2013 – Lições do tempo. Aprendizado dos homens.
Prof.
Pedro Pernambuco*
Abordada por poetas,
romancistas, filósofos, teólogos, dramaturgos, mitólogos, a temática do tempo
percorre obras universais, locais, contemporâneas ou de um passado qualquer da
história humana.
Na mitologia grega, Cronos, deus
da agricultura, representava também a ideia de tempo. A própria agricultura
depende e requisita o tempo. Cronos/Tempo devorava seus filhos, (grande
simbologia) à exceção de Zeus, que foi salvo ao nascer, por Reia, sua mãe. Ao
crescer, Zeus faz seu pai vomitar a seus irmãos Hades, Hera, Héstia, Poseidon e
Deméter - anteriormente devorados - e com Hades e Poseidon destrona-o e
torna-se o eterno deus do Olimpo.
No Eclesiastes, capítulo 3, o
tempo também aparece: de nascer, de morrer, de plantar, de colher, de sorrir,
de chorar, de dançar, de espalhar e de juntar pedras. Tempo de abraçar e de se
afastar. De perder e de guardar. De guerra, de paz, entre outras conjeturas.
Carlos Drummond de Andrade,
afiado com as questões que sempre envolveram o mundo, buscou no tempo mote para
sua lavra: “Esse é tempo de partido,/tempo de homens partidos./Em vão
percorremos volumes,/viajamos e nos colorimos./A hora pressentida esmigalha-se
em pó na rua./Os homens pedem carne. Fogo. Sapatos./As leis não bastam. Os
lírios não nascem da lei./Meu nome é tumulto, e escreve-se na pedra”. (Nosso
tempo)
Cecília Meireles escreveu:
“Houve um tempo em que minha janela se abria/sobre uma cidade que parecia ser
feita de giz./Perto da janela havia um pequeno jardim quase seco./Era uma época
de estiagem, de terra esfarelada,/e o jardim parecia morto” (A arte de
ser feliz).
Renato Russo, (Legião Urbana),
voz possante, olhar crítico e maduro para ver o mundo à sua volta, escreve: “Tempo
perdido” e com propriedade assevera: “Todos os dias quando acordo,/Não
tenho mais o tempo que passou/Mas tenho muito tempo/Temos todo o tempo do
mundo”.
Cazuza, com o Barão Vermelho, e
depois em carreira solo, cantou “O tempo não para”, dele e
Arnaldo Brandão, em cuja letra há a seguinte sabedoria: “Mas se você achar /Que
eu tô derrotado /Saiba que ainda estão rolando os dados/Porque o tempo, o tempo
não para.
Reiner Maria Rilke, escritor
checo, bom e sensível poeta, lapidou em Cartas a um jovem poeta, p. 32,
o seguinte texto:
O
tempo não é uma medida. Um ano não conta, dez anos não representam nada. Ser
artista não significa contar, é crescer como a árvore que não apressa a sua
seiva e resiste, serena, aos grandes ventos da primavera, sem temer que o verão
possa não vir. O verão há de vir. Mas só vem para aqueles que sabem esperar,
tão sossegados como se tivessem na frente a eternidade.
Hilda Hilst, poeta das coisas de
amantes e amados, disse no sugestivo poema Do amor: Ama-me. Ainda
é tempo. Interroga-me./E eu te direi que nosso tempo é agora. Roberto e Erasmo
Carlos, que há muito tempo cantam e embalam gerações sugeriram em Amor
sem limite: “Quando a gente ama alguém de verdade/Esse amor não se
esquece/O tempo passa, tudo passa, mas no peito/O amor permanece/E qualquer
minuto longe é demais/A saudade atormenta/Mas qualquer minuto perto é bom
demais. Em Todo o sentimento, Chico Buarque e Cristóvão Bastos
disseram: Preciso não dormir/Até se consumar/O tempo da gente./Preciso conduzir/Um
tempo de te amar,/Te amando devagar e urgentemente.
Infinita é a lista de textos de
vária natureza sobre o tempo, esse fenômeno que atrai e inspira. Amedronta e
traz pavor. E por falar nisso, chegamos ao final de 2013. Cronos, apressado,
devorou rapidamente esse seu filho, mas antes de esse Titã ser deglutido nos
foi permitido presenciar e compartilhar a dor da perda de jovens que tiveram
sonhos tolhidos na Boate Kiss; vimos Barack Obama e seu vice, Joe Biden,
tomarem posse pela segunda vez frente ao governo dos EUA; Renan Calheiros, sob
protestos, tomou mais uma vez as rédeas do Senado Federal; Bento XVI renunciou
a seu pontificado; Hugo Chavez perdeu para a morte; o sanfoneiro e cantor José
Domingos de Moraes, o Dominguinhos, foi encontrar seu mestre Luiz Gonzaga e
tantos que foram antes e sem nos avisar.
2013. Tempo. Vivemos discussões
tantas: pré-sal, Comissão da Verdade, Feliciano, protestos por todo o país.
Mortes brutais: torcedor boliviano. Criança boliviana em assalto em São Paulo.
Chorão, do Charlie Brown Jn. Amarildo. Atentado terrorista em Boston. Perdas.
Perdas. Perdas.
2013. Tempo. Mensaleiros. Condenações. Prisões.
Ódios. Elogios. Joaquim Barbosa. Cotação à Presidência do país desse mesmo ministro
do Supremo Tribunal Federal. Contradições desse meu país de tantas
emotividades.
2013. Tempo de Francisco. Novo
Papa. De Ordem não franciscana, mas com o coração pleno dos ensinamentos de
Francisco de Assis. Diga-se ainda, o coração de Francisco não é só herdeiro
teórico do frade de Assis: seu coração é praticante cabal desse aprendizado
universal com toda a sua carga de perdão, compadecimento e amor a todos os
irmãos, independentemente de credo, cor social, nação, escolhas. Francisco, o Papa,
é revivescência de Francisco, o frade, em sua prática de cristianismo autêntico.
2013. Tempo de partida de Nelson
Mandela, o Madiba de seu povo. Chegou ao fim, a 5 de dezembro a trajetória de
um dos mais admiráveis líderes da humanidade, em ações que vêm da primeira
metade do século XX até os primeiros 13 anos desse nosso século e milênio.
Deixa-nos esse sul-africano e a sensação que temos é a de que a humanidade ficará
vazia de grandes líderes por muitos anos. Aprendemos com Mandela a grande lição
de humanidade na veemência de sua alegria, na seriedade de suas ações e de sua
luta, na glória do acerto e na resignação do erro. Com o velho líder aprendemos
que é possível acatar o perdão, sem esquecer os algozes, que se é fácil odiar,
não é difícil amar. Essa maestria teria de servir como o legado a que todos os
homens deveriam se deixar arraigar. Ficou a grande lição de quem estabeleceu
diálogos em sua trajetória de brio.
2013! Lições aprendidas. A graça
e a beleza do viver e do esperar. E como dizia o pensador e educador Paulo
Freire, do esperançar. Vão-se as angústias, as dores, os ódios, as tristezas. Tantos sofrimentos da humanidade.
Façamos do vindouro 2014 o laboratório
para nossas criações e recriações. Ano de importantes decisões: Copa do Mundo. Eleições.
Agreguemos as lições de 2013 para pôr em prática a escolha de legisladores de
cepa e de governadores e presidente que levem adiante sonhos de realizações.
Para terminar nossa prosa, voltemos
à notícia sobre a morte de Nelson Mandela, ao lado da qual, com muita decepção,
líamos sobre prisões e promessas de prisões de políticos envolvidos com o
chamado mensalão. Não julguemos pela
emoção. Deixemos que a justiça o faça racionalmente. Não tenhamos vergonha de
ser brasileiros. Façamos, porém, prevalecer nas urnas em 2014, nosso julgamento
com voto consciente e justo. Sejamos justos conosco e com nossos irmãos. Com todos
os nossos irmãos. Oxalá 2014 seja um tempo de paz e justiça.
*Pseudônimo de Simão Pedro dos
Santos.
Professor de letras da Universidade Severino Sombra – Vassouras – RJ.
Professor de Literatura Brasileira no Centro de Estudos Integrados – CEI
– Barra do Piraí – RJ.
(Texto originalmente publicado na coluna Escrivaninha de Cedro, mantida por mim no Tribuna do Interior, periódico editado em Vassouras-RJ, com circulação em toda a região sul e em parte da Baixada Fluminense).