terça-feira, 28 de outubro de 2014


Dispondo ou não de água, São Paulo nunca afogará seus nordestinos

Nas eleições de 2010 e nesta de 2014, com segundo turno em 26/10, não foram pequenas as polêmicas no que respeita a São Paulo e sua relação com os nordestinos. Acontece que esse estado, com a dimensão territorial que apresenta, e sob os mais variados pensamentos e mentalidades, o que é presumível, nunca representará o todo da celeuma, pois para representá-lo, haveria de a ideia ser unânime, o que não ocorrerá num grupo tão multifacetado. É a lógica.
Não há como imputar essas ideias racistas à população desse valoroso lugar, pois sua realidade se faz com exemplares dos mais variados lugares do Brasil e do mundo, o que dá tanto ao estado quanto à sua capital um feitio multicolorido e cosmopolita.
Não queremos que os olhos do mundo vejam o estado mais importante do país como foco nazifascista. Não queremos uma imprensa má, os comentaristas tendenciosos ou sociólogos não sérios a alimentar medos, como se alimentam no bico, e aos pouquinhos, filhotes abandonados de pássaros. Não creiamos nisso,  brasileiros que somos, humanos que ousamos ser.
Fechar os olhos à parte dessa realidade, também não podemos. O fato existe, mas havemos de ter os olhos abertos à maledicência, à calúnia, ao ódio que poucos semeadores tentam lançar ao campo da discórdia e do desentendimento entre irmãos, numa tentativa quase real de se criar um “Muro da Vergonha” num país como o nosso, que nunca ou quase nunca se imaginou separado. 
A arma de que dispomos para combater o ódio que alguns deslumbrados querem nos impor, se dará em forma de agradecimento ao lugar que é de todos os brasileiros e de tantos povos do mundo que o construíram e o constroem.
Velha Pauliceia, sem nordestinos tua paisagem seria mais cinza! Desse modo, agradeçamos-te por nos receber antes de PSDBs, PTs, PMDBs quaisquer. Queremos te agradecer, porque sempre nos deste a oportunidade de trabalhar, de crescer, de constituir nossas famílias. Queremos te agradecer, porque crescemos juntos. Sempre juntos.
Sempre nos deste o material e nós, trabalhadores e corajosos, te construímos, te erguemos, te verticalizamos e te horizontalizamos. Somamos. Queremos te agradecer, porque somos nordestinos. Porque somos fortes, valentes, aguerridos e não temermos a luta. Queremos te agradecer, pela oportunidade de, juntos, construirmos com mãos trabalhadoras o estado mais próspero da federação. Mãos nordestinas, paulistas, paulistanas, mineiras, japonesas, italianas e tantas mais. Mãos que trabalham. Mãos de toda matiz.
Queremos te agradecer, pelo convívio em meio a tantos povos, brasileiros ou não, na construção, no progresso e no crescimento desse país chamado Brasil. Queremos te agradecer, porque somos brasileiros, antes de qualquer bandeira partidária.
Queremos te agradecer sempre, São Paulo. E para encerrar, sabemos que tens por nós eterno preito de gratidão.
De nossa parte, sabes ainda: a recíproca é verdadeira. 

Texto originalmente publicado no Tribuna do Interior, jornal que circula na cidade de Vassouras – RJ, região sul fluminense e baixada fluminense.

sábado, 11 de outubro de 2014

Onde está meu velho Leão do Norte?

Não quero me referir a Eduardo Jorge nem ao pastor Everaldo (não sei se surpreenderiam com a atitude de apoiar Aécio). O que não consigo ver é meu estado, Pernambuco, (principalmente no que toca a Recife e área metropolitana, além da região canavieira), de notável tradição de esquerda, ser hoje o marco da direita brasileira.
O que está acontecendo? Impossível isso ocorrer há não muito tempo, num estado que sempre foi libertário, que desde o século XIX mantém uma história de luta e rebeldia contra os poderosos com um Frei Caneca, uma Bárbara de Alencar, um padre Roma. Isso para não citarmos a bravura desse velho estado dos tempos da Inssurreição Pernambucana, ainda no século XVII.

O que tem havido em meu estado de história mais recente, representada pelo PSB de Arraes, e por homens da estirpe de Francisco Julião, Gregório Bezerra, Pelópidas Silveira, Barbosa Lima Sobrinho e outros tantos?
Não dá para ver as "lideranças" do velho Leão do Norte guinarem para a direita de forma tão impensada, tão interesseira.
O líder Miguel Arraes jamais agiria dessa forma, pois em sua cabeça vinha, sabiamente, a ideia de que o povo não era merecedor de atitudes tão pequenas. É. Mas nesse caso, estamos falando de Líder, assim, com L maiúsculo. Quero ver um dia meu estado voltar a ser escrito assim, com P maiúsculo. P de Pernambuco a acertar o passo pelos caminhos que sempre trilhou: o da coerência, das lideranças, das metas que visavam o povo, a liberdade, a justiça.
Por enquanto, vamos ver aonde iremos. E sei que voltaremos. É nossa história. Nossa raiz. Nossa tradição. Pernambuco nunca foi berço de fraquezas. Pernambuco sempre foi berço de grandes ideais e de grandes idealistas. E tenho dito. 

domingo, 5 de outubro de 2014

Um cafezinho, um pão com mortadela e a conta... Por favor
O dono da cantina do canto da rua tem ficado muito feliz pela venda de cafezinho e pelo aumento da saída do pão. Na barraca de pastel, comemora-se, igualmente, pois o tacho tem borbulhado avidamente na feitura de pastel e o balconista quase não tem dado vencimento à demanda. A mortadela, o presunto e o queijo têm sido as vedetes do balcão.
Nas ruas, a profusão de abraços, os beijos e os apertos de mão dão coloridos às cenas. Camisas suadas, mãos quentes, rostos em bicas de suor. Nos mercados, nas feiras, pessoas aos borbotões se misturam aos ilustres visitantes. Calor humano é o que não falta nesses tempos. Sorrisos soltos se direcionam a desconhecidos como se conhecidos fossem desde a infância.
Legião de fregueses polidos palmilham restaurantes populares entre clientes comuns e incomuns, todos sentados às mesmas mesas, sem distinção. O mendigo, o desempregado, o negro pobre, o branco pobre, o catador de papel dividem o espaço com os visitantes ávidos, famintos, sedentos...
A procissão dos que possuem serpenteia em meio aos pedintes, aos humildes, aos trabalhadores, aos que não possuem, ao cidadão comum. Caminhadas a passos firmes por entre o povo. É terminantemente proibido se falar em vaidade, orgulho, malícia, falsidade, mentiras, arrogância. Caminhada solidária por entre as gentes, andar pacífico e riso frouxo pelas ruas apinhadas propensas ou não a ouvir promessas de sonhos e realizações...
Mas voltemos aos pastéis deglutidos com voracidade. Ao doce café a descer fácil por goelas que nem sempre gostam de cafezinho. Ao esforço para suportar pão com mortadela. À força de vontade para fazer sumir fatias de presunto. À boa-vontade de se ingerir o fresco caldo de cana com oleosa coxinha. Voltemos aos alegres rostos para as tão em voga autofotografias, as já famosas selfies com os demais passantes do cotidiano. Voltemos aos braços suspensos a segurar manoplas de trens, de metrôs, de ônibus no balanceado sonolento e gaguejante da cata ao precioso voto.
O positivo de tudo isso é a reflexão: nosso comportamento, com o fim de convencer o outro, leva-nos à transformação, a ser como o outro, com o fim de conquistá-lo. Isto é humano. É histórico, até. Há uma quase humilhante situação, sobretudo para aquele que não se quer nem se pretende igual ao outro, o arrastar-se em nome da desenfreada busca pelo poder. (E a vingança do eleitor estar em enxergar isso). É certo, há os que gostam do povo e de com ele estar, e nesse caso, vigora a autenticidade dos que vivamente respiram política, mas esse aspecto só cabe às avis rara do ideal político.  
Mas voltemos aos passeios esporádicos: fico feliz pelos donos da padaria, do caldo de cana com pastel e da lanchonete, que tiveram aumentadas as vendas, pelo menos, por agora. Mas lamento pelo meu filho, que só será beijado e posto nos braços novamente, daqui a quatro anos, e por alguém a quem nunca viu, não sabe quem é e de onde veio e o que irá fazer. Se é que fará alguma coisa. 


Texto originalmente publicado no Tribuna do Interior, jornal que circula na cidade de Vassouras – RJ, região sul fluminense e baixada fluminense




segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Oração a São Francisco (Na cadência do cordel)

Por Simão Pedro dos Santos

Oremos a São Francisco
Que de bênção é sinônimo
Que o rio, seu homônimo
Não nos faça correr risco
De não ter de água um cisco
O que nos fará temer.
Que o santo com seu poder
A Deus, no céu, por todos rogue
Que o Pai, a fúria revogue
E faça por cá chover!

Que o santo dos animais
Do fogo, do raio e água
Aplaque essa nossa mágoa
De gemidos e de ais!
De água mande sinais
Que aplaquem nosso temer
Que aplaquem nosso gemer
Que minore a dor primeira
Que o céu abra a torneira
E faça por cá chover! 

Também o homem incauto
Seguramente tem culpa
Agora vem com desculpa
E vem culpando-se auto
Ajude-nos, santo arauto!
Não nos faça a fé perder.
Mande-nos água de beber
E de lavar consciência
Que Deus tenha complacência
E faça por cá chover!

Que o santo de Assis
Provindo da velha Itália
Despeje água da talha
Do céu com seus mil anis
Por sobre o nosso país,
Que sofre a já se perder.
Pois não ver rios encher
De líquido tão preciso.
Que Deus seja generoso
E faça por cá chover.

Mas de uma por todas vezes
Sejamos inteligentes:
Não destruído nascentes
Nem sendo péssimos fregueses.
Por só pedir quando reses
E roçados vêm a morrer.
Que o nosso interceder
Se irmane à preservação.
Que Deus nos dê o perdão.
E faça por cá chover!



  


segunda-feira, 1 de setembro de 2014

                                                                     Requiem para Ariano Suassuna

            Prof. Pedro Pernambuco*
                       Revisor.uss@gmail.com
        
De vermelho e negro ele se vestia. O vermelho da vida. O negro... Ah, o negro... Saudades, Ariano!

Venham os cantadores e ponteiem suas violas doridas. Venham os cordelistas com seus romances armoriais. Venham os cantadores de coco. Venham Mateus e Bastião com seus Bumbas-meu-boi multicoloridos. Venham, mestres de maracatus. Cirandeiros. Frevistas. Passistas. Ajuntem-se os vaqueiros, os aboiadores, os rabequeiros. Venha o povo das alegres feiras com seus cheiros e sabores. Venham os bonecos de Vitalino. Os viventes das xilogravuras de J. Borges. Os mamulengos do velho teatro popular. Venha o circo. As bandinhas de pífano. O sertão embandeirado com sua mítica Pedra do Reino. Venha, Quaderna. Venham. Cantem Excelências ao mestre que os cantou.

Venha a onça malhada, (povo brasileiro) e retribua em canto lindo tudo o que o poeta cantou. Que desse chão brasileiro suba um canto de ausência e dor. Mas que desse mesmo chão erga-se canto uníssono às palavras e à poesia da verve que enalteceu suas bonitezas. Cantem todos, em honra desse filho da Compadecida.

Venham negros, índios, brancos. Brasileiros de todas as cores. Cantem um hino de saudade. Mas não deixem de cantar canções alegres ao gentil palhaço que nos deixou. Venham, crianças, prossigam com o sorriso puro, a fé e a esperança que o velho poeta fez questão de espalhar. Cantem a canção do circo de muitas cores. Cantem com muitas vozes o que esse pássaro viu do Brasil real.

Venha Chicó. Siga com as mentiras boas, saudáveis. Sem maldade. Mentiras de defesa. Mentiras que vencem o mal.
Venha João Grilo. Seja essa sabedoria em meio às adversidades. Você não é só o gracejo. Você é reflexão.

Venham João Grilo e Chicó. Toquem a gaitinha. Toquem uma Excelência para seu criador. Ele não desmorrerá. Também não nos deixará, pois vocês conosco estão.

Venha, Chicó. Venha, João Grilo. Cantem. Cantem para espantar as mazelas do mundo. As injustiças. A fome. A miséria e os miseráveis que os exploram! Cantem um canto àquele que os trouxe para nos legar o riso, para nos fazer refletir. Para nos fazer sonhar. Cantem uma melodia de saudade e de retribuição.

Venham João Grilo e Chicó. Cantem à memória deste que foi para as estrelas. Cantem uma Excelência pelo encantamento a que não esperávamos. A que não queríamos. De que não sabíamos quando. Mas infelizmente, sabemos que foi assim...

Requiescat in pace – descanse em paz, velho poeta e mestre!


* Pseudônimo de Simão Pedro dos Santos.
Professor de Letras da Universidade Severino Sombra – Vassouras – RJ.
Professor de literatura brasileira do Centro de Estudos Integrados – Barra do Piraí – RJ.

Texto originalmente publicado no Tribuna do Interior, jornal que circula na cidade de Vassouras – RJ, região sul fluminense e baixada fluminense

     
  
                                                Ano de eleições: reflitamos
Pedro Pernambuco*
Revisor.uss@gmail.com
Mais uma vez, chegam as eleições. É possível esperar um país melhor? Para alguns, é possível: esperanças se renovam, apesar de desventuras, de ires e vires, de traições, das promessas... Há quem creia na mudança, em realizações. Pode ser que para os próximos quatro anos as coisas deem certo. Até lá, podemos ter uma vida e uma realidade melhores. Sigamos.

Não esqueçamos de que em nossas mãos está a escolha.  O risco disso recai apenas sobre nossas cabeças. Saber escolher é o que nos resta. É o que alegamos todos os anos. Vamos à pergunta, porém: como fazer para empreender a boa escolha?  (O referencial aqui é o do eleitor sério, que não se vende, que não barganha seu voto). Como escolher, sem cair engodo, no “conto do vigário”, nas malhas da enganação?

Precisamos de uma receita, de uma fórmula para, na condição de milhões de eleitores, termos a sensação de que soubemos decidir o futuro do Brasil. Temos o poder do voto, mas não dispomos do da profecia, do ver antes, da adivinhação.

Como fazer essa escolha? Como saber (e não nos referimos às raposas a que já conhecemos), que podemos confiar numa renovação que corresponda aos ideais de honestidade, de fidelidade, de resposta e respeito aos cidadãos?  Quantos há nessa eleição que transmitam a ideia de que, por Brasília ou pelas Assembleias de seus estados, irão representar o voto que receberam?

Quantos há para honrar compromisso com saúde, educação, transporte, emprego, moradia? (Para falarmos apenas desses necessários chavões). Não é fácil escolher. Interesses particulares ou de grupos se pulverizam para setores como o mercado, as várias empresas, a religião, (leia-se igrejas-empresas com interesses escusos), o futebol e toda sorte de cartéis que se possa imaginar.

Como fazer? Como arcar com tamanha responsabilidade? Depararemos com  promessas, incansáveis repetições, programas os mais diversos e estapafúrdios. Desses, já sabemos, e neles acreditaremos segundo o tamanho de nossa ingenuidade, contudo, o que faremos se não somos os ingênuos?

Vivemos uma crise tão desproporcional no ambiente político, que das tantas agulhas do palheiro, talvez não encontremos uma. E se uma encontrarmos, para não ser tão cruéis, essa não disporá de fio suficiente, para tecer os nossos ideais, pois não adianta a boa linha se o tecido estiver velho e apodrecido, como já dissera o Cristo. 

Como fazer, meus irmãos, a boa escolha? O que mais dói é ter de fazer essa escolha. Como não há saída, tudo está em nossas digitais, em nossa consciência, em nosso olhar. Mais uma vez, confiemos (os eleitores sérios), que haja pelo menos duas agulhas a que possamos creditar o tecer dos ideais da mudança que desejamos, para que venhamos viver numa sociedade justa, séria, digna e solidária.

No mais, não lavemos as mãos, pois há mais Barrabás do que Cristo nesse grande mundo de Deus.  
     
*Pseudônimo de Simão Pedro dos Santos – Professor de Letras da Universidade Severino Sombra – Vassouras – RJ e de Literatura Brasileira do Centro de Estudos Integrados – Barra do Piraí – RJ. 

Texto originalmente publicado no Tribuna do Interior, jornal que circula na cidade de Vassouras – RJ, região sul fluminense e baixada fluminense.


quarta-feira, 16 de julho de 2014


Foto: Simão Pedro dos Santos (Pedro Pernambuco)
Foto: Maritacas em hora de almoço

Canção para o meu quintal

Em meu quintal tem palmeiras
Onde vivem maritacas
Permita Deus que fiquem lá 
Com vozes de mil matracas!

Nosso quintal tem mais pássaros
Tem flores mais coloridas
Tem meus amores, meus sonhos
Que me alegram por mil vidas!

Ao cismar dia e noite
Quanto prazer tenho por cá!
Em meu quintal há palmeiras
Que em outro canto não há!

Em meu quintal tem tanta coisa
Que para dizer não dá
Tem o sol que me visita
E tem até sabiá!
Borboletas coloridas
Maritacas também há!

Não Permita Deus que voem
Maritacas, fiquem cá!
Perto de mim eu as quero
Para longe nenhuma vá!
Ao cismar dia e noite
Eu lhes peço: fiquem cá!

(Texto de minha autoria, para o meu quintal e para as maritacas que há por lá. Também uma homenagem a Gonçalves Dias, se não for muita pretensão)

quinta-feira, 19 de junho de 2014

Ano de Copa, ano de eleições: discutamos as eleições II                                                     
                                                      Prof. Pedro Pernambuco* 

Em 1994 experimentamos pela primeira vez, e em pequena mostra, a tecnologia do processo eleitoral. A urna eletrônica é um dos maiores avanços do país no quesito eleição e se afirma em todo o país desde o ano 2000.
Com desconfiança, mas para cumprir seu “compromisso democrático”, como se usa dizer nesse país de sonhos e deslumbramentos, os eleitores têm ido escolher seus candidatos. Apesar das falhas previstas dos equipamentos, a investida é avaliada de modo positivo, o que deixa uma perspectiva saudável de crença na tecnologia nacional, já que o aparato é estritamente nosso.
Orgulho da terra de Pindorama, as urnas eletrônicas, passados vinte anos de experimentação, têm trajetória de aperfeiçoamento e eficiência. Justo nessa sequência,  desdobra-se outra novidade: a Identificação Biométrica.
Esse procedimento garante, segundo o Tribunal Superior Eleitoral, que se tenha não só “um sistema de votação verdadeiramente democrático” como seguro, pois uma vez feito o recadastramento biométrico, que é o cadastro das impressões digitais dos eleitores, se impede também “que uma pessoa tente se passar por outra no momento da identificação em um pleito – já que não existem impressões digitais iguais”.
O Programa de Identificação Biométrica do Eleitor, como passa a ser conhecido, tem sido implantado e experimentado aos poucos pela Justiça Eleitoral: a primeira etapa se deu em 2008, a segunda, em 2011 e a terceira, em 2013, com vistas às eleições de 2014.
Pensar a tecnologia do processo eleitoral brasileiro é dizer dos avanços que alcançamos desde os primeiros anúncios de inovação, em 1986, até nossos dias. No entanto, se somos vanguarda tecnológica no que concerne às urnas eletrônicas, por que não o somos no quesito democracia eleitoral?
As mesmas propagandas sobre as urnas, e, mais recentemente, as que envolvem o Recadastramento Biométrico dão conta de que se o eleitor não comparecer no dia e horário agendados para o recadastramento terá cancelado o seu título.
Sabe-se que título eleitoral cancelado redunda uma série de consequências, a saber, não se pode inscrever em concurso ou prova para cargo ou função pública, investir-se ou empossar-se neles; não se obtém passaporte ou carteira de identidade; não se renova matrícula em estabelecimento de ensino oficial ou fiscalizado pelo governo, entre outros, pois são nove itens punitivos e antidemocráticos.
Soa obsoleto e contraditório perceber que, apesar da alta tecnologia eleitoral, sejamos impelidos ainda ao voto obrigatório, e punidos, caso não cumpramos o ideal de cidadão, num evento a que cunham ironicamente de “Festa da Democracia”.   
Dói, no entanto, saber como são parcas as punições àqueles em quem votamos, quando não cumprem suas obrigações de cidadão. Há como entender?
Aplausos à tecnologia e à “democracia” brasileiras!

*Pseudônimo de Simão Pedro dos Santos – Professor de Letras da Universidade Severino Sombra – Vassouras – RJ e de Literatura Brasileira do Centro de Estudos Integrados – Barra do Piraí – RJ. 

(Texto originalmente publicado na coluna Escrivaninha de Cedro, mantida por mim no Tribuna do Interior, periódico editado em Vassouras-RJ, com circulação em toda a região sul e em parte da Baixada Fluminense).



2014: ano eleitoral – que eleitores devemos ser?
                                                                              Pedro Pernambuco*

2014 é ano de escolha para o Legislativo e o Executivo. O que fazer para  eleger candidatos que correspondam às nossas expectativas, sem que nos enganemos? Que cidadão está apto a um cargo eleitoral sem interesses particulares? Que eleitor está apto a votar sem interesses igualmente particulares?

Havemos de entender que político é quem é eleito e exerce atividade pública, com o fim de bem governar. Entendamos que político é quem participa dos destinos de seu município, de seu estado, de seu país. É o que tem interesse em questões ambientais, que propõe a melhoria de sua comunidade, que escolhe líderes sérios, que não joga lixo nas ruas, que respeita a direitos e  sabe de seus deveres. Nesse caso, em cumprirmos isto, todos somos políticos.

Aristóteles, filósofo grego, afirmara séculos antes de Cristo, que todo homem é um ser político. Fácil de entender: que não só opina, mas participa das discussões da cidade, ou seja, da Polis, pois todo ser político visa o bem comum, já que o homem é um ser gregário, ou seja, não vive só, segundo ainda o mesmo Aristóteles.

Fazer política, no entanto, não é ser politiqueiro, não é tomar parte da politicagem, mas, conscientemente, agir, com o fim de ampliar, melhorar, fazer com que ideias inteligentes sejam aplicadas em sociedade para o bem de todos e não de grupos isolados, particulares, que trabalham em torno de si. Fazer política, viver política, como cidadão que vota, não é trocar favores, mas vivenciar o interesse social com caráter democrático.

Fazer e viver a política é, teoricamente, e na prática, ser cidadão que não faz escambo com seu voto. Telhas, tijolos, remédios não têm, não deveriam ter valor de voto. Se há essa troca, não há cidadania de nenhum dos lados: eleitor e candidato precisam repensar atitudes. A venda do voto não permite a exigência, em seguida. Quem o compra, demonstra não ter compromisso algum. O que esperar de quem vende e de quem compra votos?

Há de se compreender, por exemplo, que quem é eleito para o Legislativo tem por função criar, modificar ou até revogar leis para o Estado e para os que nele  vivem. Ao Legislativo cabe representar a maioria e a minoria dos cidadãos, além de fiscalizar atos do Executivo, no zelo pelo bem-estar da coletividade. Legislar não é trabalhar em causa própria, como infelizmente, tem ocorrido. Legislar não é criar mecanismos de enriquecimento, como vemos à plena luz do dia. A sociedade ainda tem estado imatura no sentido de fiscalizar àquele a quem escolheu em quaisquer das instâncias políticas.

Temos, graças à tecnologia da informação, e ao consequente advento das redes sociais, outra arma junto ao voto, agido de forma mais consciente, pois denúncias se disseminam mais rapidamente, irresponsabilidades são tornadas públicas ou instantaneamente, ou quase, desmandos vários são postos a nu com a rapidez de um clic, desde que também isto seja feito com responsabilidade e respeito. Mudanças e ideias podem ser propostas mediante sites e e-mails dispostos por políticos das mais variadas bandeiras e pensamentos, o que é um avanço, embora ainda não seja suficiente.

O mundo está de portas abertas. Redes sociais as escancararam. Façamos disto e do nosso voto janelas, através da qual possamos deslumbrar melhor futuro para a geração que nos sucederá.
     
*Pseudônimo de Simão Pedro dos Santos – Professor de Letras da Universidade Severino Sombra – Vassouras – RJ e de Literatura Brasileira do Centro de Estudos Integrados – Barra do Piraí – RJ. 

(Texto originalmente publicado na coluna Escrivaninha de Cedro, mantida por mim no Tribuna do Interior, periódico editado em Vassouras-RJ, com circulação em toda a região sul e em parte da Baixada Fluminense).


quinta-feira, 17 de abril de 2014

Medo da ditadura, medo de ditaduras

                                       Prof. Pedro Pernambuco*
          “Faz escuro, mas eu canto/Porque a manhã vai chegar.” (Thiago de Melo)

Na transição março/abril de 2014 o Brasil tem vivido a rememoração da tomada do poder central pelos militares, ou melhor, do golpe de estado empreendido pelas fardas nacionais. Não se fala em comemoração, pois apesar de significados muito próximos, comemorar é celebrar, festejar e rememorar é somente lembrar um acontecimento qualquer, recordar, sem necessariamente festejar. E não há o que festejar.

Recordar cinquenta anos do golpe que marcou a história da República na segunda metade do século XX é lembrar momentos de extrema dor, de perdas, de mortes, de prisões, de exílios. Episódios que fizeram uma noite durar vinte anos e um dia levar igual tempo para nascer.

No trajeto de 1964 para 1985 foram assinados e lançados cinco Atos Institucionais que trouxeram silêncio ao país. O pior deles, o AI 5, é de 1968 e trouxe a censura, o calar, a vigilância, o medo. Medo que muitos não tiveram e contra o qual se levantaram até os idos de 1985, quando um Congresso Nacional eufórico, como em todas essas ocasiões no Brasil, dava cabo do regime de exceção para júbilo do povo, dos artistas, dos políticos de várias bandeiras nas ruas. Era a liberdade que, em grito esperançoso, havia feito ascender o poder civil. Decretava-se o final do medo.

Reflitamos, portanto: o medo e a ditadura passaram? Não há dúvida. Finalmente, vivemos uma democracia quase balzaquiana, pois no próximo ano comemoraremos 30 anos de liberdade democrática. Reflitamos: o medo e a ditadura passaram?

Absolutamente. Nesses quase trinta anos temos vivido uma ditadura de descaso com a educação, com os professores, com as escolas. Portanto, vivemos um medo do analfabetismo, da ignorância, da alienação. Dura realidade que ainda nos acompanha nesse país de esperanças.

Quase trinta anos de democracia e vivemos uma ditadura de descaso com a saúde. Sucateamento de pessoas nos corredores dos hospitais. Falta de hospitais, de médicos e de tantos profissionais da área. Vivemos o medo de adoecer. O medo de ser pobres e desassistidos. O pavor do silêncio da morte no chão dos hospitais. A ditadura dos planos de saúde. Da desassistência do poder público democrático que não tem cuidado de seus filhos.

Três décadas quase. Ditadura da insegurança. Medo nas ruas, grades nas casas. Muros altos. Cercas elétricas. Câmeras. Seguranças particulares. Não temos segurança. Dever do estado. Deveres não cumpridos numa sociedade e numa política democráticas. Vivemos a ditadura do medo. Temos medo de ir e vir, apesar de o ir e vir serem garantias de uma Constituição democrática. Temos, às vezes, a certeza da ida, mas não a da volta. E quase sempre estamos presos e com medo em nossas casas.

Vivemos a ditadura do medo. Medo da direita, com seus ruralistas, seus capitalistas, seus direitistas, seus nacionalistas, seus tantos “istas”. Vivemos a ditadura da esquerda (que não é tão esquerda assim), com seus comunistas, seus antirruralistas, seus anticapitalistas, seus nacionalistas, seus tantos “anti” (que não são tão “anti” assim), e otras cositas mas. 

Tenhamos medo dos que têm gritado e falado em democracia e liberdade aqui nesse país do Sul da América, que abominam ditaduras, mas amam a repressora Ilha de Fidel, apoiam “revolução” bolivariana de Maduro e conversam ao pé do ouvido com o Irã.

Se isto não for contradição, alguém explique o que é ser contraditório. Fiquemos por aqui. Há medo do paredon.

*Pseudônimo de Simão Pedro dos Santos.
 Professor de letras da Universidade Severino Sombra – Vassouras – RJ.
 Professor de Literatura Brasileira no Centro de Estudos Integrados – CEI – Barra do Piraí – RJ.

(Texto originalmente publicado na coluna Escrivaninha de Cedro, mantida por mim no Tribuna do Interior, periódico editado em Vassouras-RJ, com circulação em toda a região sul e em parte da Baixada Fluminense).

domingo, 16 de março de 2014

Se há vendilhões da fé, alguém precisa de cura
                                                    
                                                   Prof. Pedro Pernambuco*

A ti tocou-te a máquina mercante,
[...]
Tanto negócio e tanto negociante.
                             (Gregório de Matos – poeta brasileiro do século XVII)

No Novo Testamento, especialmente no livro de Lucas 19: 45-46, mas também noutros evangelistas, a saber, Marcos, João e Mateus, aparece a seguinte passagem sobre Jesus: “Então, entrando ele no templo, começou a expulsar os que ali vendiam, dizendo-lhes: Está escrito: A minha casa será casa de oração; vós, porém, a fizestes covil de salteadores”.

Nosso intento não é o de cunhar líderes de quaisquer comunidades religiosas de salteadores ou o que o equivalha. O próprio Cristo nos ensinou a não julgar e isto não faremos, devido à nossa condição humana, o que não nos eleva ao posto de juízes de nossos semelhantes. No entanto, cabe-nos interrogar sobre a proliferação de tantos templos, sobretudo, com a chancela evangélica em  esquinas, becos, avenidas as mais movimentadas, ruas as mais simples, garagens e galpões.

Por que esse fenômeno se dissemina em todos os quadrantes de nosso país? Diga-se, ademais, que esse acontecimento tipifica em muito o Terceiro Mundo, que herdou a ideia de americanos desde meados do século XIX, por todo o XX, e que se espraia por esse quase quartel do XXI. Durante todo o século passado houve tempo para que se implantassem as mais variadas propostas evangélicas em terras africanas e pela América Latina, com instauração de correntes que se estendem do pentecostal ao neopentecostal, até o mais moderado desse pensamento. Esclareça-se que este texto não desmerece a importância de nenhum desses segmentos religiosos nas comunidades em que se inserem, mas questiona o exagero de sua inserção nessas ditas comunidades ultimamente.

Nesse turbilhão de vivências e de informações evangélicas há das mais sérias igrejas, àquelas de proposta e postura duvidosas, o que resulta em paradoxal conclusão: a descrença de tantos cidadãos que deparem com essa realidade. O extremo espalhar-se de tantos templos é o que tem levado à desqualificação e ao descrédito de tantos projetos evangélicos quantos sejam possíveis, pois não dá para separar de tantas searas em qual há o joio ou o trigo. Não se sabe o que é comércio e o que é, verdadeiramente, mensagem desprovida de interesses econômicos. Tem havido complicação para separar qual o caminho que leva ao chamado Pão da Vida, isto é, ao Cristo, e qual o que o que leva ao ganha-pão de alguns.

Reza a Constituição brasileira no quesito dos direitos e garantias fundamentais e no que toca aos direitos e deveres individuais e coletivos, principalmente no que preconiza o Art 5.º, em que se lê: “Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade”. Nos incisos IV e VI, respectivamente, o texto orienta que “é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato”; e ainda “é inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e a suas liturgias”.

Nossa reflexão se direciona para a seguinte pergunta: não seria o caso de, assegurados esses legítimos direitos, se pensar igualmente numa convenção, numa sistematização para que esses mesmos direitos tenham uma orientação, um rumo, uma reorganização, no sentido de, asseguradas essas conquistas, serem pensadas as mais bem elaboradas formas de se pôr em prática a execução desses direitos? Isso não seria, de forma alguma, tolher os direitos das pessoas, mas torná-las mais conscientes de seus direitos e de seus deveres, pois se direitos eliminam deveres, alguma coisa dará errada. Se há o direito à crença, deve haver o dever da ordem, da organização para mais bem se administrar o que foi conquistado. Abrir templos como o vento sopra para todos os lados é desorientar a quem busca o espiritual. Isso é perceptível, pois já é realidade.

A impressão que se tem é a de que, uma vez adquiridos e assegurados os direitos, sua execução se dá de qualquer forma, como se não houvesse leis e como se essas mesmas leis não fossem passivas de serem regulamentadas. A abertura de templos por quem se arvora à condição de líder religioso na função de pastor, de bispo, e agora, de apóstolo a todo o custo, banaliza o próprio segmento evangélico e, conseguintemente, afeta a crença, a fé e a seriedade daqueles que não somente as praticam de verdade, como intentam levar a palavra transformadora sem interesse mercadológico algum.  Espalhar, semear as mensagens do Mestre, - aquele mesmo que expulsou do templo os vendilhões -, é viver o legado e a missão do autêntico discípulo. O que não dá é presenciar supostos agentes da fé como máquinas de mercadores. Não dá para ver a fé como negócio a abarrotar as contas de tantos vendilhões.

Necessitamos de um Cristo com irritado chicote!

*Pseudônimo de Simão Pedro dos Santos.
Professor de letras da Universidade Severino Sombra – Vassouras – RJ.
Professor de Literatura Brasileira no Centro de Estudos Integrados – CEI – Barra do Piraí – RJ.

(Texto originalmente publicado na coluna Escrivaninha de Cedro, mantida por mim no Tribuna do Interior, periódico editado em Vassouras-RJ, com circulação em toda a região sul e em parte da Baixada Fluminense).


sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Um grito preso na garganta, um clamor solto no ar
                                                     Pedro Pernambuco*
Quem tem pensado a cultura desse nosso país? Certamente, muitos cidadãos e cidadãs, mas a impressão que temos é a de que parece pouco. Talvez isto não seja notado, devido à dimensão geográfica dessa nossa terra. É possível que não se perceba isso porque há pouca ênfase nos pensadores dessa pátria. Pensar e mostrar o que temos de melhor não dá o retorno necessário. Mostrar nossos tantos e profundos artistas, de todas as áreas da arte, não se faz importante para as grandes mídias, o que revela a presença de uma crise tal, que chegamos a cogitar da falta de bons artistas na paisagem artística brasileira da atualidade.

Na verdade, o que tem havido é um investimento por parte de quase todos os veículos de comunicação, numa “arte” que vende segundo imposição empreendida por essas mesmas mídias, que, por insistente repetição, mediante imagem e áudio, enganam a olhos e ouvidos, que, por sua vez, se convencem de que consumem arte. Programas dominicais de auditório ou não, (mas sempre os de canais abertos), têm prestado há pelo menos duas décadas, excelso desserviço a milhões de telespectadores. Igualmente nocivos, certos programas de rádio (e não são poucos), têm incutido a seus fiéis ouvintes uma indisfarçável síndrome de besteiras. Aonde iremos? Quando pararemos com essa busca por desinformação e descompromisso midiáticos?

É certo que o rádio, a televisão, o teatro, o cinema representam, essencialmente o entretenimento, mas há, por outro lado, e deveria ser cumprido, o comprometimento com o conscientizar, o educar, o informar à população para a qual se dirigem. O que se constata, porém, é uma espécie de alienação desse público por essas mídias. Não queremos um rádio, uma televisão, um teatro, um cinema que não cumpram com o dever da diversão, do humor, da brincadeira, no entanto, o que têm prevalecido são a brincadeira, o mau gosto, o escárnio, a humilhação do outro. Se há a humilhação do outro para provocar o riso dos demais, isso deixa de ser uma contribuição ao riso e passa a ser sua banalização, pois resulta em algo barato, que desmerece e desabona a terceiros. Não queremos o riso nem o comunicador que humilham.

Assistimos, há pelos menos dois decênios, a programas televisivos pouco atraentes que seguram a audiência com filões como doação e reforma de casas, pagamento de dívidas, patrocínio de viagens de retorno a famílias, sobretudo nordestinas, que tentaram a sorte nos grandes centros e não deram certo. Infelizmente. Assistimos a tudo com emotividade, choro, expectativa, e contribuímos comovidos, com a audiência que às vezes, nos segura para a semana seguinte numa aventurosa maratona de ajuda a um desvalido qualquer desse pobre e injusto país.

Há uma música ou algo a que alguns insistem em chamar de música, que tem sido impelida por ouvido e garganta de nossa gente numa mistura de difícil deglutição: letra, voz, melodia, tudo inserto num caldeirão de realidade “artística” que deixa a desejar. Todavia, a voz e o grito de uma mídia alienante são fortes o suficiente para promover a “artista” àquele que tiver a bênção de um batismo pago, e com a garantia de que, àquele a quem a mensagem atingir terá a sensação de que consume arte.

Faltam-nos mídias bem-intencionadas, faltam-nos canais de comunicação com propostas, programação e seleção de uma música que agrade de acordo com o gosto de cada cidadão ou  grupos de cidadãos (aqui não se questionam gêneros e gostos musicais), pois há nessa  linguagem o bom conteúdo poético que a acompanha. O belo universo caipira não tem sua cultura lítero-musical? As culturas nordestina, sulista, nortista, do centro-oeste, do sudeste não têm excelente cultura lítero-musical?

Adianta a alta tecnologia e o aparato de som de última geração se não há conteúdo? Por que temos de suportar uma mídia que patrocina tamanha brutalidade e bestialização? Presenciamos tantos protestos nos últimos meses: quebra-quebra, destruição do patrimônio público, incineração de transportes públicos, invasão a bancos, clamor por educação de qualidade, mas não temos ouvido vozes uníssonas em prol de mudanças que interfiram nessa crise capitaneada pelas empresas de comunicação na sua insistência por alienar, em todos os sentidos, a uma população que, carente de tudo, é também faminta por cultura e entretenimento saudáveis, e isso envolve educação. Se um dia esse bom alimento nos for oferecido iremos gostar, saborear com vontade, pois estamos e somos ávidos por um pão leve e que alimente.

Que mídia fará isso um dia? As que tentaram falharam ou rastejam, não por culpa sua, mas por não haver público ou por este ser diminuto, reduzido. Pequeno. Culpa desse público? Absolutamente, não! A raiz do mal está na comercialização desvairada de tudo, na camelotagem midiática que perdeu o senso da seleção e da escolha em nome do vil metal. Fazer o ouvinte ou telespectador comer pão bolorento com aspecto de fresquinho e bom é pregar a mentira com cara de verdade. E nessa “verdade”, infelizmente se tem acreditado.

Sabe-se que as empresas de comunicação não vivem de brisa, não fazem votos de pobreza – nem devem proceder dessa forma –, pois tudo nesse e para esse meio demanda alto preço: do microfone, à mesa de som, da câmera ao apresentador, da montagem de estúdio à fiação necessária.  Tudo isso por si, justificaria e constituiria o bom motivo para a distribuição de um produto de qualidade.

Nossa pergunta para uma reflexão é a seguinte: se denunciamos ao Procon uma empresa por  desserviço qualquer, por que não nos incomodamos pelos desserviços que as empresas de comunicação nos prestam?

Não queremos ouvir somente Sílvio Caldas (1908 – 1998) ou Dorival Caymmi, (1914 – 2008), mas se não sabemos mais quem foram ou quem são (os bons são eternos) Sílvio Caldas e Dorival Caymmi, alguma coisa está errada entre o céu e a terra. Da nova geração, poucos, pouquíssimos, sabem quem foram esses importantes cavalheiros. E se há quem não saiba deles, respectivamente desaparecidos há não muito tempo, passamos por uma crise verdadeira de identidade nacional. Quando isto se dá, qualquer povo corre riscos enormes.

Precisamos ligar para o Procon!    

*Pseudônimo de Simão Pedro dos Santos. Professor de letras da Universidade Severino Sombra – Vassouras – RJ. Professor de Literatura Brasileira no Centro de Estudos Integrados – CEI – Barra do Piraí – RJ.

(Texto originalmente publicado na coluna Escrivaninha de Cedro, mantida por mim no Tribuna do Interior, periódico editado em Vassouras-RJ, com circulação em toda a região sul e em parte da Baixada Fluminense).

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

RECEITA PARA UM SARAU OU CULINÁRIA AO PÉ DA LETRA, À MODA DA CASA DA POESIA DE CORDEL
                                                          *Por: Pedro Pernambuco ou Simão Pedro dos Santos 

Encontro músico-poético,
Mas tem de ser feito à noite
Com brisa batendo à porta
Com vento a dar leve açoite
Violões, livros, piano.
Logo após o senoite.

Junte a Lou Valadares
Com Guto na maestria
Muita pimenta poética
Muito conto e poesia.
Tempere com muita música
E como entrada, alegria!

Pegue um molho de poemas
Pique bem letra e som
Adicione de Silvestre
De seus textos, um muito bom!
Macere a prosa de Toni
E da festa tá dado o tom!

Reserve de Carmen e Marcos
A poesia e o canto
Ferrabrás ou Trem das onze.
Coloque mais outro tanto
Da graça desse casal
E está pronto o encanto.

Tempere de Evaldo Silva
Prosa, autenticidade
De Regina, os belos contos.
De Rute a simplicidade:
A leitura mais bonita
Com graça e muita verdade.

Misture música e cores
De Américo e sua Maria,
A Lúcia que o ilumina
E com ele faz melodia
Em cantares com que alegram
Nossas noites de poesia.

Coloque um pouco de Marta
Que nos traz a sua voz
Cura o corpo, cura almas,
Um primeiro, o outro, após.
Seu cantar enfeita a noite
E enfeitiça a todos nós.

Doure com Anísio, intérprete
De Vinicius e outros tantos,
Que traz na alma o deslumbre
De tantos e quantos cantos,
Dos poetas traz as letras.
Da poesia, os encantos!

Acrescente de Paulucci
Todo o sal da melodia
Das músicas que tanto canta
Mastigando poesia,
Degustando sonho bom
E toda a noite se alumia!

Adicione mais açúcar
À Lou, que com mais doçura
Apresenta esse Sarau
De delicada candura.
Junte tudo e leve à alma:
Alimente-se de ternura!

Literalmente, quentão
É esse nosso momento.
Mas também há um que traz
Doce sabor, quase bento!
Quentão com tanta doçura:
Vanilda faz com talento!

Junte os ingredientes.
Todos acima citados!
À poesia, à música,
A mil poemas recitados.
Coloque todos na alma
São mil saraus degustados!

Leve ao forno a poesia
Deixe-a ficar gratinada
Muita música, (bem sequinha!)
A crônica bem refinada.
Sambas, choros e boleros
A dança bem compassada!

E por quase duas horas
Desse momento consuma.
Mastigue bem mastigado
De Drummond, não só alguma:
Mas toda a poesia.
Mastigue uma por uma!

Cecília, Ascenso, Murilo
Jorge de Lima, Patativa
Misture bem do Bandeira
Sua poesia viva.
Ao pé da letra. Pasárgada!
Cidade-mito rediviva!

Junte seu Raul Martins
E a ele faça aplauso,
Cantante. Canta e encanta!
Não provoca desaplauso!
Tambasco! Quase Tabasco!
Apimente e tá dito o causo!

Reserve um tinto vinho
Sirva com nacos de pão
Pão que sempre traz a vida
Para a alma. O coração.
Boa água? Também sirva.
Essa é fonte. Inspiração.

Refogue muitas palavras
Corte excessos. Resuma.
Polvilhe. Pique. Tempere
As letras uma por uma.
Sirva tudo em grandes pratos
Pra que o Sarau as consuma.

Sirva tudo em mesa lauta
Bordada a fios d’ouro,
Ouro da nossa palavra
Que coroada de louro,
Já vem bela e lapidada,
Desde o seu nascedouro.

A sobremesa se faz
De sequilhos bem poéticos
Queremos poemas fartos
Nós não somos dietéticos.
Poemas? Só bem rotundos!
Para que os esqueléticos?

Ao Pé da Letra. Sarau!
A teus pés sempre estaremos
Letras que tanto encantam
Louvado seja! Cantemos!
Com pés e mãos te servimos.
Com a boca. Sarauemos!

Ao Pé da Letra, Sarau!
Aos pés das letras estamos
Sopas de todas as letras
A comer prontos estamos.
Louvada seja esta mesa!
Em torno da qual estamos!

(*Texto de minha autoria, lido no Sarau ao Pé da Letra, do qual participo, e que acontece a cada terceira 5.ª feira de cada mês, na cidade de Vassouras - RJ).


  

























2013 – Lições do tempo. Aprendizado dos homens.
                                          Prof. Pedro Pernambuco*

Abordada por poetas, romancistas, filósofos, teólogos, dramaturgos, mitólogos, a temática do tempo percorre obras universais, locais, contemporâneas ou de um passado qualquer da história humana.
Na mitologia grega, Cronos, deus da agricultura, representava também a ideia de tempo. A própria agricultura depende e requisita o tempo. Cronos/Tempo devorava seus filhos, (grande simbologia) à exceção de Zeus, que foi salvo ao nascer, por Reia, sua mãe. Ao crescer, Zeus faz seu pai vomitar a seus irmãos Hades, Hera, Héstia, Poseidon e Deméter - anteriormente devorados - e com Hades e Poseidon destrona-o e torna-se o eterno deus do Olimpo.

No Eclesiastes, capítulo 3, o tempo também aparece: de nascer, de morrer, de plantar, de colher, de sorrir, de chorar, de dançar, de espalhar e de juntar pedras. Tempo de abraçar e de se afastar. De perder e de guardar. De guerra, de paz, entre outras conjeturas.

Carlos Drummond de Andrade, afiado com as questões que sempre envolveram o mundo, buscou no tempo mote para sua lavra: “Esse é tempo de partido,/tempo de homens partidos./Em vão percorremos volumes,/viajamos e nos colorimos./A hora pressentida esmigalha-se em pó na rua./Os homens pedem carne. Fogo. Sapatos./As leis não bastam. Os lírios não nascem da lei./Meu nome é tumulto, e escreve-se na pedra”. (Nosso tempo)

Cecília Meireles escreveu: “Houve um tempo em que minha janela se abria/sobre uma cidade que parecia ser feita de giz./Perto da janela havia um pequeno jardim quase seco./Era uma época de estiagem, de terra esfarelada,/e o jardim parecia morto” (A arte de ser feliz).

Renato Russo, (Legião Urbana), voz possante, olhar crítico e maduro para ver o mundo à sua volta, escreve: “Tempo perdido” e com propriedade assevera: “Todos os dias quando acordo,/Não tenho mais o tempo que passou/Mas tenho muito tempo/Temos todo o tempo do mundo”.

Cazuza, com o Barão Vermelho, e depois em carreira solo, cantou “O tempo não para”, dele e Arnaldo Brandão, em cuja letra há a seguinte sabedoria: “Mas se você achar /Que eu tô derrotado /Saiba que ainda estão rolando os dados/Porque o tempo, o tempo não para.

Reiner Maria Rilke, escritor checo, bom e sensível poeta, lapidou em Cartas a um jovem poeta, p. 32, o seguinte texto:
O tempo não é uma medida. Um ano não conta, dez anos não representam nada. Ser artista não significa contar, é crescer como a árvore que não apressa a sua seiva e resiste, serena, aos grandes ventos da primavera, sem temer que o verão possa não vir. O verão há de vir. Mas só vem para aqueles que sabem esperar, tão sossegados como se tivessem na frente a eternidade.

Hilda Hilst, poeta das coisas de amantes e amados, disse no sugestivo poema Do amor: Ama-me. Ainda é tempo. Interroga-me./E eu te direi que nosso tempo é agora. Roberto e Erasmo Carlos, que há muito tempo cantam e embalam gerações sugeriram em Amor sem limite: “Quando a gente ama alguém de verdade/Esse amor não se esquece/O tempo passa, tudo passa, mas no peito/O amor permanece/E qualquer minuto longe é demais/A saudade atormenta/Mas qualquer minuto perto é bom demais. Em Todo o sentimento, Chico Buarque e Cristóvão Bastos disseram: Preciso não dormir/Até se consumar/O tempo da gente./Preciso conduzir/Um tempo de te amar,/Te amando devagar e urgentemente.

Infinita é a lista de textos de vária natureza sobre o tempo, esse fenômeno que atrai e inspira. Amedronta e traz pavor. E por falar nisso, chegamos ao final de 2013. Cronos, apressado, devorou rapidamente esse seu filho, mas antes de esse Titã ser deglutido nos foi permitido presenciar e compartilhar a dor da perda de jovens que tiveram sonhos tolhidos na Boate Kiss; vimos Barack Obama e seu vice, Joe Biden, tomarem posse pela segunda vez frente ao governo dos EUA; Renan Calheiros, sob protestos, tomou mais uma vez as rédeas do Senado Federal; Bento XVI renunciou a seu pontificado; Hugo Chavez perdeu para a morte; o sanfoneiro e cantor José Domingos de Moraes, o Dominguinhos, foi encontrar seu mestre Luiz Gonzaga e tantos que foram antes e sem nos avisar.

2013. Tempo. Vivemos discussões tantas: pré-sal, Comissão da Verdade, Feliciano, protestos por todo o país. Mortes brutais: torcedor boliviano. Criança boliviana em assalto em São Paulo. Chorão, do Charlie Brown Jn. Amarildo. Atentado terrorista em Boston. Perdas. Perdas. Perdas.

2013. Tempo. Mensaleiros. Condenações. Prisões. Ódios. Elogios. Joaquim Barbosa. Cotação à Presidência do país desse mesmo ministro do Supremo Tribunal Federal. Contradições desse meu país de tantas emotividades.

2013. Tempo de Francisco. Novo Papa. De Ordem não franciscana, mas com o coração pleno dos ensinamentos de Francisco de Assis. Diga-se ainda, o coração de Francisco não é só herdeiro teórico do frade de Assis: seu coração é praticante cabal desse aprendizado universal com toda a sua carga de perdão, compadecimento e amor a todos os irmãos, independentemente de credo, cor social, nação, escolhas. Francisco, o Papa, é revivescência de Francisco, o frade, em sua prática de  cristianismo autêntico.

2013. Tempo de partida de Nelson Mandela, o Madiba de seu povo. Chegou ao fim, a 5 de dezembro a trajetória de um dos mais admiráveis líderes da humanidade, em ações que vêm da primeira metade do século XX até os primeiros 13 anos desse nosso século e milênio. Deixa-nos esse sul-africano e a sensação que temos é a de que a humanidade ficará vazia de grandes líderes por muitos anos. Aprendemos com Mandela a grande lição de humanidade na veemência de sua alegria, na seriedade de suas ações e de sua luta, na glória do acerto e na resignação do erro. Com o velho líder aprendemos que é possível acatar o perdão, sem esquecer os algozes, que se é fácil odiar, não é difícil amar. Essa maestria teria de servir como o legado a que todos os homens deveriam se deixar arraigar. Ficou a grande lição de quem estabeleceu diálogos em sua trajetória de brio.

2013! Lições aprendidas. A graça e a beleza do viver e do esperar. E como dizia o pensador e educador Paulo Freire, do esperançar. Vão-se as angústias, as dores, os ódios, as tristezas. Tantos  sofrimentos da humanidade.

Façamos do vindouro 2014 o laboratório para nossas criações e recriações. Ano de importantes decisões: Copa do Mundo. Eleições. Agreguemos as lições de 2013 para pôr em prática a escolha de legisladores de cepa e de governadores e presidente que levem adiante sonhos de realizações.
     
Para terminar nossa prosa, voltemos à notícia sobre a morte de Nelson Mandela, ao lado da qual, com muita decepção, líamos sobre prisões e promessas de prisões de políticos envolvidos com o chamado mensalão. Não julguemos pela emoção. Deixemos que a justiça o faça racionalmente. Não tenhamos vergonha de ser brasileiros. Façamos, porém, prevalecer nas urnas em 2014, nosso julgamento com voto consciente e justo. Sejamos justos conosco e com nossos irmãos. Com todos os nossos irmãos. Oxalá 2014 seja um tempo de paz e justiça.

*Pseudônimo de Simão Pedro dos Santos.
Professor de letras da Universidade Severino Sombra – Vassouras – RJ.
Professor de Literatura Brasileira no Centro de Estudos Integrados – CEI – Barra do Piraí – RJ.

(Texto originalmente publicado na coluna Escrivaninha de Cedro, mantida por mim no Tribuna do Interior, periódico editado em Vassouras-RJ, com circulação em toda a região sul e em parte da Baixada Fluminense).