representar a maioria e a minoria dos cidadãos, além de fiscalizar atos do Executivo, no zelo pelo bem-estar da coletividade. Legislar não é trabalhar em causa própria, como infelizmente, tem ocorrido. Legislar não é criar mecanismos de enriquecimento, como vemos à plena luz do dia. A sociedade ainda tem estado imatura no sentido de fiscalizar aquele a quem escolheu em quaisquer das instâncias políticas. E isto é uma lástima.

Tem havido, é certo, nos dias atuais mais conscientização. Temos, com o advento das redes sociais, agido de forma a denunciar, disseminar desmandos, irresponsabilidades e a propor mudanças, mas ainda não é suficiente, embora represente algum avanço para o aguçamento de nosso olhar de fiscalizadores dos políticos. Temos de utilizar desses recursos tecnológicos a que acessamos livremente para assinar manifestos, cobrar atitudes, publicar insatisfações coletivas para que se façam cumprir obrigações que não representem favores, mas direitos. Graças à tecnologia, temos perspectivas de mudanças. Desse modo, usemos nossa voz e nossa inteligência para gritar, anunciar aos quatro cantos que podemos mudar esse país, que podemos mudar nossas cidades. Que podemos reverter situações e que podemos viver numa sociedade mais justa, sincera e que não se dobra a caprichos particulares.
 
Que tempo passamos sem ter ouvida a nossa voz? Que veículo de comunicação dava-nos a oportunidade de nos expressar? A grande mídia, sempre aliada por interesse, aos políticos, ou melhor, aos maus políticos, nunca deixou de fazer vistas grossas à desordem política e o povo não tinha como espalhar ideias, buscar seus direitos, e se isto ocorria, era timidamente. Poucas vezes, nos últimos trinata anos, tivemos grandes movimentos de vozes coletivas que fossem mediados por importantes sistemas de comunicação. Todavia, o mundo mudou. Estamos mudando, e aos poucos, é certo, temos avançado, e nossos rumos, paulatinamente, estão em nossas mãos, graças à mídia aberta que é a rede mundial de computadores que por seu turno, tornou o mundo menor, mais coeso e com voz. Podemos hoje propagar nossas ideias, valores, protestos, indignação a todos os seus quadrantes. E cá para nós, apesar de ser uma faca de dois gumes o universo on-line, se bem aproveitado, é a grande arma de combate, de luta e denúncia a qualquer ameaça de corrupção política da grande comunidade universal.

Apropriemo-nos desse aparato tecnológico a que temos acesso e façamos dele nosso posto de fiscalização, de troca de ideias políticas, de porta aberta para o mundo e não sejamos eleitores tacanhos, avaros. Não pensemos apenas em nós, como fazem alguns políticos. Pensemos no grupo, na coletividade, para que depois possamos cobrar com a legitimidade e, sobretudo, com a dignidade que é, ou deveria ser inerente a todo ser em sociedade.

O mundo está de portas abertas. Escancaradas. Façamos disso a janela, através da qual possamos deslumbrar melhor futuro para a geração que nos sucederá.
     
*Pseudônimo de Simão Pedro dos Santos – Professor de Letras da Universidade Severino Sombra – Vassouras – RJ e de Literatura Brasileira do Centro de Estudos Integrados – Barra do Piraí – RJ. 

quarta-feira, 20 de junho de 2012


Cantar aos professores à maneira de cordel

       Por Simão Pedro dos Santos (Pedro Pernambuco)

O Brasil, desde os tempos de colônia
Adoece e nunca tem melhora
Sempre vive à mercê do que é de fora:
Inglaterra, EUA, Rússia, Polônia.
Começou nossa pátria a ser errônea
No “terra à vista” do seu descobridor,
Isto é, modernamente, o “achador,”
Que a princípio não notou nem resistência.
O Brasil só será uma potência
Se souber quanto vale um professor!

Já não deve ao FMI
Como outrora, mendicante, só devia.
Com cajado, com sacola ou com bacia:
Humilhação pros habitantes daqui.
Mas se hoje, cada um cair em si,
Bem verá: continua a mesma dor
Lá no Sul, lá no Norte ou onde for:
Vê que falta à escola assistência
O Brasil só será uma potência
Se souber quanto vale um professor!

Não há dívida lá fora, como antes,
Mas se deve aqui dentro muita cousa
Informática impera sobre a lousa?
Quase isto, mas quantos estudantes,
Em lombos de cansados Rocinantes
Sertanejam idealmente sua dor?
Sob chuva, sob sol, raio, calor
A buscar o saber com paciência
O Brasil só será uma potência
Se souber quanto vale um professor!

Crianças na escola! É o Programa
A constar de PCNs e cartilha
De bons intentos está cheia já Brasília
Mas bons mesmo são poucos: uma gama!
Meu Brasil, quem é mesmo que te ama?!
Não me deixe a viver tamanha dor!
Ditadura de mídia, sem pudor:
Forja dados com extrema indecência!
O Brasil só será uma potência
Se souber quanto vale um professor!

Deputado “naniquinho” que não trabalha
E que decerto, nunca trabalhou
De vagabundos, a mil mestres nomeou:
Erro imbecil! Um erro de mortalha!
Parlamentar como este atrapalha
Pra lamentar, ou melhor, pra ter horror.
Seu discurso é motivo de pavor,
E do mal é seu texto, na essência.
O Brasil só será uma potência
Se souber quanto vale um professor!

Quanto vale, meu Deus, um deputado
No DF (Distrito Federal)?
Certamente, valor piramidal
Para o cofre do povo, já minguado,
Sofrido, lutador, muito suado,
A sustentar deputado esbanjador
Com discurso sem pauta e sem teor
E que vê educação sem coerência
O Brasil só será uma potência
Se souber quanto vale um professor!
 
Encerro por aqui o meu discurso,
Meio triste com a situação
Meu deus! Cadê a oposição?
Já não há. Já passou esse percurso!
Um dia já houve esse decurso,
Mas hoje não há mais opositor
Lamentável: todos têm a mesma cor
A mesma ideia e idêntica preferência
O Brasil só será uma potência
Se souber quanto vale um professor!

Dessa luta não nos desanimemos!
É minha fala aos nobres companheiros!
Gritemos por cem mil dias inteiros!
Pra dizer do valor que merecemos.
Nossa luta por aquilo a que queremos:
Salário justo para o educador!
Muito respeito e mais humano calor
E de Brasília, a mui justa reverência!
O Brasil só será uma potência
Se souber quanto vale um professor!

Vassouras - RJ, 11 de junho de 2012.
 


quarta-feira, 13 de junho de 2012


Os meninos do Vietnã – o quadro de uma guerra
                                                    Pedro Pernambuco[1]

8 de junho de 1972. Há 40 anos o mundo presenciava uma das cenas mais dolorosas captada pela câmera fotográfica de Huynh Cong 'Nick' Ut, da Associeted Press. O cenário é de guerra: Phan Thi Kim Phuc, então com nove anos, seu irmão mais novo e dois pequenos primos compõem o quadro em que fogem de bombardeio em sua vila natal, Trang Bang, no Vietnã.

Phan Kim em desespero a correr despida pela rua comove a todo o mundo naquela ocasião, como comove hoje, ao ter a imagem revista. É pavoroso ver emolduradas naquele quadro inocentes crianças a fugir da morte em sua vila incendiada pelo inimigo americano. Ao depararmos com a foto lembramos O grito, de Munch, pintor expressionista norueguês, que sintetizou a angústia existencialista do homem. A foto de Kim leva-nos a essa aflição existencialista, uma vez que nos seguem perguntas fatais: o que trazem as guerras? Que sentido há em matar, destruir o outro? Invadir territórios e ver inocentes arderem? O que é o homem? O que somos e o que justifica a invenção tão remota da guerra?

Perguntas como estas aparentemente não têm respostas, embora todos os homens tentem respondê-las segundo seu entendimento. Cada um dirá algo que acha, supõe encontrar correspondente, mas verdadeiramente, responder à questão como esta é não encontrar, nunca encontrar conclusão que convença. Guerra, essa ausência eterna de paz, resulta de maldade, ambição e ganância humanas. Guerra, essa destruição mútua dos povos, essa queda de braços sem fim, é humanamente/desumanamente respondível: o que justifica o mal?

Kim de vez em quando aparece nas mídias internacionais como exemplo de força e de sobrevivência. Exemplo de resistência e de força. Aos 49 anos, hoje, o que pensa a mulher ao rever a cena de quatro décadas passadas? O que pensa a mulher ao ver a menina a correr, como se corresse atrás dela mesma, por toda a vida, como um fantasma. Phan Kim criança, seguramente persegue a Phan Kim mulher, mãe, esposa, hoje.

Que cenas vêm à cabeça da mulher e da mãe hoje? Mães sentem as dores triplicadas, quadruplicadas de seus filhos. Dá para imaginar como sentiu dor a mãe de Kim – Se sobreviveu ao bombardeio – há quarenta anos? Dá para imaginar a dor de Kim por seu filho numa situação dessas – Deus a livre e nos livre – hoje? Esta mulher é tatuada, com certeza, daquela menina que insiste em dela não sair. Aquela menina representa a dor de uma guerra na mulher de hoje. E esta dor importuna a todos nós que nos arvoramos a achar que somos seres pensantes. Pensamos o quê? Pobres almas somos nós, os inventores da guerra que nos leva a exibir o vencido como troféu. Horripilante troféu! Como somos seres pensantes se queimamos, bombardeamos vilas e cidades e matamos inocentes? Kim é uma resposta por si. Kim responde à pergunta sobre o que é guerra. A resposta cabal sobre esse tema é Kim e tantas e outras Kins a quem o homem, na sua infelicidade, mutilou, marcou, matou.

Em reportagem recente, Phan Thi Kim Phuc diz: “Eu realmente queria escapar daquela menina” e conclui: "Mas parece que a imagem não me deixava ir.” Não deixa mesmo, é impossível, acreditamos, mas esse impregnar de sua imagem nela mesma seja, talvez, a grande lição coletiva de que a guerra dói e de que não deveria ser repetida, embora insistamos em promovê-la e repeti-la.

Ao sentir o chão balançar, o calor das chamas em sua direção e seu braço esquerdo queimado, na dolorosa passagem de Trang Bang, no seu destroçado e resistente Vietnã, Kim Phuc  pensava, além da dor, que iria ficar feia, que não iria ser mais normal e que as pessoa iriam vê-la de forma diferente.

E Kim não ficou feia, pois feia é a guerra. Kim é normal. Anormal é a guerra. E o mundo tem de ver e deve ver Phan Thi Kim Phuc de forma diferente: como exemplo e como mostra daquilo a que não se devia repetir. Mas aí está o homem, ser pensante, que insiste em se repetir.

A foto tirada por Huynh Cong 'Nick' Ut há quarenta anos é um quadro em torno do qual a humanidade deve refletir. E deveria estar em todas as paredes do mundo como um Michelangelo, um Da Vince, um Munch.

E Phan Thi Kim Phuc continua a ajudar a humanidade! 



[1] Pseudônimo de Simão Pedro dos Santos – Professor de Letras da Universidade Severino Sombra – Vassouras – RJ, e de Literatura Brasileira do Centro de ensino Integrado – Barra do Piraí – RJ.

Telhados do nosso casario, paredes da nossa velha memória
                                                                       Pedro Pernambuco[1]

Nossa reflexão hoje fica em torno do casario que integra o patrimônio arquitetônico de Vassouras. Nossa conversa se dará em torno de uma pergunta: o que se fará desse sítio histórico que é o centro antigo desta cidade? A pergunta é de leigo, mas a resposta tem de vir de especialistas. Há muito as indagações se dão da seguinte forma: quem cuidará de tudo isto? Como e o que fazer para preservar essa história?

Reuniões são feitas, ideias são dadas, apontam-se soluções as mais variadas, mas infelizmente, tudo fica no papel e as ações não se concretizam. Veem-se até escoramentos e tapumes como se isto bastasse e fosse a perspectiva de que as coisas caminham. Não se sabe o porquê de as ações de restauração não acontecerem, e aos poucos, o testemunho de uma época é varrido à nossa vista, e o que é mais grave: parece que não damos conta. Os mais atentos até percebem este fenômeno, mas não sabem ou não têm como resolver; e os que podem, e até têm como resolver, parece não buscarem o caminho para uma resolução, e ainda não nos respondem de forma plausível o que se há de fazer.

Para muitos, o passado já passou, com o perdão da redundância, mas para os sensatos, é do passado que depende o presente, e este é o que somos e o que podemos fazer. E o que podemos fazer com esse passado histórico de Vassouras, hoje? O que não dá é ver paredes a ruir, telhados a despencar e o risco de todo um depoimento do passado vir abaixo, sem uma explicação, sem um esforço – pelo menos é o que aparenta – sem um mínimo de vontade por parte de, não sabemos que esfera do poder público, em dar-nos alguma explicação.

Dá pena ver, sobretudo em finais de semana, os ônibus de turismo a atravessar a cidade sem termos o que mostrar, aliás, temos as quase ruínas. Dizem os mais sabidos e curiosos das conversas de praça, que turistas vêm para fazendas históricas, para hotéis que já têm roteiros a fazer pelos arredores dessa Vassouras carente. É o que chamam de turismo rural. Os hotéis têm suas propostas disponíveis em seus prospectos: acertada visão comercial. E o que mostrar de nosso patrimônio para esse turista sequioso por ver o urbano, rico e interessante traço arquitetônico vassourense?

Façamos algumas modestas perguntas com a igual curiosidade da resposta que talvez não tenhamos, mas não nos intimidemos: é possível solucionar questões como estas, se se entregar este patrimônio à iniciativa privada? Seria esta uma sensata solução? Será que, com um contrato bem engendrado, claro, objetivo, não se poderia traçar metas viáveis tanto para empresários interessados quanto para o poder público na busca de meios de preservação desses prédios em ruína? Conceder esses palácios para usufruto comercial, cultural, e ao mesmo tempo, ter como contraproposta sua restauração, não seria um quê de vontade política? Em contrapartida, quanto de oportunidade de emprego se abriria? Quantos profissionais teriam oportunidade? 


Não sabemos até que ponto estamos certos, mas temos a certeza de que o que nossos olhos têm enxergado, não nos agrada, o que resulta em interrogações, indagações que, se não são respondidas, leva-nos à convicção de que há pouco caso por parte daqueles a quem recai a responsabilidade, de pelo menos dar respostas convincentes – é o que deixam transparecer – o que leva-nos, aos poucos, à conclusão de que tudo o que temos e vemos será ruína. Literalmente.

Não custa lembrar, porém, que povo que não guarda seu passado, não tem presente nem identidade, e consequentemente, não terá futuro. E é esta a nossa preocupação: o que mostraremos aos nossos filhos e netos?  



[1]Pseudônimo de Simão Pedro dos Santos. Professor de Letras da Universidade Severino Sombra – Vassouras – RJ. Professor de Literatura Brasileira do Centro de Educação Integrada – Barra do Piraí – RJ.   

quinta-feira, 10 de maio de 2012


Texto escrito há cinco anos, com as impressões que tive ao assistir a manifestação popular conhecida como encontro de bacamarteiros, de tradição em minha cidade e em muitos lugares do Nordeste. Tomara vocês gostem. Abraços.


Bacamarteiros: Homens de azul. Homens de paz
                                                     Por Pedro Pernambuco*


Manhã de sol. Inícios de janeiro de 2007. Na minha Bezerros, em Pernambuco, assisti, a convite de meu amigo André, o André Eletro, a uma apresentação de bacamarteiros. Coisa riquíssima, linda e que depõe de nossa gente e de nossas raízes culturais.

Após missa matinal, os bacamarteiros fizeram suas apresentações, a princípio, no pátio da Igreja de São José: tiros fortes e cheiro de pólvora! Homens que se destinam a celebrar em salvas de bacamartes a vida, a coragem, o destemor. Tiros que ecoam no centro da cidade, e chamam a atenção dos passantes. Tiros que têm origem na Guerra do Paraguai. Reminiscência, talvez, de vitória que trouxe o Brasil Imperial, das terras do Plata. Tiros que dizem do homem e de seu desprendimento para o desafio.

Reparei, em meio àqueles homens vestidos de azul, uma senhora, sobre quem, segundo ouvi de terceiros, ficou no grupo em lugar do marido que morrera. Não quis deixar no esquecimento a memória do companheiro e resolveu manter a velha tradição. Aguerrida, não desistiu por ocasião de seus tiros falharem por duas ou três vezes. Com a solidariedade dos amigos, finalmente, dispara o gatilho e catabum! Aplaudida, olha, com orgulho, a plateia e sorri confortável. Venceu o desafio, e esta deveria ser a marca de todos nós: não desistir!

Da Igreja, parte o Batalhão do Bacamarte para outro lugar de comemoração e lá, a festa continua regada à amizade. Vi em todos os participantes do festejo uma parcela de riso, de alegria e de felicidade. Cada um que falava era solícito e generoso para com os companheiros. Uma bela festa dos homens de azul. Uma linda e simples comemoração à vida.
Bom seria se os homens fossem sempre unidos em torno da vida. Bom se a vida fosse esse eterno comemorar. Observei ali semblantes felizes e realizados. Notei que a vida é simples e para vivê-la não precisamos de muito.

A vida se faz de pequenas coisas, pequenos gestos e atitudes. Isto faz dos homens, homens. Isto faz das gentes, gente. A vida é feita de pequenos atos. De generosidade e de amor. Amor ao que se faz, mesmo que este fazer seja a realização pessoal de atirar com reluzente bacamarte. Tiros de paz. Tiros lúdicos. De brincadeira. Por esporte. Tiros que representam os desafios que a movem homens e mulheres e que nos trazem, na serenidade do termo, autoafirmação, autoestima. Realização.

Homens de azul! Homens vestidos de azul, com chapéus à cabeça e lenços de vermelho vivo ao pescoço. Homens que atiram para o nada. Atiram sem ter de acertar o alvo. Ao acaso. Homens que atiram por brincadeira, mas com seriedade. Que não visam à destruição. Bacamarteiros! Atiradores de elite que  visam acertar tão-somente o coração e a alma dos que presenciam a brincadeira. Passatempo de homens que sabem se unir em torno da festa, do encontro, do entretenimento saudável.

Bacamarteiros! Viva os bacamarteiros de minha cidade de São José dos Bezerros. Tomara a lição desses atiradores seja vista pela nossa cidade como alguma coisa que transmita paz e traga a ideia de que a vida é para ser celebrada com salvas de bacamarte. Salvas de palmas. Com alegrias e flores; com a delicadeza que deveria ser inerente ao ser em sociedade.

Salvas para nossos bacamarteiros. Vivas a vida!          


*Pseudônimo de Simão Pedro dos Santos. Da Universidade Severino Sombra – Vassouras – RJ e do Centro de Ensino Integrado – Barra do Piraí – RJ.
Mestre em Letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro.






Texto feito para meu pai em 2004, por ocasião de seu aniversário. Foi publicado no jornal local, de nome Tribuna do Interior, aqui de Vassouras - RJ. Passados oito anos, meu velho criou asas, virou pássaro e foi para outra dimensão. Ao homenageá-lo novamente, compartilho com todos vocês este texto de que gosto muito. Abraços.


Aniversário de seu Biró. Festa!

Meu velho pai, hoje são 30 de novembro. Seu aniversário. Quantas coisas, meu velho! Lembro-me de uma infância pernambucana e cheia de surpresas. Lembranças de vê-lo chegando com cesto de vime cheirando a coisas frescas que da feira vinham. Lembro-me de seu cuidado com todos nós: seu cuidado de filho no trato com a nossa vó Mãe Bé e de pai e esposo em nossa casa de que guardo no canto da memória as recordações possíveis.

Meu velho pai, como esquecer o herói que víamos em você? Como esquecer que o víamos alto e forte? Imagem que todo filho em criança, projeta do pai... Que importa seu 1,55m? Importa que sua altura é aquela do herói que até hoje vemos. A do herói que luta e resiste naquele Nordeste tempestuoso e áspero, ressequido e medonho, porém belo e de sol e céu azul...  Como, meu pai, negar seu heroísmo numa labuta quase de tirar leite de pedras? Como esquecer sua imagem a cruzar a soleira da porta em passos firmes de homem forte e lutador?

Não há como esquecer também de seu barroquismo: tristeza e alegria a um só tempo. Esquecer como, de seu justificado nervosismo frente às intempéries porque passou? Mas como esquecer sua alegria a receber quaisquer de seus amigos?
Alma forte! Alma de gente que acredita e não desespera. Alma, talvez, de pedra e flores. Pedra porque delas é feito esse nosso chão; flores, porque esse nosso chão ensina-nos também a sermos de flores, e nesse contrabalanço de vida chegou o senhor aos 75 anos. Vitória, meu velho, porque Severinos morrem "de velhice antes dos trinta e de fome um pouco por dia", como escrevera um nosso poeta, João Cabral, a quem o senhor não conhece, mas ele conhece a todos nós.

Coincidência, meu pai, o senhor é um Severino. Severino José dos Santos, igual ao outros, "em tudo na vida". Não emigrou, é certo, como os outros, porém saiu junto com esse filho, no sonho e na esperança messiânica de dias melhores. E vencemos, meu velho! Vencemos todos! E a terra se fez no leite e mel que talvez de nossas pedras não tirássemos ou tirássemos pouco. Aquele pouco-quase-nada.
30 de novembro! Aniversário de seu Biró. Sabe, seu Biró, aqui em Vassouras, como aí em Bezerros desse Pernambuco, o senhor não é Severino, o senhor é Biró, e será assim. Este é o seu nome e todos aqui, a quem devoto carinho e amizade têm o igual carinho e amizade estendidos ao senhor. Seu Biró!

30 de novembro! Aniversário de seu Biró... Como esquecer, meu pai, de um dia em que me falou que sua casa seria sempre de seus filhos? Saiba, então, seu Biró, que esta casa que se chama coração será também sempre sua como nossa é essa casa grande, enorme que é seu coração de pai e amigo.
Receba meu pai, neste 30 de novembro, as honrarias que merece. Receba nesse dia todas as congratulações possíveis e tenha sempre no alto desses 1,55m de sabedoria todo um sacrário de vida e amor.

Quero meu pai, tributar-lhe toda uma vitória que alcancei nestes anos todos de luta e busca por dias melhores. Dizer ainda que essa vitória é tão sua que não consigo falar dela, sem antes mencionar sua importância no incentivo, no desprendimento e no acreditar na minha força de vencer em terra que não é a nossa, mas que me recebeu como a um filho, e por isso não me foi madrasta. Agradecer por sua confiança e fé é reconhecer toda uma coragem que o senhor teve de soltar para o mundo o seu filho que, como muitos nordestinos migram, sem lenço e sem documento, para citar Caetano Veloso, e de fato, na minha mala só vieram os sonhos e a vontade sem os quais, quem vence? Desde o começo o senhor acreditou e hoje eu apenas agradeço.

Lembre-se de que naquele 9 de setembro de 1988, o senhor embarcou comigo nesse sonho e nessa vontade. E vencemos.

Nesses 75 anos o que mais poderíamos dizer, senão que o senhor será sempre nosso herói? E não apenas aquele de nossa infância, em que víamos tudo grande, enorme, inclusive o senhor, mas o herói que sem armas, venceu. E vencer para nós tem todas as significações possíveis, principalmente esta de chegar aos 75 anos com a resistência das pedras e dos mandacarus que circundam nossa vida.

Daqui, meu pai, desse Rio de Janeiro que nos separa apenas fisicamente, imagino-o a soprar essas velinhas de vitórias tantas, na esperança de que muitas ainda sejam assopradas por este seu fôlego de vida e saúde.

Chegou a hora de apagar a velinha...
Vamos cantar aquela musiquinha?

Parabéns, meu velho, e para não ser repetitivo... Meu herói!

Vassouras, 30 de novembro de 2004.
Pedro Pernambuco.  
Texto escrito de forma amadora em 1997, ano de término de graduação, e a que guardo com carinho, por ter o poeta Manuel Bandeira como um dos meus preferidos, sempre, devido ao seu olhar tão terno para o cotidiano e para as coisas simples e belas, consequentemente. Acho que é isso. Abraço a todos.


As mulheres de Manuel Bandeira

                                                                                               Por Simão Pedro dos Santos


Temática recorrente em Manuel Bandeira, o universo erótico constitui requinte, sofisticação, elegância, sensibilidade e sensualidade tão belas que fascinam e prendem o leitor.

O poema Nu, (Duas canções do tempo do beco), revela erotismo e volúpia intensos, trabalhados com a destreza de quem traz experiência e sabe desvestir a mulher. Nesse trato com as palavras, a impressão que se tem é a de que a mulher aflora, sai do poema, numa imagem plástica que traz perplexidade e surpresa:
           
                                                       Quando estás vestida
                                                       Ninguém imagina os mundos
                                                       que escondes
                                                       sob tuas roupas.

Há malícia no dizer, mas o eu lírico o faz com tanta sagacidade que deixa nua a beleza do poema. Há um despir, mas há um pudor natural que transparece em toda a linguagem palavra com que o poema é trabalhado. Interessante notar que a beleza dessa mulher não pode ser vista, contemplada à luz do dia. O dia, contrariamente, ofusca o que naturalmente era para ser percebido, exatamente por ser dia.  Só no recato e nos segredos da noite, porém, pode-se ter essa constatação:

Assim, quando é dia
Não temos noção
Dos astros
Que luzem no profundo céu.

A ideia de prazer se dá no campo semântico das palavras astros que luzem e profundo céu, o que expõe, mostra a noção mesma de se estar em outra dimensão, em outros mundos proporcionados pelo prazer e êxtase somente encontrados no vivenciar o amor  Eros.
Os desejos em torno da mulher se misturam ainda à profunda liberdade da noite nua e entre paredes misteriosas. Mulher e noite se fundem em metáfora do prazer e do desejo intensos, para possibilitarem ao eu lírico o sentido das descobertas e, consequentemente, das conclusões. Noite e mulher latejam, são profundas e ardem. Noite e mulher são para serem descobertas:

Mas a noite é nua
E, na noite
Palpitam teus mundos
E os mundos da noite

O corpo da amada agora aparece completo e essa totalidade se dá numa descrição fulcral de pontos sensíveis e desejados da mulher:

Brilham teus joelhos
Brilha teu umbigo
Brilha toda a tua
Lira abdominal

O detalhe de maior sensualidade se dá na comparação da mulher à árvore forte, robusta e seu fruto. Mulher e natureza se confundem sutilmente, pois seios quase sempre se traduzem em imagens poéticas que têm a ver com frutos, pomos vertidos para a metáfora do amor maduro, meigo, delicado e, certamente alvos de desejos e até de cobiça. Frutos maduros ensejam vontades, doçura, sonhos e ânsia de toque e conquista. Os seios da mulher despertam doçura, desejos e a vontade do toque. Ao utilizar essa imagem o poeta leva o leitor a despertar olfato, visão, tato e paladar, configurando o desejo de realização da conquista e conseqüente degustação do fruto:

Teus exíguos seios
- como na rijeza
Do tronco robusto
Dois frutos pequenos.

Acentue-se ainda o tocar do corpo, detalhadamente, a sensualidade e sutileza da descrição desse toque e a admiração com o corpo dessa mulher é tratado. Interrogação e exclamações depõem desse deslumbramento:

Teus seios?
Teus duros mamilos!
Teu dorso! Teus flancos!
Ah! Tuas espáduas!

O ponto mais alto desse erotismo dá-se nas três últimas estrofes, quando o grau máximo de todo um desejo é observado em versos como olhar mais longo, mais lento, mais líquido, o que denota libido, desejo incontido, incontrolável e algo que foge ao controle. O involuntário desejo se derrama em líquidos, como resposta do olhar voluptuoso, que quer e devora antes do banquete.

O encontro, porém, o conhecer-se, o penetrar é percebido na semântica de palavras como boiar, nadar e saltar, em sintonia com palavras-chaves de os sugestivos versos: Baixo num mergulho/ perpendicular.

Concluindo o ato, a satisfação mútua dos corpos, o prazer do encontro em profundidade:

Baixo até o mais fundo
Do teu ser, lá onde
Me sorri tu’alma
Nua, nua, nua.

Rio de Janeiro, 08/101997.

 






                                                              

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Texto em homenagem aos 70 anos de J. Borges, cordelista, e, principalmente, um dos maiores xilogravuristas populares do Brasil, com reconhecimento internacional. Pesquisem e saberão de sua importância. Abraços.

JOSÉ FRANCISCO BORGES – HOMEM DE MADEIRA E CORDEL

                                                                                                      *Pedro Pernambuco

J. Borges faz neste 20 de dezembro, 70 anos. Uma vida dedicada à arte. Literatura de cordel e xilogravura integram o seu universo. Traço inconfundível, sua gravura é toda uma concepção desse nosso mundo/Nordeste; de nossa alegria; de nossa tristeza; de nossa fé e esperança.

Saída do povo, a expressão de sua alma, só poderia estar em seu povo no seu sentido mais original. J. Borges é o próprio povo em suas representações. Seu cordel depõe de tudo isso e sua xilogravura não menos.
Na sua arte todo um universo do Nordeste é presença constante e não haveria de ser diferente: o cinzento das secas ou o verde cortante dos canaviais são motivos para o talhe de sua gravura e para a apreensão de sua sensibilidade.
É Borges o homem local se fazendo universal e isto se dá justamente porque seu olhar é aquele do cidadão imbuído na história e no mistério de seu povo.

De seu olhar e de suas mãos saem o traçado e o corte a que o nó da madeira tem de ceder. Nó. Nordeste. Nós todos embutidos na umburana. Nosso dia-a-dia eternizado por este cronista da madeira: casamentos de matutos; caçadores; agricultores a cavar o pão nas pedras; Lampiões e Marias Bonitas redivivos em nordestes bravios; o retirante; o forrozeiro em festa; o cantador ou o vaqueiro; prostitutas humanizadas sob a proteção de um céu borgeano e complacente; feirantes e feireiros; carnavais coloridos de papangus quase medievos em mundo pós-moderno; santos e diabos (mas diabinhos bons, brincalhões, quase bobos de corte) em representações de nordestes brincadores frente às adversidades. Nordestes joões grilos que tentam saltar as intempéries com um heroísmo entre o lúdico e o real. Eis a crônica de J. Borges.

Não é fácil discorrer sobre o homem que hoje deixa seu Nordeste e corre o mundo. Difícil dizer do homem que sai de Bezerros e atravessa fronteiras. Mas é também paradoxalmente fácil dizer deste homem que nos faz espectadores e personagens de sua narrativa de madeira e cordel. Fácil dizer desse homem que é ao mesmo tempo personagem de sua inventiva, pois sua madeira e sua história se confundem ou na verdade, se fundem e tornam-se uma coisa só. Única. Portanto, história verdadeira transposta para a linguagem da arte.

J. Borges é isto: identidade e identificação com seu povo e, desse modo, não se sabe se sua obra é arte disfarçada em verdade ou verdade disfarçada em arte. O que se sabe é que J. Borges é artista. O que se sabe é que J. Borges re-cria mundos, universos. Mundos em que gostaríamos todos de habitar, porque mundos da arte, da fantasia, da festa, do brinquedo. O não lugar a que todos gostariam de pertencer. Pasárgadas onde tudo fosse possível, como propunha e queria Manuel Bandeira.

J. Borges. 70 anos! Uma vida. Uma história. O papel e a madeira contando e cantando/encantando a todos. Encantando o mundo e re-fazendo a história deste Nordeste de homens fortes e bravos. Homens a quem J. Borges representa no cordel e na madeira em cotidiano às vezes crítico, noutras quixotesco, noutras evasivos... Nordestino.

Estamos todos de parabéns, porque J. Borges é de Bezerros. É de Pernambuco. É do Brasil. É patrimônio.

70 anos! Setenta dezembros! Parabéns! Uma saga de cordel esse J. Borges!

* Pseudônimo de Simão Pedro dos Santos, mestre em Literatura Brasileira, pela UFRJ e professor de Letras da Universidade Severino Sombra em Vassouras – RJ e do Centro de Estudos Integrados, em Barra do Piraí – RJ.

segunda-feira, 12 de março de 2012

Mesa de demolição e outros materiais poéticos: Canção às mulheres ao modo de cordel, sob o mote: ...

Mesa de demolição e outros materiais poéticos: Canção às mulheres ao modo de cordel, sob o mote: ...: Canção às mulheres ao modo de cordel , sob o mote: A mulher é uma flor que nasceu no paraíso... Senhores, esta é uma homenagem à mulher...

Canção às mulheres ao modo de cordel, sob o mote: A mulher é uma flor que nasceu no paraíso...

Senhores, esta é uma homenagem à mulher pelo seu dia internacional.
Tomara vocês gostem.
Nosso desejo é o de que o 8 de março tenha sido bem comemorado.
Vivas às mulheres!
Este texto foi feito por mim, em uma reunião do curso de Enfermagem da Universidade Severino Sombra, em Vassouras - RJ, no ano de 2008, por ocasião desta data especial.
Abraço a todos.


Que tristeza para o homem
Se pobre e sozinho vivesse!
Triste e só, talvez morresse
Pois tristezas só consomem.
Mas todas as dores somem
Quase como um improviso
Pois no momento preciso
Vem a mulher, sai a dor
A mulher é uma flor
Que nasceu no paraíso!

A mulher completar veio
Do homem a outra parte
Quem a fez usou de arte.
É a mulher nosso esteio
A mulher em nosso meio:
É mãos, é pés, nosso sizo
É paz, é sonho, é sorriso
É brilho, é luz, esplendor
A mulher é uma flor
Que nasceu no paraíso!

Do homem sem a mulher
Oh! Meu Deus, o que será?
Muito pobre ficará
Por rico que a ser vier!
Será um pobre qualquer
Reticente e indeciso
Uma boca sem sorriso
Uma vida sem ter cor
A mulher é uma flor
Que nasceu no paraíso!

Cláudias, Lilias e Joanas
Magdas, Cátias e Marias
Tão pobres os nossos dias
Sem Doras, Alices, Anas
Sem Elaiaras, Adrianas...
Oh! Que momento impreciso!
Que tamanho prejuízo!
Sem Margaridas, que dor!
A mulher é uma flor
Que nasceu no paraíso!

Não vieram de costelas
Como diz o Livro Santo
Acho que não peco tanto
Se com Deus criar querelas.
Essas criaturas belas
Ele fez usando o sizo
E num momento preciso
Ele as fez usando o amor
A mulher é uma flor
Que brotou no paraíso!

Se Deus esse mundo fez
Elas a vida nos dão
Solo fértil, e o grão
Explode em gravidez!
E a vida mais uma vez
Entre nós se faz patente.
Que o homem não seja ausente
E agradeça ao Criador
Pois Ele com muito amor
Nos deu tão belo presente!

Apresento-me!

Meu nome de pia, como o de qualquer Severino, é Simão Pedro dos Santos.

Sou pernambucano, atuo como professor universitário (Letras e outros cursos, na rede particular) e leciono também no ensino médio (rede particular).

Tenho mestrado em literatura brasileira. Atualmente, curso doutorado, igualmente em literatura brasileira. Estudo a literatura erudita e a popular com o mesmo prazer. Gosto de leituras, e, vez por outra me aventuro na feitura de textos. Faço-o como amador e não tenho a menor pretensão com isto.

Moro no Rio de Janeiro há mais de vinte anos e tenho o maior amor e respeito por este lugar. Especificamente, resido em Vassouras, que fica no sul fluminense.

No mais, gosto das coisas simples. Sou um amante das coisas boas...

Moro com Adriana (esposa), Bruno, Iago e Ana Raquel (filhos).

“Bebo pouco. Falo menos ainda” (Manuel Bandeira), mas reinvento as coisas do cotidiano, inclusive, adoro a Teodoras e amo a Marias...

Acho que é só.

sábado, 10 de março de 2012


Thiago de Mello, poeta da liberdade e dos poemas azuis
                                                Prof. Pedro Pernambuco

No dia 10 de dezembro de 1948 foi proclamada a Declaração Universal dos Direitos Humanos na Assembleia Geral das Nações Unidas. O mundo saíra, havia três anos, da Segunda Grande Guerra e aspirava à paz, embora pequenos reinos, povos africanos, gentes das mais diferentes castas brigassem, e com muita violência, mas por direitos, em torno de liberdade, independência e justiça, na ânsia de encontrar a tão paradoxal paz. Mas o velho mundo não mudou! E, parece, não irá mudar.

Alguns anos depois, precisamente, na década de 60, África, Ásia e quase todas as Américas vivem profunda crise política sob ditaduras, assim mesmo, em letras minúsculas, e suas tiranias: prisões, bocas e olhos vendados, cerceamentos, vigilâncias, perda de liberdade, no sentido mais amplo, e perseguição aos que não concordavam com este status quo, a saber, poetas, músicos, pintores, artistas das mais variadas linguagens, além de políticos contrários à situação.

No Brasil, o regime totalitário tem início a 30 de março de 1964. E como todo regime dessa natureza, declarou, aos poucos, o silêncio. Nossa musa calou? De forma alguma! Poetas criaram simulacros que lhes permitiam dizer verdades nas entrelinhas, como é próprio do bom texto. Basta lembrar um Gilberto Gil, um Caetano Veloso, um Chico Buarque, entre outros, todos unânimes no combate à ausência de liberdade, e, consequentemente, na luta pela liberdade de criação e de expressão. Esses artistas são, porém, conhecidos do grande público por sua poesia e música terem sido veiculadas em registros fonográficos, Festivais de Música, teatros, nas ruas...

Um poeta, no entanto, talvez menos conhecido na época, se achava exilado no Chile, especificamente em sua capital. Era Thiago de Mello, que cria em abril de 1964, um dos mais belos poemas da literatura brasileira. Trata-se de Os Estatutos do Homem (Ato Institucional Permanente), que foi dedicado a Carlos Heitor Cony, outro defensor das liberdades. O poema transparece um nítido diálogo com os Atos punitivos do governo ditatorial brasileiro, os chamados Atos Institucionais, e como o primeiro deles é de 9 de abril de 1964, é certo que o poeta, com seu olhar aguçado, constrói criticamente sua poesia engajada sem usar de violência, mas tendo como arma a palavra.

Como na Declaração Universal dos Direitos Humanos, e nos nossos Atos Institucionais, o poema apresenta estrofes-artigos com palavras de ordem que levam unicamente aos ideais de liberdade e de justiça, o que o aproxima do texto da Declaração Universal e o diferencia em muito, daqueles dos ditadores. Não nos é possível apresentar na íntegra o poema, devido às 15 estrofes de que se compõe, mas faremos uma pequena mostra daquilo que parece mais interessante. Perdão. Será que as outras estrofes são menos interessantes? Definitivamente, não.

Primeiramente, leiam os fragmentos a seguir: 

Artigo I 

Fica decretado que agora vale a verdade. 
agora vale a vida, 
e de mãos dadas, 
marcharemos todos pela vida verdadeira. 

Artigo II 

Fica decretado que todos os dias da semana, 
inclusive as terças-feiras mais cinzentas, 
têm direito a converter-se em manhãs de domingo.

Artigo III 

Fica decretado que, a partir deste instante, 
haverá girassóis em todas as janelas, 
que os girassóis terão direito 
a abrir-se dentro da sombra; 
e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro, 
abertas para o verde onde cresce a esperança.
Parágrafo único: 
O homem, confiará no homem 
como um menino confia em outro menino. 

Artigo V 

Fica decretado que os homens 
estão livres do jugo da mentira. 
Nunca mais será preciso usar 
a couraça do silêncio 
nem a armadura de palavras. 
O homem se sentará à mesa 
com seu olhar limpo 
porque a verdade passará a ser servida 
antes da sobremesa. 

Artigo Final. 
Fica proibido o uso da palavra liberdade, 
a qual será suprimida dos dicionários 
e do pântano enganoso das bocas. 
A partir deste instante 
a liberdade será algo vivo e transparente 
como um fogo ou um rio, 
e a sua morada será sempre 
o coração do homem. 

Caríssimo leitor, depois que você leu nosso poeta, apresento-lhe os meus decretos em caráter irrevogável, e que entrarão em vigor após sua publicação:

A partir de agora fica decretada a leitura deste poeta que merece ser mais conhecido e reconhecido por todos os que gostam de poesia e dos homens sábios. Ademais, a boa poesia da humanidade, e de todos os tempos, nos faz enxergar a verdade e a esperança. Faz-nos vislumbrar o grande sinal, de que, unidos e de mãos dadas, todos os homens alcançarão a verdade, a libertação e a sabedoria.

A partir de agora fica decretado que a poesia é leitura obrigatória nas fábricas, nas escolas, nas ruas, nas praças, no campo, nas varandas, nas sacadas dos prédios, nos ônibus... Em viagens sem limites.

A partir de agora fica permitido inclusive, que se grafitem com letras garrafais, e em todos os muros, que a poesia é nossa salvação.
A partir de agora fica decretado que jamais será proibido ler... E sonhar...