quinta-feira, 10 de maio de 2012


Texto escrito há cinco anos, com as impressões que tive ao assistir a manifestação popular conhecida como encontro de bacamarteiros, de tradição em minha cidade e em muitos lugares do Nordeste. Tomara vocês gostem. Abraços.


Bacamarteiros: Homens de azul. Homens de paz
                                                     Por Pedro Pernambuco*


Manhã de sol. Inícios de janeiro de 2007. Na minha Bezerros, em Pernambuco, assisti, a convite de meu amigo André, o André Eletro, a uma apresentação de bacamarteiros. Coisa riquíssima, linda e que depõe de nossa gente e de nossas raízes culturais.

Após missa matinal, os bacamarteiros fizeram suas apresentações, a princípio, no pátio da Igreja de São José: tiros fortes e cheiro de pólvora! Homens que se destinam a celebrar em salvas de bacamartes a vida, a coragem, o destemor. Tiros que ecoam no centro da cidade, e chamam a atenção dos passantes. Tiros que têm origem na Guerra do Paraguai. Reminiscência, talvez, de vitória que trouxe o Brasil Imperial, das terras do Plata. Tiros que dizem do homem e de seu desprendimento para o desafio.

Reparei, em meio àqueles homens vestidos de azul, uma senhora, sobre quem, segundo ouvi de terceiros, ficou no grupo em lugar do marido que morrera. Não quis deixar no esquecimento a memória do companheiro e resolveu manter a velha tradição. Aguerrida, não desistiu por ocasião de seus tiros falharem por duas ou três vezes. Com a solidariedade dos amigos, finalmente, dispara o gatilho e catabum! Aplaudida, olha, com orgulho, a plateia e sorri confortável. Venceu o desafio, e esta deveria ser a marca de todos nós: não desistir!

Da Igreja, parte o Batalhão do Bacamarte para outro lugar de comemoração e lá, a festa continua regada à amizade. Vi em todos os participantes do festejo uma parcela de riso, de alegria e de felicidade. Cada um que falava era solícito e generoso para com os companheiros. Uma bela festa dos homens de azul. Uma linda e simples comemoração à vida.
Bom seria se os homens fossem sempre unidos em torno da vida. Bom se a vida fosse esse eterno comemorar. Observei ali semblantes felizes e realizados. Notei que a vida é simples e para vivê-la não precisamos de muito.

A vida se faz de pequenas coisas, pequenos gestos e atitudes. Isto faz dos homens, homens. Isto faz das gentes, gente. A vida é feita de pequenos atos. De generosidade e de amor. Amor ao que se faz, mesmo que este fazer seja a realização pessoal de atirar com reluzente bacamarte. Tiros de paz. Tiros lúdicos. De brincadeira. Por esporte. Tiros que representam os desafios que a movem homens e mulheres e que nos trazem, na serenidade do termo, autoafirmação, autoestima. Realização.

Homens de azul! Homens vestidos de azul, com chapéus à cabeça e lenços de vermelho vivo ao pescoço. Homens que atiram para o nada. Atiram sem ter de acertar o alvo. Ao acaso. Homens que atiram por brincadeira, mas com seriedade. Que não visam à destruição. Bacamarteiros! Atiradores de elite que  visam acertar tão-somente o coração e a alma dos que presenciam a brincadeira. Passatempo de homens que sabem se unir em torno da festa, do encontro, do entretenimento saudável.

Bacamarteiros! Viva os bacamarteiros de minha cidade de São José dos Bezerros. Tomara a lição desses atiradores seja vista pela nossa cidade como alguma coisa que transmita paz e traga a ideia de que a vida é para ser celebrada com salvas de bacamarte. Salvas de palmas. Com alegrias e flores; com a delicadeza que deveria ser inerente ao ser em sociedade.

Salvas para nossos bacamarteiros. Vivas a vida!          


*Pseudônimo de Simão Pedro dos Santos. Da Universidade Severino Sombra – Vassouras – RJ e do Centro de Ensino Integrado – Barra do Piraí – RJ.
Mestre em Letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro.






Texto feito para meu pai em 2004, por ocasião de seu aniversário. Foi publicado no jornal local, de nome Tribuna do Interior, aqui de Vassouras - RJ. Passados oito anos, meu velho criou asas, virou pássaro e foi para outra dimensão. Ao homenageá-lo novamente, compartilho com todos vocês este texto de que gosto muito. Abraços.


Aniversário de seu Biró. Festa!

Meu velho pai, hoje são 30 de novembro. Seu aniversário. Quantas coisas, meu velho! Lembro-me de uma infância pernambucana e cheia de surpresas. Lembranças de vê-lo chegando com cesto de vime cheirando a coisas frescas que da feira vinham. Lembro-me de seu cuidado com todos nós: seu cuidado de filho no trato com a nossa vó Mãe Bé e de pai e esposo em nossa casa de que guardo no canto da memória as recordações possíveis.

Meu velho pai, como esquecer o herói que víamos em você? Como esquecer que o víamos alto e forte? Imagem que todo filho em criança, projeta do pai... Que importa seu 1,55m? Importa que sua altura é aquela do herói que até hoje vemos. A do herói que luta e resiste naquele Nordeste tempestuoso e áspero, ressequido e medonho, porém belo e de sol e céu azul...  Como, meu pai, negar seu heroísmo numa labuta quase de tirar leite de pedras? Como esquecer sua imagem a cruzar a soleira da porta em passos firmes de homem forte e lutador?

Não há como esquecer também de seu barroquismo: tristeza e alegria a um só tempo. Esquecer como, de seu justificado nervosismo frente às intempéries porque passou? Mas como esquecer sua alegria a receber quaisquer de seus amigos?
Alma forte! Alma de gente que acredita e não desespera. Alma, talvez, de pedra e flores. Pedra porque delas é feito esse nosso chão; flores, porque esse nosso chão ensina-nos também a sermos de flores, e nesse contrabalanço de vida chegou o senhor aos 75 anos. Vitória, meu velho, porque Severinos morrem "de velhice antes dos trinta e de fome um pouco por dia", como escrevera um nosso poeta, João Cabral, a quem o senhor não conhece, mas ele conhece a todos nós.

Coincidência, meu pai, o senhor é um Severino. Severino José dos Santos, igual ao outros, "em tudo na vida". Não emigrou, é certo, como os outros, porém saiu junto com esse filho, no sonho e na esperança messiânica de dias melhores. E vencemos, meu velho! Vencemos todos! E a terra se fez no leite e mel que talvez de nossas pedras não tirássemos ou tirássemos pouco. Aquele pouco-quase-nada.
30 de novembro! Aniversário de seu Biró. Sabe, seu Biró, aqui em Vassouras, como aí em Bezerros desse Pernambuco, o senhor não é Severino, o senhor é Biró, e será assim. Este é o seu nome e todos aqui, a quem devoto carinho e amizade têm o igual carinho e amizade estendidos ao senhor. Seu Biró!

30 de novembro! Aniversário de seu Biró... Como esquecer, meu pai, de um dia em que me falou que sua casa seria sempre de seus filhos? Saiba, então, seu Biró, que esta casa que se chama coração será também sempre sua como nossa é essa casa grande, enorme que é seu coração de pai e amigo.
Receba meu pai, neste 30 de novembro, as honrarias que merece. Receba nesse dia todas as congratulações possíveis e tenha sempre no alto desses 1,55m de sabedoria todo um sacrário de vida e amor.

Quero meu pai, tributar-lhe toda uma vitória que alcancei nestes anos todos de luta e busca por dias melhores. Dizer ainda que essa vitória é tão sua que não consigo falar dela, sem antes mencionar sua importância no incentivo, no desprendimento e no acreditar na minha força de vencer em terra que não é a nossa, mas que me recebeu como a um filho, e por isso não me foi madrasta. Agradecer por sua confiança e fé é reconhecer toda uma coragem que o senhor teve de soltar para o mundo o seu filho que, como muitos nordestinos migram, sem lenço e sem documento, para citar Caetano Veloso, e de fato, na minha mala só vieram os sonhos e a vontade sem os quais, quem vence? Desde o começo o senhor acreditou e hoje eu apenas agradeço.

Lembre-se de que naquele 9 de setembro de 1988, o senhor embarcou comigo nesse sonho e nessa vontade. E vencemos.

Nesses 75 anos o que mais poderíamos dizer, senão que o senhor será sempre nosso herói? E não apenas aquele de nossa infância, em que víamos tudo grande, enorme, inclusive o senhor, mas o herói que sem armas, venceu. E vencer para nós tem todas as significações possíveis, principalmente esta de chegar aos 75 anos com a resistência das pedras e dos mandacarus que circundam nossa vida.

Daqui, meu pai, desse Rio de Janeiro que nos separa apenas fisicamente, imagino-o a soprar essas velinhas de vitórias tantas, na esperança de que muitas ainda sejam assopradas por este seu fôlego de vida e saúde.

Chegou a hora de apagar a velinha...
Vamos cantar aquela musiquinha?

Parabéns, meu velho, e para não ser repetitivo... Meu herói!

Vassouras, 30 de novembro de 2004.
Pedro Pernambuco.  
Texto escrito de forma amadora em 1997, ano de término de graduação, e a que guardo com carinho, por ter o poeta Manuel Bandeira como um dos meus preferidos, sempre, devido ao seu olhar tão terno para o cotidiano e para as coisas simples e belas, consequentemente. Acho que é isso. Abraço a todos.


As mulheres de Manuel Bandeira

                                                                                               Por Simão Pedro dos Santos


Temática recorrente em Manuel Bandeira, o universo erótico constitui requinte, sofisticação, elegância, sensibilidade e sensualidade tão belas que fascinam e prendem o leitor.

O poema Nu, (Duas canções do tempo do beco), revela erotismo e volúpia intensos, trabalhados com a destreza de quem traz experiência e sabe desvestir a mulher. Nesse trato com as palavras, a impressão que se tem é a de que a mulher aflora, sai do poema, numa imagem plástica que traz perplexidade e surpresa:
           
                                                       Quando estás vestida
                                                       Ninguém imagina os mundos
                                                       que escondes
                                                       sob tuas roupas.

Há malícia no dizer, mas o eu lírico o faz com tanta sagacidade que deixa nua a beleza do poema. Há um despir, mas há um pudor natural que transparece em toda a linguagem palavra com que o poema é trabalhado. Interessante notar que a beleza dessa mulher não pode ser vista, contemplada à luz do dia. O dia, contrariamente, ofusca o que naturalmente era para ser percebido, exatamente por ser dia.  Só no recato e nos segredos da noite, porém, pode-se ter essa constatação:

Assim, quando é dia
Não temos noção
Dos astros
Que luzem no profundo céu.

A ideia de prazer se dá no campo semântico das palavras astros que luzem e profundo céu, o que expõe, mostra a noção mesma de se estar em outra dimensão, em outros mundos proporcionados pelo prazer e êxtase somente encontrados no vivenciar o amor  Eros.
Os desejos em torno da mulher se misturam ainda à profunda liberdade da noite nua e entre paredes misteriosas. Mulher e noite se fundem em metáfora do prazer e do desejo intensos, para possibilitarem ao eu lírico o sentido das descobertas e, consequentemente, das conclusões. Noite e mulher latejam, são profundas e ardem. Noite e mulher são para serem descobertas:

Mas a noite é nua
E, na noite
Palpitam teus mundos
E os mundos da noite

O corpo da amada agora aparece completo e essa totalidade se dá numa descrição fulcral de pontos sensíveis e desejados da mulher:

Brilham teus joelhos
Brilha teu umbigo
Brilha toda a tua
Lira abdominal

O detalhe de maior sensualidade se dá na comparação da mulher à árvore forte, robusta e seu fruto. Mulher e natureza se confundem sutilmente, pois seios quase sempre se traduzem em imagens poéticas que têm a ver com frutos, pomos vertidos para a metáfora do amor maduro, meigo, delicado e, certamente alvos de desejos e até de cobiça. Frutos maduros ensejam vontades, doçura, sonhos e ânsia de toque e conquista. Os seios da mulher despertam doçura, desejos e a vontade do toque. Ao utilizar essa imagem o poeta leva o leitor a despertar olfato, visão, tato e paladar, configurando o desejo de realização da conquista e conseqüente degustação do fruto:

Teus exíguos seios
- como na rijeza
Do tronco robusto
Dois frutos pequenos.

Acentue-se ainda o tocar do corpo, detalhadamente, a sensualidade e sutileza da descrição desse toque e a admiração com o corpo dessa mulher é tratado. Interrogação e exclamações depõem desse deslumbramento:

Teus seios?
Teus duros mamilos!
Teu dorso! Teus flancos!
Ah! Tuas espáduas!

O ponto mais alto desse erotismo dá-se nas três últimas estrofes, quando o grau máximo de todo um desejo é observado em versos como olhar mais longo, mais lento, mais líquido, o que denota libido, desejo incontido, incontrolável e algo que foge ao controle. O involuntário desejo se derrama em líquidos, como resposta do olhar voluptuoso, que quer e devora antes do banquete.

O encontro, porém, o conhecer-se, o penetrar é percebido na semântica de palavras como boiar, nadar e saltar, em sintonia com palavras-chaves de os sugestivos versos: Baixo num mergulho/ perpendicular.

Concluindo o ato, a satisfação mútua dos corpos, o prazer do encontro em profundidade:

Baixo até o mais fundo
Do teu ser, lá onde
Me sorri tu’alma
Nua, nua, nua.

Rio de Janeiro, 08/101997.

 






                                                              

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Texto em homenagem aos 70 anos de J. Borges, cordelista, e, principalmente, um dos maiores xilogravuristas populares do Brasil, com reconhecimento internacional. Pesquisem e saberão de sua importância. Abraços.

JOSÉ FRANCISCO BORGES – HOMEM DE MADEIRA E CORDEL

                                                                                                      *Pedro Pernambuco

J. Borges faz neste 20 de dezembro, 70 anos. Uma vida dedicada à arte. Literatura de cordel e xilogravura integram o seu universo. Traço inconfundível, sua gravura é toda uma concepção desse nosso mundo/Nordeste; de nossa alegria; de nossa tristeza; de nossa fé e esperança.

Saída do povo, a expressão de sua alma, só poderia estar em seu povo no seu sentido mais original. J. Borges é o próprio povo em suas representações. Seu cordel depõe de tudo isso e sua xilogravura não menos.
Na sua arte todo um universo do Nordeste é presença constante e não haveria de ser diferente: o cinzento das secas ou o verde cortante dos canaviais são motivos para o talhe de sua gravura e para a apreensão de sua sensibilidade.
É Borges o homem local se fazendo universal e isto se dá justamente porque seu olhar é aquele do cidadão imbuído na história e no mistério de seu povo.

De seu olhar e de suas mãos saem o traçado e o corte a que o nó da madeira tem de ceder. Nó. Nordeste. Nós todos embutidos na umburana. Nosso dia-a-dia eternizado por este cronista da madeira: casamentos de matutos; caçadores; agricultores a cavar o pão nas pedras; Lampiões e Marias Bonitas redivivos em nordestes bravios; o retirante; o forrozeiro em festa; o cantador ou o vaqueiro; prostitutas humanizadas sob a proteção de um céu borgeano e complacente; feirantes e feireiros; carnavais coloridos de papangus quase medievos em mundo pós-moderno; santos e diabos (mas diabinhos bons, brincalhões, quase bobos de corte) em representações de nordestes brincadores frente às adversidades. Nordestes joões grilos que tentam saltar as intempéries com um heroísmo entre o lúdico e o real. Eis a crônica de J. Borges.

Não é fácil discorrer sobre o homem que hoje deixa seu Nordeste e corre o mundo. Difícil dizer do homem que sai de Bezerros e atravessa fronteiras. Mas é também paradoxalmente fácil dizer deste homem que nos faz espectadores e personagens de sua narrativa de madeira e cordel. Fácil dizer desse homem que é ao mesmo tempo personagem de sua inventiva, pois sua madeira e sua história se confundem ou na verdade, se fundem e tornam-se uma coisa só. Única. Portanto, história verdadeira transposta para a linguagem da arte.

J. Borges é isto: identidade e identificação com seu povo e, desse modo, não se sabe se sua obra é arte disfarçada em verdade ou verdade disfarçada em arte. O que se sabe é que J. Borges é artista. O que se sabe é que J. Borges re-cria mundos, universos. Mundos em que gostaríamos todos de habitar, porque mundos da arte, da fantasia, da festa, do brinquedo. O não lugar a que todos gostariam de pertencer. Pasárgadas onde tudo fosse possível, como propunha e queria Manuel Bandeira.

J. Borges. 70 anos! Uma vida. Uma história. O papel e a madeira contando e cantando/encantando a todos. Encantando o mundo e re-fazendo a história deste Nordeste de homens fortes e bravos. Homens a quem J. Borges representa no cordel e na madeira em cotidiano às vezes crítico, noutras quixotesco, noutras evasivos... Nordestino.

Estamos todos de parabéns, porque J. Borges é de Bezerros. É de Pernambuco. É do Brasil. É patrimônio.

70 anos! Setenta dezembros! Parabéns! Uma saga de cordel esse J. Borges!

* Pseudônimo de Simão Pedro dos Santos, mestre em Literatura Brasileira, pela UFRJ e professor de Letras da Universidade Severino Sombra em Vassouras – RJ e do Centro de Estudos Integrados, em Barra do Piraí – RJ.