domingo, 16 de março de 2014

Se há vendilhões da fé, alguém precisa de cura
                                                    
                                                   Prof. Pedro Pernambuco*

A ti tocou-te a máquina mercante,
[...]
Tanto negócio e tanto negociante.
                             (Gregório de Matos – poeta brasileiro do século XVII)

No Novo Testamento, especialmente no livro de Lucas 19: 45-46, mas também noutros evangelistas, a saber, Marcos, João e Mateus, aparece a seguinte passagem sobre Jesus: “Então, entrando ele no templo, começou a expulsar os que ali vendiam, dizendo-lhes: Está escrito: A minha casa será casa de oração; vós, porém, a fizestes covil de salteadores”.

Nosso intento não é o de cunhar líderes de quaisquer comunidades religiosas de salteadores ou o que o equivalha. O próprio Cristo nos ensinou a não julgar e isto não faremos, devido à nossa condição humana, o que não nos eleva ao posto de juízes de nossos semelhantes. No entanto, cabe-nos interrogar sobre a proliferação de tantos templos, sobretudo, com a chancela evangélica em  esquinas, becos, avenidas as mais movimentadas, ruas as mais simples, garagens e galpões.

Por que esse fenômeno se dissemina em todos os quadrantes de nosso país? Diga-se, ademais, que esse acontecimento tipifica em muito o Terceiro Mundo, que herdou a ideia de americanos desde meados do século XIX, por todo o XX, e que se espraia por esse quase quartel do XXI. Durante todo o século passado houve tempo para que se implantassem as mais variadas propostas evangélicas em terras africanas e pela América Latina, com instauração de correntes que se estendem do pentecostal ao neopentecostal, até o mais moderado desse pensamento. Esclareça-se que este texto não desmerece a importância de nenhum desses segmentos religiosos nas comunidades em que se inserem, mas questiona o exagero de sua inserção nessas ditas comunidades ultimamente.

Nesse turbilhão de vivências e de informações evangélicas há das mais sérias igrejas, àquelas de proposta e postura duvidosas, o que resulta em paradoxal conclusão: a descrença de tantos cidadãos que deparem com essa realidade. O extremo espalhar-se de tantos templos é o que tem levado à desqualificação e ao descrédito de tantos projetos evangélicos quantos sejam possíveis, pois não dá para separar de tantas searas em qual há o joio ou o trigo. Não se sabe o que é comércio e o que é, verdadeiramente, mensagem desprovida de interesses econômicos. Tem havido complicação para separar qual o caminho que leva ao chamado Pão da Vida, isto é, ao Cristo, e qual o que o que leva ao ganha-pão de alguns.

Reza a Constituição brasileira no quesito dos direitos e garantias fundamentais e no que toca aos direitos e deveres individuais e coletivos, principalmente no que preconiza o Art 5.º, em que se lê: “Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade”. Nos incisos IV e VI, respectivamente, o texto orienta que “é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato”; e ainda “é inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e a suas liturgias”.

Nossa reflexão se direciona para a seguinte pergunta: não seria o caso de, assegurados esses legítimos direitos, se pensar igualmente numa convenção, numa sistematização para que esses mesmos direitos tenham uma orientação, um rumo, uma reorganização, no sentido de, asseguradas essas conquistas, serem pensadas as mais bem elaboradas formas de se pôr em prática a execução desses direitos? Isso não seria, de forma alguma, tolher os direitos das pessoas, mas torná-las mais conscientes de seus direitos e de seus deveres, pois se direitos eliminam deveres, alguma coisa dará errada. Se há o direito à crença, deve haver o dever da ordem, da organização para mais bem se administrar o que foi conquistado. Abrir templos como o vento sopra para todos os lados é desorientar a quem busca o espiritual. Isso é perceptível, pois já é realidade.

A impressão que se tem é a de que, uma vez adquiridos e assegurados os direitos, sua execução se dá de qualquer forma, como se não houvesse leis e como se essas mesmas leis não fossem passivas de serem regulamentadas. A abertura de templos por quem se arvora à condição de líder religioso na função de pastor, de bispo, e agora, de apóstolo a todo o custo, banaliza o próprio segmento evangélico e, conseguintemente, afeta a crença, a fé e a seriedade daqueles que não somente as praticam de verdade, como intentam levar a palavra transformadora sem interesse mercadológico algum.  Espalhar, semear as mensagens do Mestre, - aquele mesmo que expulsou do templo os vendilhões -, é viver o legado e a missão do autêntico discípulo. O que não dá é presenciar supostos agentes da fé como máquinas de mercadores. Não dá para ver a fé como negócio a abarrotar as contas de tantos vendilhões.

Necessitamos de um Cristo com irritado chicote!

*Pseudônimo de Simão Pedro dos Santos.
Professor de letras da Universidade Severino Sombra – Vassouras – RJ.
Professor de Literatura Brasileira no Centro de Estudos Integrados – CEI – Barra do Piraí – RJ.

(Texto originalmente publicado na coluna Escrivaninha de Cedro, mantida por mim no Tribuna do Interior, periódico editado em Vassouras-RJ, com circulação em toda a região sul e em parte da Baixada Fluminense).


Nenhum comentário:

Postar um comentário