terça-feira, 8 de setembro de 2015

Vendedores de oração: um assalto à mão desarmada à boa fé da carência e da ingenuidade

Há algum tempo refletimos nessa Coluna sobre a má fé dos vendilhões dos templos. Não sabemos se houve efeito positivo ou negativo, mas nossa preocupação não é esta, senão a de não nos calar diante da barbárie que se espalha por meio de rádios e TVs, há muito tempo, e por redes sociais, mais recentemente, no que respeita a pregadores que se arvoram a lotear e vender o mundo metafísico aos mais carentes e ingênuos.

Não deviam também se calar jornalistas, comunicadores de vário pensamento, professores, juízes, promotores, formadores de opinião, sociedade organizada. Não deviam, mas sabemos, por exemplo, que nem a Justiça interferiria nesse vespeiro, já que a Carta Magna, em outras palavras, faculta o livre culto, a liberdade de expressão, o ir e vir do homem brasileiro nas circunstâncias normais do direito à cidadania. Nesse aspecto, parece, não há muito que fazer para coibir a imoderação de muitos que se dizem líderes religiosos e disso se apropriam para cumprir o sagrado e bendito potencial de levar o outro ao engano, segundo a força de uso língua, em muitíssimos casos, de modo agramatical, mas que convence e persuade à certeza do milagre.

Jornalistas, apesar de muitas vezes denunciarem, é certo, não veem suas revelações levadas a cabo, com apuração, investigação, punição, já que rádios e TVs, suas casas, principalmente, têm seus horários – de concessão pública – destinados aos mesmos acusados, que por seu turno, repartem interessantes fatias por muitas horas na grade de programação com retorno vantajoso para ambas as partes como diria famoso apresentador de programa de clientes insatisfeitos. 
   
Infelizmente, poucas são as notícias de clientes insatisfeitos no rendoso comércio da fé. Poucas as notícias de alguém que, se reclamaria pela má aquisição de uma geladeira, não vem a proceder quanto ao engodo de vendedores de milagres. Há um medo, um temor aos céus, estrategicamente incutidos em tão pequenas cabeças, de que haverá castigo a quem se levantar contra os homens de Deus. Nossa pergunta se faz: haverá castigo e mortificação aos tidos e havidos homens de Deus por suas maléficas ações?
 
Não é positiva a imagem de líderes religiosos eletrônicos, embutidos em bem cortados tecidos e a exibirem números de contas bancárias – nos rodapés das TVs ou por apelativas ondas do rádio – para serem recheadas por depósitos quase sempre procedentes de trabalhadoras, suadas e humildes mãos, que sustentam o luxo, a riqueza e a ostentação daqueles que pouca ou nenhuma oração fazem pelas ingênuas e amarguradas vidas que lhes abarrotam cofres.

Mencione-se ainda o lamentável comércio de amuletos: pedaços da cruz, óleos e azeites santos, terras e pedras santas, fogueiras igualmente santas, lenços ungidos, toalhas isso, toalhas aquilo, em extrema prática, que não sofre sansão de lei alguma. Liberdade de expressão ou de culto? Aonde essa liberdade pode ir? Até esbarrar na ignorância e no desconhecimento de muitos e na tolerância de todas as leis e suas exceções?

Enquanto isso, relógios de oração incessante e outros estratagemas são postos em prática mediante pagamento de pedágio para fazer funcionar a humilde fé dos muitos  desavisados. Falta, entretanto, se criar mecanismo que meça a consciência dos que pedem, para que o façam segundo a justa porção que os mantenha, e a seus templos, e faça lembrar e saber aos que doam, que em sua casa não come apenas meio pão.

Em tempo: tem faltado um Cristo que faça estalar o chicote sobre os vendilhões da fé!  

  

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