Um
cafezinho, um pão com mortadela e a conta... Por favor
O
dono da cantina do canto da rua tem ficado muito feliz pela venda de cafezinho
e pelo aumento da saída do pão. Na barraca de pastel, comemora-se, igualmente,
pois o tacho tem borbulhado avidamente na feitura de pastel e o balconista
quase não tem dado vencimento à demanda. A mortadela, o presunto e o queijo têm
sido as vedetes do balcão.
Nas
ruas, a profusão de abraços, os beijos e os apertos de mão dão coloridos às
cenas. Camisas suadas, mãos quentes, rostos em bicas de suor. Nos mercados, nas
feiras, pessoas aos borbotões se misturam aos ilustres visitantes. Calor humano
é o que não falta nesses tempos. Sorrisos soltos se direcionam a desconhecidos
como se conhecidos fossem desde a infância.
Legião
de fregueses polidos palmilham restaurantes populares entre clientes comuns e
incomuns, todos sentados às mesmas mesas, sem distinção. O mendigo, o
desempregado, o negro pobre, o branco pobre, o catador de papel dividem o
espaço com os visitantes ávidos, famintos, sedentos...
A
procissão dos que possuem serpenteia em meio aos pedintes, aos humildes, aos
trabalhadores, aos que não possuem, ao cidadão comum. Caminhadas a passos
firmes por entre o povo. É terminantemente proibido se falar em vaidade,
orgulho, malícia, falsidade, mentiras, arrogância. Caminhada solidária por
entre as gentes, andar pacífico e riso frouxo pelas ruas apinhadas propensas ou
não a ouvir promessas de sonhos e realizações...
Mas
voltemos aos pastéis deglutidos com voracidade. Ao doce café a descer fácil por
goelas que nem sempre gostam de cafezinho. Ao esforço para suportar pão com
mortadela. À força de vontade para fazer sumir fatias de presunto. À
boa-vontade de se ingerir o fresco caldo de cana com oleosa coxinha. Voltemos
aos alegres rostos para as tão em voga autofotografias, as já famosas selfies
com os demais passantes do cotidiano. Voltemos aos braços suspensos a segurar
manoplas de trens, de metrôs, de ônibus no balanceado sonolento e gaguejante da
cata ao precioso voto.
O
positivo de tudo isso é a reflexão: nosso comportamento, com o fim de convencer
o outro, leva-nos à transformação, a ser como o outro, com o fim de conquistá-lo.
Isto é humano. É histórico, até. Há uma quase humilhante situação, sobretudo
para aquele que não se quer nem se pretende igual ao outro, o arrastar-se em
nome da desenfreada busca pelo poder. (E a vingança do eleitor estar em
enxergar isso). É certo, há os que gostam do povo e de com ele estar, e nesse
caso, vigora a autenticidade dos que vivamente respiram política, mas esse
aspecto só cabe às avis rara do ideal político.
Mas
voltemos aos passeios esporádicos: fico feliz pelos donos da padaria, do caldo
de cana com pastel e da lanchonete, que tiveram aumentadas as vendas, pelo
menos, por agora. Mas lamento pelo meu filho, que só será beijado e posto nos
braços novamente, daqui a quatro anos, e por alguém a quem nunca viu, não sabe
quem é e de onde veio e o que irá fazer. Se é que fará alguma coisa.
Texto originalmente publicado no Tribuna do Interior, jornal que circula na cidade de Vassouras – RJ, região sul fluminense e baixada fluminense
Texto originalmente publicado no Tribuna do Interior, jornal que circula na cidade de Vassouras – RJ, região sul fluminense e baixada fluminense
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