segunda-feira, 25 de junho de 2012


Ano eleitoral e redes sociais – que eleitores deveremos ser?
                                                                              Pedro Pernambuco*
Ano eleitoral. O que fazer na escolha de candidatos que correspondam às nossas expectativas sem que nos enganemos? Nossa grande pergunta é a seguinte: que cidadão está apto a um cargo eleitoral sem interesses particulares? Que eleitor está apto a votar sem interesses particulares? Havemos de entender que político é aquele que exerce atividade pública e isto, em outras palavras, é a arte de bem governar.

Votar, participar dos destinos da cidade, ter interesses em questões ambientais, propor a melhoria de sua comunidade, eleger seu líder, não jogar lixo nas ruas são atitudes políticas do homem, uma vez que vivemos em sociedade. Aristóteles, filósofo grego, afirmara séculos antes de Cristo, que todo homem é um ser político. Fácil de entender: é aquele que opina e participa dos destinos de seu povo, de sua cidade, pois todo ser político visa o bem comum, já que o homem é um ser gregário, ou seja, não vive só, segundo ainda Aristóteles.

Fazer política é não ser politiqueiro, não tomar parte da politicagem, mas, conscientemente, agir, com o fim de ampliar, melhorar, fazer com que ideias inteligentes sejam aplicadas em sociedade para o bem de todos e não de grupos isolados, particulares, que trabalham em torno de si. Fazer política, viver política, como cidadão que vota, não é trocar favores, mas vivenciar o interesse social com caráter democrático.

Fazer e viver a política é, teoricamente, e na prática, ser cidadão que não faz escambo de seu voto. Quanto vale uma telha? Qual o preço de um tijolo? Por que remédios têm de valer por votos? Se há essa troca, o que se pode dizer do cidadão? O que se pode cobrar do candidato a quem se escolheu para decidir os rumos de seu povo?

Há de se compreender, por exemplo, que quem é eleito para o Legislativo tem por função criar, modificar ou até revogar leis para o Estado e para a conduta dos que nele vivem. Ao Legislativo cabe representar a maioria e a minoria dos cidadãos, além de fiscalizar atos do Executivo, no zelo pelo bem-estar da coletividade. Legislar não é trabalhar em causa própria, como infelizmente, tem ocorrido. Legislar não é criar mecanismos de enriquecimento, como vemos à plena luz do dia. A sociedade ainda tem estado imatura no sentido de fiscalizar aquele a quem escolheu em quaisquer das instâncias políticas. E isto é uma lástima.

Tem havido, é certo, nos dias atuais mais conscientização. Temos, com o advento das redes sociais, agido de forma a denunciar, disseminar desmandos, irresponsabilidades e a propor mudanças, mas ainda não é suficiente, embora represente algum avanço para o aguçamento de nosso olhar de fiscalizadores dos políticos. Temos de utilizar desses recursos tecnológicos a que acessamos livremente para assinar manifestos, cobrar atitudes, publicar insatisfações coletivas para que se façam cumprir obrigações que não representem favores, mas direitos. Graças à tecnologia, temos perspectivas de mudanças. Desse modo, usemos nossa voz e nossa inteligência para gritar, anunciar aos quatro cantos que podemos mudar esse país, que podemos mudar nossas cidades. Que podemos reverter situações e que podemos viver numa sociedade mais justa, sincera e que não se dobra a caprichos particulares.
 
Que tempo passamos sem ter ouvida a nossa voz? Que veículo de comunicação dava-nos a oportunidade de nos expressar? A grande mídia, sempre aliada por interesse, aos políticos, ou melhor, aos maus políticos, nunca deixou de fazer vistas grossas à desordem política e o povo não tinha como espalhar ideias, buscar seus direitos, e se isto ocorria, era timidamente. Poucas vezes, nos últimos trinata anos, tivemos grandes movimentos de vozes coletivas que fossem mediados por importantes sistemas de comunicação. Todavia, o mundo mudou. Estamos mudando, e aos poucos, é certo, temos avançado, e nossos rumos, paulatinamente, estão em nossas mãos, graças à mídia aberta que é a rede mundial de computadores que por seu turno, tornou o mundo menor, mais coeso e com voz. Podemos hoje propagar nossas ideias, valores, protestos, indignação a todos os seus quadrantes. E cá para nós, apesar de ser uma faca de dois gumes o universo on-line, se bem aproveitado, é a grande arma de combate, de luta e denúncia a qualquer ameaça de corrupção política da grande comunidade universal.

Apropriemo-nos desse aparato tecnológico a que temos acesso e façamos dele nosso posto de fiscalização, de troca de ideias políticas, de porta aberta para o mundo e não sejamos eleitores tacanhos, avaros. Não pensemos apenas em nós, como fazem alguns políticos. Pensemos no grupo, na coletividade, para que depois possamos cobrar com a legitimidade e, sobretudo, com a dignidade que é, ou deveria ser inerente a todo ser em sociedade.

O mundo está de portas abertas. Escancaradas. Façamos disso a janela, através da qual possamos deslumbrar melhor futuro para a geração que nos sucederá.
     
*Pseudônimo de Simão Pedro dos Santos – Professor de Letras da Universidade Severino Sombra – Vassouras – RJ e de Literatura Brasileira do Centro de Estudos Integrados – Barra do Piraí – RJ. 

quarta-feira, 20 de junho de 2012


Cantar aos professores à maneira de cordel

       Por Simão Pedro dos Santos (Pedro Pernambuco)

O Brasil, desde os tempos de colônia
Adoece e nunca tem melhora
Sempre vive à mercê do que é de fora:
Inglaterra, EUA, Rússia, Polônia.
Começou nossa pátria a ser errônea
No “terra à vista” do seu descobridor,
Isto é, modernamente, o “achador,”
Que a princípio não notou nem resistência.
O Brasil só será uma potência
Se souber quanto vale um professor!

Já não deve ao FMI
Como outrora, mendicante, só devia.
Com cajado, com sacola ou com bacia:
Humilhação pros habitantes daqui.
Mas se hoje, cada um cair em si,
Bem verá: continua a mesma dor
Lá no Sul, lá no Norte ou onde for:
Vê que falta à escola assistência
O Brasil só será uma potência
Se souber quanto vale um professor!

Não há dívida lá fora, como antes,
Mas se deve aqui dentro muita cousa
Informática impera sobre a lousa?
Quase isto, mas quantos estudantes,
Em lombos de cansados Rocinantes
Sertanejam idealmente sua dor?
Sob chuva, sob sol, raio, calor
A buscar o saber com paciência
O Brasil só será uma potência
Se souber quanto vale um professor!

Crianças na escola! É o Programa
A constar de PCNs e cartilha
De bons intentos está cheia já Brasília
Mas bons mesmo são poucos: uma gama!
Meu Brasil, quem é mesmo que te ama?!
Não me deixe a viver tamanha dor!
Ditadura de mídia, sem pudor:
Forja dados com extrema indecência!
O Brasil só será uma potência
Se souber quanto vale um professor!

Deputado “naniquinho” que não trabalha
E que decerto, nunca trabalhou
De vagabundos, a mil mestres nomeou:
Erro imbecil! Um erro de mortalha!
Parlamentar como este atrapalha
Pra lamentar, ou melhor, pra ter horror.
Seu discurso é motivo de pavor,
E do mal é seu texto, na essência.
O Brasil só será uma potência
Se souber quanto vale um professor!

Quanto vale, meu Deus, um deputado
No DF (Distrito Federal)?
Certamente, valor piramidal
Para o cofre do povo, já minguado,
Sofrido, lutador, muito suado,
A sustentar deputado esbanjador
Com discurso sem pauta e sem teor
E que vê educação sem coerência
O Brasil só será uma potência
Se souber quanto vale um professor!
 
Encerro por aqui o meu discurso,
Meio triste com a situação
Meu deus! Cadê a oposição?
Já não há. Já passou esse percurso!
Um dia já houve esse decurso,
Mas hoje não há mais opositor
Lamentável: todos têm a mesma cor
A mesma ideia e idêntica preferência
O Brasil só será uma potência
Se souber quanto vale um professor!

Dessa luta não nos desanimemos!
É minha fala aos nobres companheiros!
Gritemos por cem mil dias inteiros!
Pra dizer do valor que merecemos.
Nossa luta por aquilo a que queremos:
Salário justo para o educador!
Muito respeito e mais humano calor
E de Brasília, a mui justa reverência!
O Brasil só será uma potência
Se souber quanto vale um professor!

Vassouras - RJ, 11 de junho de 2012.
 


quarta-feira, 13 de junho de 2012


Os meninos do Vietnã – o quadro de uma guerra
                                                    Pedro Pernambuco[1]

8 de junho de 1972. Há 40 anos o mundo presenciava uma das cenas mais dolorosas captada pela câmera fotográfica de Huynh Cong 'Nick' Ut, da Associeted Press. O cenário é de guerra: Phan Thi Kim Phuc, então com nove anos, seu irmão mais novo e dois pequenos primos compõem o quadro em que fogem de bombardeio em sua vila natal, Trang Bang, no Vietnã.

Phan Kim em desespero a correr despida pela rua comove a todo o mundo naquela ocasião, como comove hoje, ao ter a imagem revista. É pavoroso ver emolduradas naquele quadro inocentes crianças a fugir da morte em sua vila incendiada pelo inimigo americano. Ao depararmos com a foto lembramos O grito, de Munch, pintor expressionista norueguês, que sintetizou a angústia existencialista do homem. A foto de Kim leva-nos a essa aflição existencialista, uma vez que nos seguem perguntas fatais: o que trazem as guerras? Que sentido há em matar, destruir o outro? Invadir territórios e ver inocentes arderem? O que é o homem? O que somos e o que justifica a invenção tão remota da guerra?

Perguntas como estas aparentemente não têm respostas, embora todos os homens tentem respondê-las segundo seu entendimento. Cada um dirá algo que acha, supõe encontrar correspondente, mas verdadeiramente, responder à questão como esta é não encontrar, nunca encontrar conclusão que convença. Guerra, essa ausência eterna de paz, resulta de maldade, ambição e ganância humanas. Guerra, essa destruição mútua dos povos, essa queda de braços sem fim, é humanamente/desumanamente respondível: o que justifica o mal?

Kim de vez em quando aparece nas mídias internacionais como exemplo de força e de sobrevivência. Exemplo de resistência e de força. Aos 49 anos, hoje, o que pensa a mulher ao rever a cena de quatro décadas passadas? O que pensa a mulher ao ver a menina a correr, como se corresse atrás dela mesma, por toda a vida, como um fantasma. Phan Kim criança, seguramente persegue a Phan Kim mulher, mãe, esposa, hoje.

Que cenas vêm à cabeça da mulher e da mãe hoje? Mães sentem as dores triplicadas, quadruplicadas de seus filhos. Dá para imaginar como sentiu dor a mãe de Kim – Se sobreviveu ao bombardeio – há quarenta anos? Dá para imaginar a dor de Kim por seu filho numa situação dessas – Deus a livre e nos livre – hoje? Esta mulher é tatuada, com certeza, daquela menina que insiste em dela não sair. Aquela menina representa a dor de uma guerra na mulher de hoje. E esta dor importuna a todos nós que nos arvoramos a achar que somos seres pensantes. Pensamos o quê? Pobres almas somos nós, os inventores da guerra que nos leva a exibir o vencido como troféu. Horripilante troféu! Como somos seres pensantes se queimamos, bombardeamos vilas e cidades e matamos inocentes? Kim é uma resposta por si. Kim responde à pergunta sobre o que é guerra. A resposta cabal sobre esse tema é Kim e tantas e outras Kins a quem o homem, na sua infelicidade, mutilou, marcou, matou.

Em reportagem recente, Phan Thi Kim Phuc diz: “Eu realmente queria escapar daquela menina” e conclui: "Mas parece que a imagem não me deixava ir.” Não deixa mesmo, é impossível, acreditamos, mas esse impregnar de sua imagem nela mesma seja, talvez, a grande lição coletiva de que a guerra dói e de que não deveria ser repetida, embora insistamos em promovê-la e repeti-la.

Ao sentir o chão balançar, o calor das chamas em sua direção e seu braço esquerdo queimado, na dolorosa passagem de Trang Bang, no seu destroçado e resistente Vietnã, Kim Phuc  pensava, além da dor, que iria ficar feia, que não iria ser mais normal e que as pessoa iriam vê-la de forma diferente.

E Kim não ficou feia, pois feia é a guerra. Kim é normal. Anormal é a guerra. E o mundo tem de ver e deve ver Phan Thi Kim Phuc de forma diferente: como exemplo e como mostra daquilo a que não se devia repetir. Mas aí está o homem, ser pensante, que insiste em se repetir.

A foto tirada por Huynh Cong 'Nick' Ut há quarenta anos é um quadro em torno do qual a humanidade deve refletir. E deveria estar em todas as paredes do mundo como um Michelangelo, um Da Vince, um Munch.

E Phan Thi Kim Phuc continua a ajudar a humanidade! 



[1] Pseudônimo de Simão Pedro dos Santos – Professor de Letras da Universidade Severino Sombra – Vassouras – RJ, e de Literatura Brasileira do Centro de ensino Integrado – Barra do Piraí – RJ.

Telhados do nosso casario, paredes da nossa velha memória
                                                                       Pedro Pernambuco[1]

Nossa reflexão hoje fica em torno do casario que integra o patrimônio arquitetônico de Vassouras. Nossa conversa se dará em torno de uma pergunta: o que se fará desse sítio histórico que é o centro antigo desta cidade? A pergunta é de leigo, mas a resposta tem de vir de especialistas. Há muito as indagações se dão da seguinte forma: quem cuidará de tudo isto? Como e o que fazer para preservar essa história?

Reuniões são feitas, ideias são dadas, apontam-se soluções as mais variadas, mas infelizmente, tudo fica no papel e as ações não se concretizam. Veem-se até escoramentos e tapumes como se isto bastasse e fosse a perspectiva de que as coisas caminham. Não se sabe o porquê de as ações de restauração não acontecerem, e aos poucos, o testemunho de uma época é varrido à nossa vista, e o que é mais grave: parece que não damos conta. Os mais atentos até percebem este fenômeno, mas não sabem ou não têm como resolver; e os que podem, e até têm como resolver, parece não buscarem o caminho para uma resolução, e ainda não nos respondem de forma plausível o que se há de fazer.

Para muitos, o passado já passou, com o perdão da redundância, mas para os sensatos, é do passado que depende o presente, e este é o que somos e o que podemos fazer. E o que podemos fazer com esse passado histórico de Vassouras, hoje? O que não dá é ver paredes a ruir, telhados a despencar e o risco de todo um depoimento do passado vir abaixo, sem uma explicação, sem um esforço – pelo menos é o que aparenta – sem um mínimo de vontade por parte de, não sabemos que esfera do poder público, em dar-nos alguma explicação.

Dá pena ver, sobretudo em finais de semana, os ônibus de turismo a atravessar a cidade sem termos o que mostrar, aliás, temos as quase ruínas. Dizem os mais sabidos e curiosos das conversas de praça, que turistas vêm para fazendas históricas, para hotéis que já têm roteiros a fazer pelos arredores dessa Vassouras carente. É o que chamam de turismo rural. Os hotéis têm suas propostas disponíveis em seus prospectos: acertada visão comercial. E o que mostrar de nosso patrimônio para esse turista sequioso por ver o urbano, rico e interessante traço arquitetônico vassourense?

Façamos algumas modestas perguntas com a igual curiosidade da resposta que talvez não tenhamos, mas não nos intimidemos: é possível solucionar questões como estas, se se entregar este patrimônio à iniciativa privada? Seria esta uma sensata solução? Será que, com um contrato bem engendrado, claro, objetivo, não se poderia traçar metas viáveis tanto para empresários interessados quanto para o poder público na busca de meios de preservação desses prédios em ruína? Conceder esses palácios para usufruto comercial, cultural, e ao mesmo tempo, ter como contraproposta sua restauração, não seria um quê de vontade política? Em contrapartida, quanto de oportunidade de emprego se abriria? Quantos profissionais teriam oportunidade? 


Não sabemos até que ponto estamos certos, mas temos a certeza de que o que nossos olhos têm enxergado, não nos agrada, o que resulta em interrogações, indagações que, se não são respondidas, leva-nos à convicção de que há pouco caso por parte daqueles a quem recai a responsabilidade, de pelo menos dar respostas convincentes – é o que deixam transparecer – o que leva-nos, aos poucos, à conclusão de que tudo o que temos e vemos será ruína. Literalmente.

Não custa lembrar, porém, que povo que não guarda seu passado, não tem presente nem identidade, e consequentemente, não terá futuro. E é esta a nossa preocupação: o que mostraremos aos nossos filhos e netos?  



[1]Pseudônimo de Simão Pedro dos Santos. Professor de Letras da Universidade Severino Sombra – Vassouras – RJ. Professor de Literatura Brasileira do Centro de Educação Integrada – Barra do Piraí – RJ.