domingo, 5 de outubro de 2014

Um cafezinho, um pão com mortadela e a conta... Por favor
O dono da cantina do canto da rua tem ficado muito feliz pela venda de cafezinho e pelo aumento da saída do pão. Na barraca de pastel, comemora-se, igualmente, pois o tacho tem borbulhado avidamente na feitura de pastel e o balconista quase não tem dado vencimento à demanda. A mortadela, o presunto e o queijo têm sido as vedetes do balcão.
Nas ruas, a profusão de abraços, os beijos e os apertos de mão dão coloridos às cenas. Camisas suadas, mãos quentes, rostos em bicas de suor. Nos mercados, nas feiras, pessoas aos borbotões se misturam aos ilustres visitantes. Calor humano é o que não falta nesses tempos. Sorrisos soltos se direcionam a desconhecidos como se conhecidos fossem desde a infância.
Legião de fregueses polidos palmilham restaurantes populares entre clientes comuns e incomuns, todos sentados às mesmas mesas, sem distinção. O mendigo, o desempregado, o negro pobre, o branco pobre, o catador de papel dividem o espaço com os visitantes ávidos, famintos, sedentos...
A procissão dos que possuem serpenteia em meio aos pedintes, aos humildes, aos trabalhadores, aos que não possuem, ao cidadão comum. Caminhadas a passos firmes por entre o povo. É terminantemente proibido se falar em vaidade, orgulho, malícia, falsidade, mentiras, arrogância. Caminhada solidária por entre as gentes, andar pacífico e riso frouxo pelas ruas apinhadas propensas ou não a ouvir promessas de sonhos e realizações...
Mas voltemos aos pastéis deglutidos com voracidade. Ao doce café a descer fácil por goelas que nem sempre gostam de cafezinho. Ao esforço para suportar pão com mortadela. À força de vontade para fazer sumir fatias de presunto. À boa-vontade de se ingerir o fresco caldo de cana com oleosa coxinha. Voltemos aos alegres rostos para as tão em voga autofotografias, as já famosas selfies com os demais passantes do cotidiano. Voltemos aos braços suspensos a segurar manoplas de trens, de metrôs, de ônibus no balanceado sonolento e gaguejante da cata ao precioso voto.
O positivo de tudo isso é a reflexão: nosso comportamento, com o fim de convencer o outro, leva-nos à transformação, a ser como o outro, com o fim de conquistá-lo. Isto é humano. É histórico, até. Há uma quase humilhante situação, sobretudo para aquele que não se quer nem se pretende igual ao outro, o arrastar-se em nome da desenfreada busca pelo poder. (E a vingança do eleitor estar em enxergar isso). É certo, há os que gostam do povo e de com ele estar, e nesse caso, vigora a autenticidade dos que vivamente respiram política, mas esse aspecto só cabe às avis rara do ideal político.  
Mas voltemos aos passeios esporádicos: fico feliz pelos donos da padaria, do caldo de cana com pastel e da lanchonete, que tiveram aumentadas as vendas, pelo menos, por agora. Mas lamento pelo meu filho, que só será beijado e posto nos braços novamente, daqui a quatro anos, e por alguém a quem nunca viu, não sabe quem é e de onde veio e o que irá fazer. Se é que fará alguma coisa. 


Texto originalmente publicado no Tribuna do Interior, jornal que circula na cidade de Vassouras – RJ, região sul fluminense e baixada fluminense




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