quinta-feira, 17 de abril de 2014

Medo da ditadura, medo de ditaduras

                                       Prof. Pedro Pernambuco*
          “Faz escuro, mas eu canto/Porque a manhã vai chegar.” (Thiago de Melo)

Na transição março/abril de 2014 o Brasil tem vivido a rememoração da tomada do poder central pelos militares, ou melhor, do golpe de estado empreendido pelas fardas nacionais. Não se fala em comemoração, pois apesar de significados muito próximos, comemorar é celebrar, festejar e rememorar é somente lembrar um acontecimento qualquer, recordar, sem necessariamente festejar. E não há o que festejar.

Recordar cinquenta anos do golpe que marcou a história da República na segunda metade do século XX é lembrar momentos de extrema dor, de perdas, de mortes, de prisões, de exílios. Episódios que fizeram uma noite durar vinte anos e um dia levar igual tempo para nascer.

No trajeto de 1964 para 1985 foram assinados e lançados cinco Atos Institucionais que trouxeram silêncio ao país. O pior deles, o AI 5, é de 1968 e trouxe a censura, o calar, a vigilância, o medo. Medo que muitos não tiveram e contra o qual se levantaram até os idos de 1985, quando um Congresso Nacional eufórico, como em todas essas ocasiões no Brasil, dava cabo do regime de exceção para júbilo do povo, dos artistas, dos políticos de várias bandeiras nas ruas. Era a liberdade que, em grito esperançoso, havia feito ascender o poder civil. Decretava-se o final do medo.

Reflitamos, portanto: o medo e a ditadura passaram? Não há dúvida. Finalmente, vivemos uma democracia quase balzaquiana, pois no próximo ano comemoraremos 30 anos de liberdade democrática. Reflitamos: o medo e a ditadura passaram?

Absolutamente. Nesses quase trinta anos temos vivido uma ditadura de descaso com a educação, com os professores, com as escolas. Portanto, vivemos um medo do analfabetismo, da ignorância, da alienação. Dura realidade que ainda nos acompanha nesse país de esperanças.

Quase trinta anos de democracia e vivemos uma ditadura de descaso com a saúde. Sucateamento de pessoas nos corredores dos hospitais. Falta de hospitais, de médicos e de tantos profissionais da área. Vivemos o medo de adoecer. O medo de ser pobres e desassistidos. O pavor do silêncio da morte no chão dos hospitais. A ditadura dos planos de saúde. Da desassistência do poder público democrático que não tem cuidado de seus filhos.

Três décadas quase. Ditadura da insegurança. Medo nas ruas, grades nas casas. Muros altos. Cercas elétricas. Câmeras. Seguranças particulares. Não temos segurança. Dever do estado. Deveres não cumpridos numa sociedade e numa política democráticas. Vivemos a ditadura do medo. Temos medo de ir e vir, apesar de o ir e vir serem garantias de uma Constituição democrática. Temos, às vezes, a certeza da ida, mas não a da volta. E quase sempre estamos presos e com medo em nossas casas.

Vivemos a ditadura do medo. Medo da direita, com seus ruralistas, seus capitalistas, seus direitistas, seus nacionalistas, seus tantos “istas”. Vivemos a ditadura da esquerda (que não é tão esquerda assim), com seus comunistas, seus antirruralistas, seus anticapitalistas, seus nacionalistas, seus tantos “anti” (que não são tão “anti” assim), e otras cositas mas. 

Tenhamos medo dos que têm gritado e falado em democracia e liberdade aqui nesse país do Sul da América, que abominam ditaduras, mas amam a repressora Ilha de Fidel, apoiam “revolução” bolivariana de Maduro e conversam ao pé do ouvido com o Irã.

Se isto não for contradição, alguém explique o que é ser contraditório. Fiquemos por aqui. Há medo do paredon.

*Pseudônimo de Simão Pedro dos Santos.
 Professor de letras da Universidade Severino Sombra – Vassouras – RJ.
 Professor de Literatura Brasileira no Centro de Estudos Integrados – CEI – Barra do Piraí – RJ.

(Texto originalmente publicado na coluna Escrivaninha de Cedro, mantida por mim no Tribuna do Interior, periódico editado em Vassouras-RJ, com circulação em toda a região sul e em parte da Baixada Fluminense).