Medo
da ditadura, medo de ditaduras
Prof. Pedro Pernambuco*
“Faz
escuro, mas eu canto/Porque a manhã vai chegar.” (Thiago de Melo)
Na
transição março/abril de 2014 o Brasil tem vivido a rememoração da tomada do
poder central pelos militares, ou melhor, do golpe de estado empreendido pelas
fardas nacionais. Não se fala em comemoração, pois apesar de significados muito
próximos, comemorar é celebrar, festejar e rememorar é somente lembrar um
acontecimento qualquer, recordar, sem necessariamente festejar. E não há o que
festejar.
Recordar
cinquenta anos do golpe que marcou a história da República na segunda metade do
século XX é lembrar momentos de extrema dor, de perdas, de mortes, de prisões,
de exílios. Episódios que fizeram uma noite durar vinte anos e um dia levar
igual tempo para nascer.
No
trajeto de 1964 para 1985 foram assinados e lançados cinco Atos Institucionais
que trouxeram silêncio ao país. O pior deles, o AI 5, é de 1968 e trouxe a
censura, o calar, a vigilância, o medo. Medo que muitos não tiveram e contra o
qual se levantaram até os idos de 1985, quando um Congresso Nacional eufórico,
como em todas essas ocasiões no Brasil, dava cabo do regime de exceção para
júbilo do povo, dos artistas, dos políticos de várias bandeiras nas ruas. Era a
liberdade que, em grito esperançoso, havia feito ascender o poder civil.
Decretava-se o final do medo.
Reflitamos,
portanto: o medo e a ditadura passaram? Não há dúvida. Finalmente, vivemos uma
democracia quase balzaquiana, pois no próximo ano comemoraremos 30 anos de
liberdade democrática. Reflitamos: o medo e a ditadura passaram?
Absolutamente.
Nesses quase trinta anos temos vivido uma ditadura de descaso com a educação,
com os professores, com as escolas. Portanto, vivemos um medo do analfabetismo,
da ignorância, da alienação. Dura realidade que ainda nos acompanha nesse país
de esperanças.
Quase
trinta anos de democracia e vivemos uma ditadura de descaso com a saúde.
Sucateamento de pessoas nos corredores dos hospitais. Falta de hospitais, de
médicos e de tantos profissionais da área. Vivemos o medo de adoecer. O medo de
ser pobres e desassistidos. O pavor do silêncio da morte no chão dos hospitais.
A ditadura dos planos de saúde. Da desassistência do poder público democrático
que não tem cuidado de seus filhos.
Três
décadas quase. Ditadura da insegurança. Medo nas ruas, grades nas casas. Muros
altos. Cercas elétricas. Câmeras. Seguranças particulares. Não temos segurança.
Dever do estado. Deveres não cumpridos numa sociedade e numa política
democráticas. Vivemos a ditadura do medo. Temos medo de ir e vir, apesar de o
ir e vir serem garantias de uma Constituição democrática. Temos, às vezes, a
certeza da ida, mas não a da volta. E quase sempre estamos presos e com medo em
nossas casas.
Vivemos
a ditadura do medo. Medo da direita, com seus ruralistas, seus capitalistas,
seus direitistas, seus nacionalistas, seus tantos “istas”. Vivemos a ditadura
da esquerda (que não é tão esquerda assim), com seus comunistas, seus
antirruralistas, seus anticapitalistas, seus nacionalistas, seus tantos “anti”
(que não são tão “anti” assim), e otras cositas mas.
Tenhamos
medo dos que têm gritado e falado em democracia e liberdade aqui nesse país do
Sul da América, que abominam ditaduras, mas amam a repressora Ilha de Fidel,
apoiam “revolução” bolivariana de Maduro e conversam ao pé do ouvido com o Irã.
Se
isto não for contradição, alguém explique o que é ser contraditório. Fiquemos
por aqui. Há medo do paredon.
*Pseudônimo de Simão Pedro dos
Santos.
Professor
de letras da Universidade Severino Sombra – Vassouras – RJ.
Professor
de Literatura Brasileira no Centro de Estudos Integrados – CEI – Barra do Piraí
– RJ.
(Texto originalmente publicado na coluna Escrivaninha de Cedro, mantida por mim no Tribuna do Interior, periódico editado em Vassouras-RJ, com circulação em toda a região sul e em parte da Baixada Fluminense).
(Texto originalmente publicado na coluna Escrivaninha de Cedro, mantida por mim no Tribuna do Interior, periódico editado em Vassouras-RJ, com circulação em toda a região sul e em parte da Baixada Fluminense).