segunda-feira, 1 de setembro de 2014

                                                                     Requiem para Ariano Suassuna

            Prof. Pedro Pernambuco*
                       Revisor.uss@gmail.com
        
De vermelho e negro ele se vestia. O vermelho da vida. O negro... Ah, o negro... Saudades, Ariano!

Venham os cantadores e ponteiem suas violas doridas. Venham os cordelistas com seus romances armoriais. Venham os cantadores de coco. Venham Mateus e Bastião com seus Bumbas-meu-boi multicoloridos. Venham, mestres de maracatus. Cirandeiros. Frevistas. Passistas. Ajuntem-se os vaqueiros, os aboiadores, os rabequeiros. Venha o povo das alegres feiras com seus cheiros e sabores. Venham os bonecos de Vitalino. Os viventes das xilogravuras de J. Borges. Os mamulengos do velho teatro popular. Venha o circo. As bandinhas de pífano. O sertão embandeirado com sua mítica Pedra do Reino. Venha, Quaderna. Venham. Cantem Excelências ao mestre que os cantou.

Venha a onça malhada, (povo brasileiro) e retribua em canto lindo tudo o que o poeta cantou. Que desse chão brasileiro suba um canto de ausência e dor. Mas que desse mesmo chão erga-se canto uníssono às palavras e à poesia da verve que enalteceu suas bonitezas. Cantem todos, em honra desse filho da Compadecida.

Venham negros, índios, brancos. Brasileiros de todas as cores. Cantem um hino de saudade. Mas não deixem de cantar canções alegres ao gentil palhaço que nos deixou. Venham, crianças, prossigam com o sorriso puro, a fé e a esperança que o velho poeta fez questão de espalhar. Cantem a canção do circo de muitas cores. Cantem com muitas vozes o que esse pássaro viu do Brasil real.

Venha Chicó. Siga com as mentiras boas, saudáveis. Sem maldade. Mentiras de defesa. Mentiras que vencem o mal.
Venha João Grilo. Seja essa sabedoria em meio às adversidades. Você não é só o gracejo. Você é reflexão.

Venham João Grilo e Chicó. Toquem a gaitinha. Toquem uma Excelência para seu criador. Ele não desmorrerá. Também não nos deixará, pois vocês conosco estão.

Venha, Chicó. Venha, João Grilo. Cantem. Cantem para espantar as mazelas do mundo. As injustiças. A fome. A miséria e os miseráveis que os exploram! Cantem um canto àquele que os trouxe para nos legar o riso, para nos fazer refletir. Para nos fazer sonhar. Cantem uma melodia de saudade e de retribuição.

Venham João Grilo e Chicó. Cantem à memória deste que foi para as estrelas. Cantem uma Excelência pelo encantamento a que não esperávamos. A que não queríamos. De que não sabíamos quando. Mas infelizmente, sabemos que foi assim...

Requiescat in pace – descanse em paz, velho poeta e mestre!


* Pseudônimo de Simão Pedro dos Santos.
Professor de Letras da Universidade Severino Sombra – Vassouras – RJ.
Professor de literatura brasileira do Centro de Estudos Integrados – Barra do Piraí – RJ.

Texto originalmente publicado no Tribuna do Interior, jornal que circula na cidade de Vassouras – RJ, região sul fluminense e baixada fluminense

     
  

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