quarta-feira, 13 de junho de 2012


Os meninos do Vietnã – o quadro de uma guerra
                                                    Pedro Pernambuco[1]

8 de junho de 1972. Há 40 anos o mundo presenciava uma das cenas mais dolorosas captada pela câmera fotográfica de Huynh Cong 'Nick' Ut, da Associeted Press. O cenário é de guerra: Phan Thi Kim Phuc, então com nove anos, seu irmão mais novo e dois pequenos primos compõem o quadro em que fogem de bombardeio em sua vila natal, Trang Bang, no Vietnã.

Phan Kim em desespero a correr despida pela rua comove a todo o mundo naquela ocasião, como comove hoje, ao ter a imagem revista. É pavoroso ver emolduradas naquele quadro inocentes crianças a fugir da morte em sua vila incendiada pelo inimigo americano. Ao depararmos com a foto lembramos O grito, de Munch, pintor expressionista norueguês, que sintetizou a angústia existencialista do homem. A foto de Kim leva-nos a essa aflição existencialista, uma vez que nos seguem perguntas fatais: o que trazem as guerras? Que sentido há em matar, destruir o outro? Invadir territórios e ver inocentes arderem? O que é o homem? O que somos e o que justifica a invenção tão remota da guerra?

Perguntas como estas aparentemente não têm respostas, embora todos os homens tentem respondê-las segundo seu entendimento. Cada um dirá algo que acha, supõe encontrar correspondente, mas verdadeiramente, responder à questão como esta é não encontrar, nunca encontrar conclusão que convença. Guerra, essa ausência eterna de paz, resulta de maldade, ambição e ganância humanas. Guerra, essa destruição mútua dos povos, essa queda de braços sem fim, é humanamente/desumanamente respondível: o que justifica o mal?

Kim de vez em quando aparece nas mídias internacionais como exemplo de força e de sobrevivência. Exemplo de resistência e de força. Aos 49 anos, hoje, o que pensa a mulher ao rever a cena de quatro décadas passadas? O que pensa a mulher ao ver a menina a correr, como se corresse atrás dela mesma, por toda a vida, como um fantasma. Phan Kim criança, seguramente persegue a Phan Kim mulher, mãe, esposa, hoje.

Que cenas vêm à cabeça da mulher e da mãe hoje? Mães sentem as dores triplicadas, quadruplicadas de seus filhos. Dá para imaginar como sentiu dor a mãe de Kim – Se sobreviveu ao bombardeio – há quarenta anos? Dá para imaginar a dor de Kim por seu filho numa situação dessas – Deus a livre e nos livre – hoje? Esta mulher é tatuada, com certeza, daquela menina que insiste em dela não sair. Aquela menina representa a dor de uma guerra na mulher de hoje. E esta dor importuna a todos nós que nos arvoramos a achar que somos seres pensantes. Pensamos o quê? Pobres almas somos nós, os inventores da guerra que nos leva a exibir o vencido como troféu. Horripilante troféu! Como somos seres pensantes se queimamos, bombardeamos vilas e cidades e matamos inocentes? Kim é uma resposta por si. Kim responde à pergunta sobre o que é guerra. A resposta cabal sobre esse tema é Kim e tantas e outras Kins a quem o homem, na sua infelicidade, mutilou, marcou, matou.

Em reportagem recente, Phan Thi Kim Phuc diz: “Eu realmente queria escapar daquela menina” e conclui: "Mas parece que a imagem não me deixava ir.” Não deixa mesmo, é impossível, acreditamos, mas esse impregnar de sua imagem nela mesma seja, talvez, a grande lição coletiva de que a guerra dói e de que não deveria ser repetida, embora insistamos em promovê-la e repeti-la.

Ao sentir o chão balançar, o calor das chamas em sua direção e seu braço esquerdo queimado, na dolorosa passagem de Trang Bang, no seu destroçado e resistente Vietnã, Kim Phuc  pensava, além da dor, que iria ficar feia, que não iria ser mais normal e que as pessoa iriam vê-la de forma diferente.

E Kim não ficou feia, pois feia é a guerra. Kim é normal. Anormal é a guerra. E o mundo tem de ver e deve ver Phan Thi Kim Phuc de forma diferente: como exemplo e como mostra daquilo a que não se devia repetir. Mas aí está o homem, ser pensante, que insiste em se repetir.

A foto tirada por Huynh Cong 'Nick' Ut há quarenta anos é um quadro em torno do qual a humanidade deve refletir. E deveria estar em todas as paredes do mundo como um Michelangelo, um Da Vince, um Munch.

E Phan Thi Kim Phuc continua a ajudar a humanidade! 



[1] Pseudônimo de Simão Pedro dos Santos – Professor de Letras da Universidade Severino Sombra – Vassouras – RJ, e de Literatura Brasileira do Centro de ensino Integrado – Barra do Piraí – RJ.

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