terça-feira, 28 de outubro de 2014


Dispondo ou não de água, São Paulo nunca afogará seus nordestinos

Nas eleições de 2010 e nesta de 2014, com segundo turno em 26/10, não foram pequenas as polêmicas no que respeita a São Paulo e sua relação com os nordestinos. Acontece que esse estado, com a dimensão territorial que apresenta, e sob os mais variados pensamentos e mentalidades, o que é presumível, nunca representará o todo da celeuma, pois para representá-lo, haveria de a ideia ser unânime, o que não ocorrerá num grupo tão multifacetado. É a lógica.
Não há como imputar essas ideias racistas à população desse valoroso lugar, pois sua realidade se faz com exemplares dos mais variados lugares do Brasil e do mundo, o que dá tanto ao estado quanto à sua capital um feitio multicolorido e cosmopolita.
Não queremos que os olhos do mundo vejam o estado mais importante do país como foco nazifascista. Não queremos uma imprensa má, os comentaristas tendenciosos ou sociólogos não sérios a alimentar medos, como se alimentam no bico, e aos pouquinhos, filhotes abandonados de pássaros. Não creiamos nisso,  brasileiros que somos, humanos que ousamos ser.
Fechar os olhos à parte dessa realidade, também não podemos. O fato existe, mas havemos de ter os olhos abertos à maledicência, à calúnia, ao ódio que poucos semeadores tentam lançar ao campo da discórdia e do desentendimento entre irmãos, numa tentativa quase real de se criar um “Muro da Vergonha” num país como o nosso, que nunca ou quase nunca se imaginou separado. 
A arma de que dispomos para combater o ódio que alguns deslumbrados querem nos impor, se dará em forma de agradecimento ao lugar que é de todos os brasileiros e de tantos povos do mundo que o construíram e o constroem.
Velha Pauliceia, sem nordestinos tua paisagem seria mais cinza! Desse modo, agradeçamos-te por nos receber antes de PSDBs, PTs, PMDBs quaisquer. Queremos te agradecer, porque sempre nos deste a oportunidade de trabalhar, de crescer, de constituir nossas famílias. Queremos te agradecer, porque crescemos juntos. Sempre juntos.
Sempre nos deste o material e nós, trabalhadores e corajosos, te construímos, te erguemos, te verticalizamos e te horizontalizamos. Somamos. Queremos te agradecer, porque somos nordestinos. Porque somos fortes, valentes, aguerridos e não temermos a luta. Queremos te agradecer, pela oportunidade de, juntos, construirmos com mãos trabalhadoras o estado mais próspero da federação. Mãos nordestinas, paulistas, paulistanas, mineiras, japonesas, italianas e tantas mais. Mãos que trabalham. Mãos de toda matiz.
Queremos te agradecer, pelo convívio em meio a tantos povos, brasileiros ou não, na construção, no progresso e no crescimento desse país chamado Brasil. Queremos te agradecer, porque somos brasileiros, antes de qualquer bandeira partidária.
Queremos te agradecer sempre, São Paulo. E para encerrar, sabemos que tens por nós eterno preito de gratidão.
De nossa parte, sabes ainda: a recíproca é verdadeira. 

Texto originalmente publicado no Tribuna do Interior, jornal que circula na cidade de Vassouras – RJ, região sul fluminense e baixada fluminense.

sábado, 11 de outubro de 2014

Onde está meu velho Leão do Norte?

Não quero me referir a Eduardo Jorge nem ao pastor Everaldo (não sei se surpreenderiam com a atitude de apoiar Aécio). O que não consigo ver é meu estado, Pernambuco, (principalmente no que toca a Recife e área metropolitana, além da região canavieira), de notável tradição de esquerda, ser hoje o marco da direita brasileira.
O que está acontecendo? Impossível isso ocorrer há não muito tempo, num estado que sempre foi libertário, que desde o século XIX mantém uma história de luta e rebeldia contra os poderosos com um Frei Caneca, uma Bárbara de Alencar, um padre Roma. Isso para não citarmos a bravura desse velho estado dos tempos da Inssurreição Pernambucana, ainda no século XVII.

O que tem havido em meu estado de história mais recente, representada pelo PSB de Arraes, e por homens da estirpe de Francisco Julião, Gregório Bezerra, Pelópidas Silveira, Barbosa Lima Sobrinho e outros tantos?
Não dá para ver as "lideranças" do velho Leão do Norte guinarem para a direita de forma tão impensada, tão interesseira.
O líder Miguel Arraes jamais agiria dessa forma, pois em sua cabeça vinha, sabiamente, a ideia de que o povo não era merecedor de atitudes tão pequenas. É. Mas nesse caso, estamos falando de Líder, assim, com L maiúsculo. Quero ver um dia meu estado voltar a ser escrito assim, com P maiúsculo. P de Pernambuco a acertar o passo pelos caminhos que sempre trilhou: o da coerência, das lideranças, das metas que visavam o povo, a liberdade, a justiça.
Por enquanto, vamos ver aonde iremos. E sei que voltaremos. É nossa história. Nossa raiz. Nossa tradição. Pernambuco nunca foi berço de fraquezas. Pernambuco sempre foi berço de grandes ideais e de grandes idealistas. E tenho dito. 

domingo, 5 de outubro de 2014

Um cafezinho, um pão com mortadela e a conta... Por favor
O dono da cantina do canto da rua tem ficado muito feliz pela venda de cafezinho e pelo aumento da saída do pão. Na barraca de pastel, comemora-se, igualmente, pois o tacho tem borbulhado avidamente na feitura de pastel e o balconista quase não tem dado vencimento à demanda. A mortadela, o presunto e o queijo têm sido as vedetes do balcão.
Nas ruas, a profusão de abraços, os beijos e os apertos de mão dão coloridos às cenas. Camisas suadas, mãos quentes, rostos em bicas de suor. Nos mercados, nas feiras, pessoas aos borbotões se misturam aos ilustres visitantes. Calor humano é o que não falta nesses tempos. Sorrisos soltos se direcionam a desconhecidos como se conhecidos fossem desde a infância.
Legião de fregueses polidos palmilham restaurantes populares entre clientes comuns e incomuns, todos sentados às mesmas mesas, sem distinção. O mendigo, o desempregado, o negro pobre, o branco pobre, o catador de papel dividem o espaço com os visitantes ávidos, famintos, sedentos...
A procissão dos que possuem serpenteia em meio aos pedintes, aos humildes, aos trabalhadores, aos que não possuem, ao cidadão comum. Caminhadas a passos firmes por entre o povo. É terminantemente proibido se falar em vaidade, orgulho, malícia, falsidade, mentiras, arrogância. Caminhada solidária por entre as gentes, andar pacífico e riso frouxo pelas ruas apinhadas propensas ou não a ouvir promessas de sonhos e realizações...
Mas voltemos aos pastéis deglutidos com voracidade. Ao doce café a descer fácil por goelas que nem sempre gostam de cafezinho. Ao esforço para suportar pão com mortadela. À força de vontade para fazer sumir fatias de presunto. À boa-vontade de se ingerir o fresco caldo de cana com oleosa coxinha. Voltemos aos alegres rostos para as tão em voga autofotografias, as já famosas selfies com os demais passantes do cotidiano. Voltemos aos braços suspensos a segurar manoplas de trens, de metrôs, de ônibus no balanceado sonolento e gaguejante da cata ao precioso voto.
O positivo de tudo isso é a reflexão: nosso comportamento, com o fim de convencer o outro, leva-nos à transformação, a ser como o outro, com o fim de conquistá-lo. Isto é humano. É histórico, até. Há uma quase humilhante situação, sobretudo para aquele que não se quer nem se pretende igual ao outro, o arrastar-se em nome da desenfreada busca pelo poder. (E a vingança do eleitor estar em enxergar isso). É certo, há os que gostam do povo e de com ele estar, e nesse caso, vigora a autenticidade dos que vivamente respiram política, mas esse aspecto só cabe às avis rara do ideal político.  
Mas voltemos aos passeios esporádicos: fico feliz pelos donos da padaria, do caldo de cana com pastel e da lanchonete, que tiveram aumentadas as vendas, pelo menos, por agora. Mas lamento pelo meu filho, que só será beijado e posto nos braços novamente, daqui a quatro anos, e por alguém a quem nunca viu, não sabe quem é e de onde veio e o que irá fazer. Se é que fará alguma coisa. 


Texto originalmente publicado no Tribuna do Interior, jornal que circula na cidade de Vassouras – RJ, região sul fluminense e baixada fluminense