sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Um grito preso na garganta, um clamor solto no ar
                                                     Pedro Pernambuco*
Quem tem pensado a cultura desse nosso país? Certamente, muitos cidadãos e cidadãs, mas a impressão que temos é a de que parece pouco. Talvez isto não seja notado, devido à dimensão geográfica dessa nossa terra. É possível que não se perceba isso porque há pouca ênfase nos pensadores dessa pátria. Pensar e mostrar o que temos de melhor não dá o retorno necessário. Mostrar nossos tantos e profundos artistas, de todas as áreas da arte, não se faz importante para as grandes mídias, o que revela a presença de uma crise tal, que chegamos a cogitar da falta de bons artistas na paisagem artística brasileira da atualidade.

Na verdade, o que tem havido é um investimento por parte de quase todos os veículos de comunicação, numa “arte” que vende segundo imposição empreendida por essas mesmas mídias, que, por insistente repetição, mediante imagem e áudio, enganam a olhos e ouvidos, que, por sua vez, se convencem de que consumem arte. Programas dominicais de auditório ou não, (mas sempre os de canais abertos), têm prestado há pelo menos duas décadas, excelso desserviço a milhões de telespectadores. Igualmente nocivos, certos programas de rádio (e não são poucos), têm incutido a seus fiéis ouvintes uma indisfarçável síndrome de besteiras. Aonde iremos? Quando pararemos com essa busca por desinformação e descompromisso midiáticos?

É certo que o rádio, a televisão, o teatro, o cinema representam, essencialmente o entretenimento, mas há, por outro lado, e deveria ser cumprido, o comprometimento com o conscientizar, o educar, o informar à população para a qual se dirigem. O que se constata, porém, é uma espécie de alienação desse público por essas mídias. Não queremos um rádio, uma televisão, um teatro, um cinema que não cumpram com o dever da diversão, do humor, da brincadeira, no entanto, o que têm prevalecido são a brincadeira, o mau gosto, o escárnio, a humilhação do outro. Se há a humilhação do outro para provocar o riso dos demais, isso deixa de ser uma contribuição ao riso e passa a ser sua banalização, pois resulta em algo barato, que desmerece e desabona a terceiros. Não queremos o riso nem o comunicador que humilham.

Assistimos, há pelos menos dois decênios, a programas televisivos pouco atraentes que seguram a audiência com filões como doação e reforma de casas, pagamento de dívidas, patrocínio de viagens de retorno a famílias, sobretudo nordestinas, que tentaram a sorte nos grandes centros e não deram certo. Infelizmente. Assistimos a tudo com emotividade, choro, expectativa, e contribuímos comovidos, com a audiência que às vezes, nos segura para a semana seguinte numa aventurosa maratona de ajuda a um desvalido qualquer desse pobre e injusto país.

Há uma música ou algo a que alguns insistem em chamar de música, que tem sido impelida por ouvido e garganta de nossa gente numa mistura de difícil deglutição: letra, voz, melodia, tudo inserto num caldeirão de realidade “artística” que deixa a desejar. Todavia, a voz e o grito de uma mídia alienante são fortes o suficiente para promover a “artista” àquele que tiver a bênção de um batismo pago, e com a garantia de que, àquele a quem a mensagem atingir terá a sensação de que consume arte.

Faltam-nos mídias bem-intencionadas, faltam-nos canais de comunicação com propostas, programação e seleção de uma música que agrade de acordo com o gosto de cada cidadão ou  grupos de cidadãos (aqui não se questionam gêneros e gostos musicais), pois há nessa  linguagem o bom conteúdo poético que a acompanha. O belo universo caipira não tem sua cultura lítero-musical? As culturas nordestina, sulista, nortista, do centro-oeste, do sudeste não têm excelente cultura lítero-musical?

Adianta a alta tecnologia e o aparato de som de última geração se não há conteúdo? Por que temos de suportar uma mídia que patrocina tamanha brutalidade e bestialização? Presenciamos tantos protestos nos últimos meses: quebra-quebra, destruição do patrimônio público, incineração de transportes públicos, invasão a bancos, clamor por educação de qualidade, mas não temos ouvido vozes uníssonas em prol de mudanças que interfiram nessa crise capitaneada pelas empresas de comunicação na sua insistência por alienar, em todos os sentidos, a uma população que, carente de tudo, é também faminta por cultura e entretenimento saudáveis, e isso envolve educação. Se um dia esse bom alimento nos for oferecido iremos gostar, saborear com vontade, pois estamos e somos ávidos por um pão leve e que alimente.

Que mídia fará isso um dia? As que tentaram falharam ou rastejam, não por culpa sua, mas por não haver público ou por este ser diminuto, reduzido. Pequeno. Culpa desse público? Absolutamente, não! A raiz do mal está na comercialização desvairada de tudo, na camelotagem midiática que perdeu o senso da seleção e da escolha em nome do vil metal. Fazer o ouvinte ou telespectador comer pão bolorento com aspecto de fresquinho e bom é pregar a mentira com cara de verdade. E nessa “verdade”, infelizmente se tem acreditado.

Sabe-se que as empresas de comunicação não vivem de brisa, não fazem votos de pobreza – nem devem proceder dessa forma –, pois tudo nesse e para esse meio demanda alto preço: do microfone, à mesa de som, da câmera ao apresentador, da montagem de estúdio à fiação necessária.  Tudo isso por si, justificaria e constituiria o bom motivo para a distribuição de um produto de qualidade.

Nossa pergunta para uma reflexão é a seguinte: se denunciamos ao Procon uma empresa por  desserviço qualquer, por que não nos incomodamos pelos desserviços que as empresas de comunicação nos prestam?

Não queremos ouvir somente Sílvio Caldas (1908 – 1998) ou Dorival Caymmi, (1914 – 2008), mas se não sabemos mais quem foram ou quem são (os bons são eternos) Sílvio Caldas e Dorival Caymmi, alguma coisa está errada entre o céu e a terra. Da nova geração, poucos, pouquíssimos, sabem quem foram esses importantes cavalheiros. E se há quem não saiba deles, respectivamente desaparecidos há não muito tempo, passamos por uma crise verdadeira de identidade nacional. Quando isto se dá, qualquer povo corre riscos enormes.

Precisamos ligar para o Procon!    

*Pseudônimo de Simão Pedro dos Santos. Professor de letras da Universidade Severino Sombra – Vassouras – RJ. Professor de Literatura Brasileira no Centro de Estudos Integrados – CEI – Barra do Piraí – RJ.

(Texto originalmente publicado na coluna Escrivaninha de Cedro, mantida por mim no Tribuna do Interior, periódico editado em Vassouras-RJ, com circulação em toda a região sul e em parte da Baixada Fluminense).

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