terça-feira, 8 de setembro de 2015

Nossa herança, nossa maldição ou aonde chegar com esse presente

No país do eterno desmando, da troca de favores e do lema “é dando que se recebe”, atribuído a São Francisco, e irônica e injustamente usado como referência aos sujos escambos da política, nos habituamos às velhas manchetes e reportagens em torno de escândalos, de que sabemos, pouco resulta: punições, condenações, prisões são “privilégios” de poucos, que ainda assim, saem ilesos, pouco tempo depois, enquanto nós, o povo, ficamos a ver navios.

A síndrome da politicagem vem de longe e sempre foi, hoje e sempre, a tônica e a prática de nossos representantes. Coronéis, personagens reais e comuns aos interiores de nossa Pátria, sempre agiram, sem escrúpulo algum, em proveito próprio e pela sede do poder que sempre os encantou. Terras acrescidas, gado em expansão, riqueza avultada fizeram dos grandes senhores aliados políticos dos centros do poder em troca do voto comprado dos pequenos e simples trabalhadores. Moto contínuo, essa prática nunca foi extirpada de nosso país. Nem será.

Os coronéis dos grandes centros também são uma realidade e sempre foram: aglomerados empresariais têm seus políticos de plantão, seus lobistas, seus agentes no Planalto Central, nos governos estaduais, nas prefeituras. Aprovam-se aquilo que lhes redundam em vantagem, pois são eles que sustentam campanhas eleitorais, injetam verbas, fazem seus representantes: deputados federais, estaduais, senadores, vereadores, que, atrelados ao monopólio econômico equivalente a suas bases, alimentam e nutrem a corrupção.

Não é apenas nesses turbulentos tempos que senadores e deputados debatem e se debatem a fim de permanecem no poder para sustentar cartéis. A história existe para nos mostrar quão antiga é essa prática legada desde a colônia, e que não deveria constar mais nos currículos de nossos representantes de quaisquer partidos, mas consta e é lastimável.

Enquanto isso, nosso desestruturado país vem a passos não curtos nos impondo impostos, encargos estapafúrdios, divisão injusta de riquezas, empobrecimento generalizado, descaso com educação, saúde e segurança, entre outros compromissos, o que resulta numa sutil separação do povo em castas que nunca se entenderão, pois dois ou mais brasis vêm se construindo: há o dos demasiadamente ricos, que não abrem mão de seus privilégios, há o dos medianos que se contentam com o grito das orlas; há o dos assustadoramente pobres sem voz nem vez, há o dos outros pobres que buscam a voz e continuam sem vez.

E nesse jogo de resultado previsto, um grupo sobrepujará o outro, sempre. É notório, pois há os que têm e vivem as bênçãos do poder. E sempre tiveram e viveram. Há ainda, e sempre haverá aqueles que tiveram e vivem até nossos dias, uma eterna maldição dos poderosos. Esses sabem aonde vão chegar: lugar algum.

E nesse caso, não se sabe quando a panela de pressão, cheia, explodirá. Mas hora dessas, explodirá.     


As cartas que minha mãe lia. As cartas que minha mãe escrevia
                                                                              Pedro Pernambuco
Era uma manhã de agosto. Dia frio como eram aqueles dos agostos de nossa terra. D. Aurora, a quem ninguém chamava assim, o que é comum nos pequenos arruados do interior, procurava minha mãe. Curiosa a pacata vida interiorana. Poucos vizinhos se conhecem pelos nomes que receberam na pia batismal. Quase chegam a esquecer os reais nomes dos seus mais achegados... Irmãos, primos, tios, todos são chamados por alcunha que vem da infância: Biró, Bira, Tota, Jura, Juca... D. Aurora, na verdade, era d. Mocinha. 
Naquela manhã de agosto d. Mocinha chegou com uma carta. Uma cartinha com fitinha preta em volta. Antes e ainda naqueles tempos, inícios de 1970, muitas cartas chegavam, às vezes, dos longes São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador e dos muito longe Mato Grosso, Goiás, Brasília com alguma marca preta já no envelope. Um traço, uma cruz, um rabisco qualquer na cor preta dava a pista e era motivo de súbita dor e prévia surpresa. Era o luto.
As cartas iniciavam à tinta preta se a morte era comum. Morrida. Vermelha, nos casos mais graves. Matada. As primeiras linhas, os primeiros trechos eram as janelas da dor incontida, doída, chorada antecipadamente. D. Mocinha chegara a nossa casa com a leitura pronta. Sabia do que se passara naqueles muito longes. O envelope anunciava o que d. Mocinha lia pelos olhos de minha mãe, mas só queria constatar. Tinha ciência das coisas boas ou ruins pelos próprios olhos, e dessa vez era uma ruim, pois o envelope anunciara. Envelope com tarja preta. O coração de mãe de d. Mocinha se cobrira já, por manto preto, pois a leitura se dava pelos olhos de mamãe...
E naquela manhã de agosto mamãe tinha uma dura notícia. Mamãe, cautelosa, lera toda a carta antes, silenciosamente, para se situar nos pontos, nas vírgulas, nas exclamações, nas interrogações que não havia. Mas lia em silêncio também para perceber a dor daquele texto. Carta escrita quase de um só fôlego por pessoa que, a exemplo de d. Mocinha e de minha mãe, pontuava intuitivamente, pela respiração, por pausas imaginárias. Mamãe tinha uma dura notícia para d. Mocinha, que já a adivinhara. Coração era de mãe.
Minha mãe lia o texto pausadamente e em voz baixa somente para d. Mocinha ouvir. As duas mastigavam cada palavra da missiva. As duas eram mães, as duas se atrapalhavam até mamãe decifrar algumas palavras que insistiam em ser misteriosas, difíceis de ler, como se teimassem em não ser tristes, já que fingiam emaranhadas, confusas. Minha mãe se esforçava por protelar ao máximo a notícia que d. Mocinha já sabia. Coração de mãe... Num momento de angústia naquele agosto frio, quase por terminar a leitura, mamãe escuta de d. Mocinha que podia dizer a notícia. Ela já sabia de tudo. Seu coração não se permitia enganar.
E minha mãe lera com o mesmo coração de d. Mocinha, com a mesma voz embargada de d. Mocinha e com os mesmos olhos em espelho de lágrimas, que Ebenezer fora sepultado há duas semanas. Que sua morte fora triste como todas as mortes. Que fora mais triste ainda, por ser a dor da mãe que tem o filho sepultado antes dela.
E minha mãe chorou junto à d. Mocinha com a mesma dignidade com que sorria das alegres notícias que tempos antes vinham. Minha mãe tinha naquele momento de dor, a dignidade dos ledores e dos escribas de tantas donas Mocinhas que lhes chegavam para pedir seus olhos e suas mãos emprestados.

          
Vendedores de oração: um assalto à mão desarmada à boa fé da carência e da ingenuidade

Há algum tempo refletimos nessa Coluna sobre a má fé dos vendilhões dos templos. Não sabemos se houve efeito positivo ou negativo, mas nossa preocupação não é esta, senão a de não nos calar diante da barbárie que se espalha por meio de rádios e TVs, há muito tempo, e por redes sociais, mais recentemente, no que respeita a pregadores que se arvoram a lotear e vender o mundo metafísico aos mais carentes e ingênuos.

Não deviam também se calar jornalistas, comunicadores de vário pensamento, professores, juízes, promotores, formadores de opinião, sociedade organizada. Não deviam, mas sabemos, por exemplo, que nem a Justiça interferiria nesse vespeiro, já que a Carta Magna, em outras palavras, faculta o livre culto, a liberdade de expressão, o ir e vir do homem brasileiro nas circunstâncias normais do direito à cidadania. Nesse aspecto, parece, não há muito que fazer para coibir a imoderação de muitos que se dizem líderes religiosos e disso se apropriam para cumprir o sagrado e bendito potencial de levar o outro ao engano, segundo a força de uso língua, em muitíssimos casos, de modo agramatical, mas que convence e persuade à certeza do milagre.

Jornalistas, apesar de muitas vezes denunciarem, é certo, não veem suas revelações levadas a cabo, com apuração, investigação, punição, já que rádios e TVs, suas casas, principalmente, têm seus horários – de concessão pública – destinados aos mesmos acusados, que por seu turno, repartem interessantes fatias por muitas horas na grade de programação com retorno vantajoso para ambas as partes como diria famoso apresentador de programa de clientes insatisfeitos. 
   
Infelizmente, poucas são as notícias de clientes insatisfeitos no rendoso comércio da fé. Poucas as notícias de alguém que, se reclamaria pela má aquisição de uma geladeira, não vem a proceder quanto ao engodo de vendedores de milagres. Há um medo, um temor aos céus, estrategicamente incutidos em tão pequenas cabeças, de que haverá castigo a quem se levantar contra os homens de Deus. Nossa pergunta se faz: haverá castigo e mortificação aos tidos e havidos homens de Deus por suas maléficas ações?
 
Não é positiva a imagem de líderes religiosos eletrônicos, embutidos em bem cortados tecidos e a exibirem números de contas bancárias – nos rodapés das TVs ou por apelativas ondas do rádio – para serem recheadas por depósitos quase sempre procedentes de trabalhadoras, suadas e humildes mãos, que sustentam o luxo, a riqueza e a ostentação daqueles que pouca ou nenhuma oração fazem pelas ingênuas e amarguradas vidas que lhes abarrotam cofres.

Mencione-se ainda o lamentável comércio de amuletos: pedaços da cruz, óleos e azeites santos, terras e pedras santas, fogueiras igualmente santas, lenços ungidos, toalhas isso, toalhas aquilo, em extrema prática, que não sofre sansão de lei alguma. Liberdade de expressão ou de culto? Aonde essa liberdade pode ir? Até esbarrar na ignorância e no desconhecimento de muitos e na tolerância de todas as leis e suas exceções?

Enquanto isso, relógios de oração incessante e outros estratagemas são postos em prática mediante pagamento de pedágio para fazer funcionar a humilde fé dos muitos  desavisados. Falta, entretanto, se criar mecanismo que meça a consciência dos que pedem, para que o façam segundo a justa porção que os mantenha, e a seus templos, e faça lembrar e saber aos que doam, que em sua casa não come apenas meio pão.

Em tempo: tem faltado um Cristo que faça estalar o chicote sobre os vendilhões da fé!