Se há vendilhões da fé,
alguém precisa de cura
Prof. Pedro Pernambuco*
A ti tocou-te a máquina mercante,
[...]
Tanto negócio e tanto negociante.
[...]
Tanto negócio e tanto negociante.
(Gregório
de Matos – poeta brasileiro do século XVII)
No
Novo Testamento, especialmente no livro de Lucas 19:
45-46, mas também noutros evangelistas, a saber, Marcos, João e Mateus, aparece
a seguinte passagem sobre Jesus: “Então, entrando ele no
templo, começou a expulsar os que ali vendiam, dizendo-lhes: Está escrito: A
minha casa será casa de oração; vós, porém, a fizestes covil de salteadores”.
Nosso intento não é o de cunhar líderes de quaisquer
comunidades religiosas de salteadores ou o que o equivalha. O próprio Cristo
nos ensinou a não julgar e isto não faremos, devido à nossa condição humana, o
que não nos eleva ao posto de juízes de nossos semelhantes. No entanto,
cabe-nos interrogar sobre a proliferação de tantos templos, sobretudo, com a
chancela evangélica em esquinas, becos,
avenidas as mais movimentadas, ruas as mais simples, garagens e galpões.
Por que esse fenômeno se dissemina em todos os quadrantes
de nosso país? Diga-se, ademais, que esse acontecimento tipifica em muito o
Terceiro Mundo, que herdou a ideia de americanos desde meados do século XIX,
por todo o XX, e que se espraia por esse quase quartel do XXI. Durante todo o
século passado houve tempo para que se implantassem as mais variadas propostas
evangélicas em terras africanas e pela América Latina, com instauração de
correntes que se estendem do pentecostal ao neopentecostal, até o mais moderado
desse pensamento. Esclareça-se que este texto não desmerece a importância de
nenhum desses segmentos religiosos nas comunidades em que se inserem, mas questiona
o exagero de sua inserção nessas ditas comunidades ultimamente.
Nesse turbilhão de vivências e de informações evangélicas
há das mais sérias igrejas, àquelas de proposta e postura duvidosas, o que
resulta em paradoxal conclusão: a descrença de tantos cidadãos que deparem com
essa realidade. O extremo espalhar-se de tantos templos é o que tem levado à
desqualificação e ao descrédito de tantos projetos evangélicos quantos sejam
possíveis, pois não dá para separar de tantas searas em qual há o joio ou o
trigo. Não se sabe o que é comércio e o que é, verdadeiramente, mensagem
desprovida de interesses econômicos. Tem havido complicação para separar qual o
caminho que leva ao chamado Pão da Vida, isto é, ao Cristo, e qual o que o que
leva ao ganha-pão de alguns.
Reza a Constituição brasileira no quesito dos direitos e
garantias fundamentais e no que toca aos direitos e deveres individuais e
coletivos, principalmente no que preconiza o Art 5.º, em que se lê: “Todos
são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos
brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito
à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade”. Nos incisos IV
e VI, respectivamente, o texto orienta que “é livre a manifestação do
pensamento, sendo vedado o anonimato”; e ainda “é inviolável a liberdade de
consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos
religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e a
suas liturgias”.
Nossa reflexão se direciona
para a seguinte pergunta: não seria o caso de, assegurados esses legítimos
direitos, se pensar igualmente numa convenção, numa sistematização para que
esses mesmos direitos tenham uma orientação, um rumo, uma reorganização, no
sentido de, asseguradas essas conquistas, serem pensadas as mais bem elaboradas
formas de se pôr em prática a execução desses direitos? Isso não seria, de
forma alguma, tolher os direitos das pessoas, mas torná-las mais conscientes de
seus direitos e de seus deveres, pois se direitos eliminam deveres, alguma
coisa dará errada. Se há o direito à crença, deve haver o dever da ordem, da
organização para mais bem se administrar o que foi conquistado. Abrir templos
como o vento sopra para todos os lados é desorientar a quem busca o espiritual.
Isso é perceptível, pois já é realidade.
A impressão que se tem é a de
que, uma vez adquiridos e assegurados os direitos, sua execução se dá de
qualquer forma, como se não houvesse leis e como se essas mesmas leis não
fossem passivas de serem regulamentadas. A abertura de templos por quem se
arvora à condição de líder religioso na função de pastor, de bispo, e agora, de
apóstolo a todo o custo, banaliza o próprio segmento evangélico e,
conseguintemente, afeta a crença, a fé e a seriedade daqueles que não somente
as praticam de verdade, como intentam levar a palavra transformadora sem
interesse mercadológico algum. Espalhar,
semear as mensagens do Mestre, - aquele mesmo que expulsou do templo os
vendilhões -, é viver o legado e a missão do autêntico discípulo. O que não dá
é presenciar supostos agentes da fé como máquinas de mercadores. Não dá para
ver a fé como negócio a abarrotar as contas de tantos vendilhões.
Necessitamos de um Cristo com
irritado chicote!
*Pseudônimo de Simão Pedro dos
Santos.
Professor de letras da Universidade Severino Sombra –
Vassouras – RJ.
Professor de Literatura Brasileira no Centro de Estudos
Integrados – CEI – Barra do Piraí – RJ.
(Texto originalmente publicado na coluna Escrivaninha de Cedro, mantida por mim no Tribuna do Interior, periódico editado em Vassouras-RJ, com circulação em toda a região sul e em parte da Baixada Fluminense).
(Texto originalmente publicado na coluna Escrivaninha de Cedro, mantida por mim no Tribuna do Interior, periódico editado em Vassouras-RJ, com circulação em toda a região sul e em parte da Baixada Fluminense).
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