sábado, 6 de junho de 2015


Pra não dizer que não vi os protestos e as flores


No dia 15 de março de 2015 o Brasil explodiu em protestos, sobretudo, anti-Dilma, em que se reivindicavam impeachment (ô palavrinha!), justiça contra mensaleiros, a saída do Supremo da cena da Justiça (pelo menos foi o que apareceu em uma faixa carente de revisão de português), investigações quanto ao escândalo da Petrobras, o fim da corrupção, entre outras propostas. 

Exercer o direito de protestar é legítimo, democrático e, sem dúvida, um ato político, e há de se fazê-lo, sim. Há de se apontar os erros, os desmandos, as injustiças cometidas por quem está à frente dos destinos do povo, o que envolve não somente o Executivo, mas as outras instâncias como o Legislativo e o Judiciário, e em todos os níveis da federação. Há de se protestar. Há de se gritar e tomar as ruas. Nada demais! É direito. É legítimo, É democrático. 

No entanto, o que se percebeu – e é só dá uma olhada nas imagens, nos textos sobre o evento e nas atitudes de quem dele participou – foi destilação de ódios, segregação de classes, divisão da sociedade. O que se viu foi um movimento de orla, de cidadãos que se vestiram com a camisa da Seleção Brasileira não em protesto coletivo, no sentido real de povo, mas naquele em que o olhar para umbigo prevalece. Algum ingênuo viu pessoas do povo – salvo um ou outro desavisado que de tudo participa sem pensar – nessa marcha de 15 de março? 

Numa outra ocasião mencionei que não se podem esconder sob o tapete os envolvimentos escusos do PT. E pelo que consta, ninguém do partido deseja fazê-lo. Também não há como justificar os desmandos do partido em comparação com o que sempre se viu no passado. Na verdade, o Partido dos Trabalhadores não pode se eximir de suas irresponsabilidades. Nem deve. Há de se permitir investigação, julgamento e condenação, mediante a comprovação dos fatos. Tarefa da Justiça. É notório que as investigações têm sido permitidas e, devem ser, e os processos levados a cabo. Há de ser. 

Voltemos, porém, aos passeios de praia de março em todo o Brasil. Impressionaram por demais os chamados selfies com policiais a que as elites sempre detestaram, humilharam e em quem sempre deram carteiradas. Era de se esperar que cassetetes brandissem no ar? Não. De forma alguma. Pode-se protestar em paz, civilizada e racionalmente, em qualquer circunstância. A sutileza talvez não percebida na caminhada de 15 de março é que os cartazes (algo estratégico?) em que se pediam a volta dos militares não permitiam que houvesse repressão. Soaria contraditório e seria uma lástima. 

O pior de tudo foram os diversos textos em inglês em apelo à volta desses mesmos militares. Num deles, na orla alagoana, (mas frise-se, ocorreu em todo o Brasil), lê-se: “SOS FORÇAS ARMADAS”. E na versão para a língua de Shakespeare: “SOS ARMED FORCES”. Outras idiotices completavam a faixa ainda em português e inglês. 

O mais interessante e paradoxal, portanto, foi o clamor pela volta das Forças Armadas com entoação de “Caminhando”, mais conhecida como “Pra não dizer que não falei das flores”, de Geraldo Vandré, (que até hoje sofre dolorosas consequências) e é considerado o hino-símbolo de maior protesto contra a Ditadura Militar que nos deu uma noite de vinte e um anos. 

Será que o mundo velho ainda tem jeito? 


Texto originalmente publicado no Tribuna do Interior, jornal que circula na cidade de Vassouras – RJ, região sul fluminense e baixada fluminense.


Escolas: que governo inscreverá o nome nas questões educacionais?

No último resultado do Exame Nacional de Ensino Médio – Enem, dos mais de seis milhões que fizeram as provas, acima de meio milhão zerou a redação.
Dados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira – Inep revelam: “[...] entre os que zeraram a redação, 13.039 copiaram textos motivadores da prova; 7.824 escreveram menos de sete linhas; 4.444 não atenderam ao tipo textual solicitado; 3.362 tiraram zero por parte desconectada e 955 por ferirem os direitos humanos. Outras 1.508, por outros motivos”.
Sob o horroroso e rimado tema Publicidade infantil em questão no Brasil não dá para escrever muita coisa, convenhamos. Não dá, não pelo tema, qualquer tema, mas pelo despreparo de boa parte do alunado brasileiro. Se não se sabe o que é publicidade não dá para discorrer sobre. Se não se tem o menor conhecimento a respeito de exploração infantil, (publicidade com uso de criança é um tipo de exploração infantil, apesar de permitida, por ser arte, mas tem fim comercial com a imagem do outro), não se discorrerá sobre.  
No entanto, o fulcro da questão não está no tema do último Enem. Vai mais longe: falta o incentivo à escrita; não há o gosto pela leitura nem pela escola; não há respeito ao professor em casa e, consequentemente, não o há na escola. Resultado: a escola tem estado à margem e na contramão. Professores de mãos atadas em meio a alunos desordenados e que nada querem, que não demonstram o menor interesse, que destratam e agridem seus mestres e, o mais grave, sob a proteção politiqueira do próprio Estado, que subvenciona o lastimável comportamento com tantas leis absurdas.    
Se as famílias não colaborarem, se o Estado continuar de olhos fechados os educadores irão sofrer por muito tempo, pois a educação se faz com alunos, professores e pais. A escola visa o crescimento da sociedade, pois para ela trabalha na formação do outro que a ela pertence. Se a escola não puder levar o cidadão ao conhecimento, se não puder despertar o interesse, se não puder levar o outro à autonomia, a quem formará?
O grande desafio para a escola é vencer barreiras quase intransponíveis de desinteresses: pais, alunos, sociedade e, até alguns professores, que pouco ou nada têm feito para mudar, num tempo em que se cobram mudanças.
Educar é construir, mas só se erguem casas com base, com alicerce, com fundação sólida. Não adianta criar tantos programas sociais em detrimento do maior e mais importante deles: o da educação.
Programas sociais são importantes. Há a necessidade da ação do Estado no que respeita aos que precisam, mas se ir a escola for justificativa para se manterem benefícios sociais e sem responsabilidade alguma do governo, dos pais, e do próprio aluno, há de se repensar e discutir o que isso já tem trazido hoje e como será o futuro.  
Do contrário, continuaremos a escrever errado por linhas tortas. E sobre qualquer tema.

Texto originalmente publicado no Tribuna do Interior, jornal que circula na cidade de Vassouras – RJ, região sul fluminense e baixada fluminense.

 Telhado de vidro ou... Macaco que só olha o rabo dos outros...

Nos últimos anos vivemos escândalos que nos abalam profundamente, que nos jogam em abismos profundos tanto dentro quanto fora do país. Sequelas que fazem com que vivamos coletivamente tamanha baixa autoestima que só o tempo cura. E haja tempo.

Sabe-se que o Partido dos Trabalhadores e os que com ele afinizam foram os grandes bastiões no combate à corrupção, a falcatruas, a desmandos de toda espécie, sobretudo, nos anos oitenta e noventa do século passado e início deste. Basta uma volta ao calendário para lembrarmos que há não muito tempo um presidente da República com todo o seu séquito foi derrubado. Em meio a essa renhida luta estavam o PT, a UNE, a UBES, os sindicatos e a sociedade organizada.

Com a ascensão do Partido dos Trabalhadores em 2002, houve uma onda de esperança em todo o país. Todos foram embalados pela bela frase de Luiz Inácio da Silva, de que “a esperança venceu o medo”. Quem não se emocionou com essas palavras? Quem deixou de ter esperança? Infelizmente, não muito tempo depois, começou-se a ter medo de que a esperança fraquejava. Ninguém acreditava no que via e ouvia e os escândalos brotavam. A prática antiga do que no governo do PT ficou conhecido como Mensalão foi o grande estouro da boiada. A grande descrença. O governo, no entanto, seguiu firme com seus justos e bons programas, com suas metas. E, segunda chance. Novo mandato. Novos acreditares.

Terceira vez, o partido se faz presente. Agora é uma mulher que ascende ao poder. Esperanças se renovam. Popularidade sobe. Crenças se avolumam. Orgulho coletivo de se ter uma mulher no comando do país, e pela primeira vez. Novamente, desesperança, escândalos, prisões, solturas, sensação de impunidade. Petrobras. Investigações, demandas, pelejas, imprensa envenenadora, maledicente, dúbia. Os problemas continuam, mas é certo e notório também que o PT permite investigar, não esconde, escancara. Mas não adianta, pois dói, fere e machuca por demais, a certeza da impunidade, embora isto fuja, pelo menos teoricamente, ao Partido, já que é foro da Justiça e a esta cabe julgar, condenar, absolver.

Nossa reflexão, no entanto, se faz não em torno de o PT está envolvido em tantas questões, pois que essas não são novas, uma que já nasceu nosso país sob a égide da corrupção, o que não justifica o continuarmos a ser corruptos. Nosso questionamento se dá quando nos vem à cabeça que o Partido dos Trabalhadores jogou pedras em telhados de vidro sem perceber que construía o seu com igual matéria. De repente, não percebeu o Partido que macaco que só olha rabo dos outros esquece o seu.

Desse modo, sejamos ou não seguidores ou simpatizantes do Partido da estrela vermelha, sejamos justos: não há como jogar a decepção para baixo do tapete.

E temos dito!        

Texto originalmente publicado no Tribuna do Interior, jornal que circula na cidade de Vassouras – RJ, região sul fluminense e baixada fluminense.







Aonde irão os professores, qual será a nossa escola, o que será desse país?

A onda de violência que tem tomado o país, e há muito tempo, tem sido a preocupação dos cidadãos e cidadãs comprometidos com os rumos da sociedade. Há quase uma crença geral de que não há mais conserto para essa bela terra em que nascemos. A gravidade da violência tem sido tão intensa que poucos já acreditam que teremos saída para dias de paz e de tranquilidade. O fenômeno se alastrou tão rapidamente, que não há um lugar em que se possa viver sem susto, em segurança e sem a surpresa de ataques que nos amedrontam a todos no campo e na cidade. Nesse aspecto, não há mais ou há pouca diferença entre o grande centro, onde incidia com mais vigor o fenômeno da violência, e o campo ou as pequenas cidades.

Outra violência, ou o reflexo daquela que se dá noutras artérias das cidades e do campo, se instalou nas escolas. Professores se tornaram vítimas nas quatro paredes das salas de aula. Acuados, os mestres têm de lidar com um público assustador num espaço que sempre foi destinado a formar cidadãos, a orientar para a vida, a dar esperanças de futuro e dignidade. Hoje, na contramão do que seria a esperança e um futuro melhor, o que fazem muitos alunos  é, sob os auspícios de leis frágeis e irresponsáveis, preferirem o difícil caminho da agressividade, da intolerância, do desrespeito e da não reciprocidade aos ideais não só da educação como de seus agentes, os professores.

As manchetes de revistas e jornais nos estarrecem a todos. As notícias em torno do cotidiano dos professores nos entristecem. O desinteresse, a desatenção, o uso indiscriminado de aparelhos de celulares em aula deixam os professores reféns, não só da indolência quanto ao  aprender quanto das reações do “estudante” se for repreendido. As novas tecnologias, é certo, deveriam ser aliadas na disseminação do saber, na dinâmica de sala, no laboratório, nos experimentos mais diversos, no auxílio à busca pelo conhecimento do professor e do aluno, mas não é o que se constata.

O uso indevido desses aparatos nas escolas tem sido a dor de cabeça dos docentes, que, temerosos, não sabem como fazer para impedi-lo, pois há um “não-me-toques” em relação ao aluno, que o próprio sistema deixa transparecer. Leis para coibir essa desajustada prática nos educandários até há, o que não há é o substrato devido a que o professor possa se agarrar para agir: pais, comunidade, Conselho Tutelar, direção e muitos pares, em muitos casos, (por medo ou tolerância barata) se voltam para uma prática de proteção que termina por acobertar essa atitude nada correta, por acomodar e incitar o erro, o que resulta em prejuízo aos que querem e sonham com uma sala de aula em que prevaleçam o saber, o respeito, a pesquisa, a busca pelo crescimento do outro e a crença num homem e numa humanidade melhores.

Outro agravante vem dos poderes constituídos que, além de não fomentarem o conhecimento para todos os cidadãos, – quanto menos saber melhor – não concedem aos profissionais do ensino o necessário salário digno, o incentivo às especializações e uma vida à altura de seus ideais e de suas práticas docentes.

Na verdade dura e na mão contrária à sua digna história, os professores têm apanhado em sala de aula, onde têm sido amordaçados, e ainda são surrados por quem os deveria proteger, o falido e não menos corrompido estado, que apenas reedita antigos projetos que só mudam de nome, mas estão a enorme distância de se tornarem realidade.

O agora ideal Pátria Educadora poderá ter outro nome amanhã, mas qualquer governo, hoje ou sempre, só realizará essa ideia, se primeiramente, enxergar os que levarão à frente projeto como esse: os professores.

A triste expectativa, por enquanto, será a de, – e já é quase realidade –, num futuro não muito distante, não dispormos de professores, e neste caso, seremos um país triste e sem futuro.


E será a escuridão!

Texto originalmente publicado no Tribuna do Interior, jornal que circula na cidade de Vassouras – RJ, região sul fluminense e baixada fluminense.