Os meninos do Vietnã – o quadro de uma guerra
8 de junho de
1972. Há 40 anos o mundo presenciava uma das cenas mais dolorosas captada pela
câmera fotográfica de Huynh Cong 'Nick' Ut, da
Associeted Press. O cenário
é de guerra: Phan Thi Kim
Phuc, então com nove anos, seu irmão mais novo e dois pequenos primos compõem o
quadro em que fogem de bombardeio em sua vila natal, Trang Bang, no Vietnã.
Phan Kim em
desespero a correr despida pela rua comove a todo o mundo naquela ocasião, como
comove hoje, ao ter a imagem revista. É pavoroso ver emolduradas naquele quadro
inocentes crianças a fugir da morte em sua vila incendiada pelo inimigo
americano. Ao depararmos com a foto lembramos O grito, de Munch, pintor expressionista norueguês, que sintetizou a
angústia existencialista do homem. A foto de Kim leva-nos a essa aflição
existencialista, uma vez que nos seguem perguntas fatais: o que trazem as
guerras? Que sentido há em matar, destruir o outro? Invadir territórios e ver
inocentes arderem? O que é o homem? O que somos e o que justifica a invenção
tão remota da guerra?
Perguntas como
estas aparentemente não têm respostas, embora todos os homens tentem
respondê-las segundo seu entendimento. Cada um dirá algo que acha, supõe
encontrar correspondente, mas verdadeiramente, responder à questão como esta é
não encontrar, nunca encontrar conclusão que convença. Guerra, essa ausência
eterna de paz, resulta de maldade, ambição e ganância humanas. Guerra, essa
destruição mútua dos povos, essa queda de braços sem fim, é
humanamente/desumanamente respondível: o que justifica o mal?
Kim de vez em
quando aparece nas mídias internacionais como exemplo de força e de
sobrevivência. Exemplo de resistência e de força. Aos 49 anos, hoje, o que
pensa a mulher ao rever a cena de quatro décadas passadas? O que pensa a mulher
ao ver a menina a correr, como se corresse atrás dela mesma, por toda a vida,
como um fantasma. Phan Kim criança, seguramente persegue a Phan Kim mulher,
mãe, esposa, hoje.
Que cenas vêm à cabeça da mulher e da mãe hoje? Mães sentem as dores triplicadas,
quadruplicadas de seus filhos. Dá para imaginar como sentiu dor a mãe de Kim – Se sobreviveu ao bombardeio – há quarenta anos? Dá para imaginar a dor de
Kim por seu filho numa situação dessas – Deus a livre e nos livre – hoje? Esta
mulher é tatuada, com certeza, daquela menina que insiste em dela não sair.
Aquela menina representa a dor de uma guerra na mulher de hoje. E esta dor
importuna a todos nós que nos arvoramos a achar que somos seres pensantes.
Pensamos o quê? Pobres almas somos nós, os inventores da guerra que nos leva a
exibir o vencido como troféu. Horripilante troféu! Como somos seres pensantes
se queimamos, bombardeamos vilas e cidades e matamos inocentes? Kim é uma
resposta por si. Kim responde à pergunta sobre o que é guerra. A resposta cabal sobre esse tema é Kim e tantas e outras
Kins a quem o homem, na sua infelicidade, mutilou, marcou, matou.
Em reportagem
recente, Phan Thi Kim Phuc diz: “Eu realmente queria escapar
daquela menina” e conclui: "Mas parece que a
imagem não me deixava ir.” Não deixa mesmo, é impossível, acreditamos, mas esse
impregnar de sua imagem nela mesma seja, talvez, a grande lição coletiva de que
a guerra dói e de que não deveria ser repetida, embora insistamos em promovê-la
e repeti-la.
Ao sentir o chão balançar, o
calor das chamas em sua direção e seu braço esquerdo queimado, na dolorosa
passagem de Trang Bang, no seu destroçado e resistente Vietnã, Kim Phuc pensava, além da dor, que iria ficar feia,
que não iria ser mais normal e que as pessoa iriam vê-la de forma diferente.
E Kim não ficou feia, pois feia é
a guerra. Kim é normal. Anormal é a guerra. E o mundo tem de ver e deve ver Phan Thi Kim Phuc de forma diferente: como exemplo e
como mostra daquilo a que não se devia repetir. Mas aí está o homem, ser
pensante, que insiste em se repetir.
A foto tirada por Huynh Cong 'Nick' Ut há quarenta anos é um quadro em
torno do qual a humanidade deve refletir. E deveria estar em todas as paredes
do mundo como um Michelangelo, um Da Vince, um Munch.
E Phan Thi Kim
Phuc continua a ajudar a humanidade!
[1]
Pseudônimo de Simão Pedro dos Santos – Professor de Letras da Universidade
Severino Sombra – Vassouras – RJ, e de Literatura Brasileira do Centro de
ensino Integrado – Barra do Piraí – RJ.
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