Vendedores de oração: um assalto à mão desarmada à boa fé
da carência e da ingenuidade
Há algum tempo refletimos
nessa Coluna sobre a má fé dos vendilhões dos templos. Não sabemos se houve
efeito positivo ou negativo, mas nossa preocupação não é esta, senão a de não nos
calar diante da barbárie que se espalha por meio de rádios e TVs, há muito
tempo, e por redes sociais, mais recentemente, no que respeita a pregadores que
se arvoram a lotear e vender o mundo metafísico aos mais carentes e ingênuos.
Não deviam também se
calar jornalistas, comunicadores de vário pensamento, professores, juízes,
promotores, formadores de opinião, sociedade organizada. Não deviam, mas sabemos,
por exemplo, que nem a Justiça interferiria nesse vespeiro, já que a Carta
Magna, em outras palavras, faculta o livre culto, a liberdade de expressão, o
ir e vir do homem brasileiro nas circunstâncias normais do direito à cidadania.
Nesse aspecto, parece, não há muito que fazer para coibir a imoderação de
muitos que se dizem líderes
religiosos e disso se apropriam para cumprir o sagrado e bendito potencial de levar o outro ao engano, segundo a força de uso
língua, em muitíssimos casos, de modo agramatical, mas que convence e persuade à
certeza do milagre.
Jornalistas, apesar de
muitas vezes denunciarem, é certo, não veem suas revelações levadas a cabo, com
apuração, investigação, punição, já que rádios e TVs, suas casas,
principalmente, têm seus horários – de concessão pública – destinados aos mesmos
acusados, que por seu turno, repartem interessantes fatias por muitas horas na
grade de programação com retorno vantajoso para ambas as partes como diria famoso apresentador de programa de
clientes insatisfeitos.
Infelizmente, poucas
são as notícias de clientes insatisfeitos no rendoso comércio da fé. Poucas as
notícias de alguém que, se reclamaria pela má aquisição de uma geladeira, não
vem a proceder quanto ao engodo de vendedores de milagres. Há um medo, um temor
aos céus, estrategicamente incutidos em tão pequenas cabeças, de que haverá
castigo a quem se levantar contra os homens de Deus. Nossa pergunta se faz:
haverá castigo e mortificação aos tidos e havidos homens de Deus por suas maléficas
ações?
Não é positiva a imagem
de líderes religiosos eletrônicos, embutidos
em bem cortados tecidos e a exibirem números de contas bancárias – nos rodapés das TVs ou por apelativas ondas
do rádio – para serem recheadas por depósitos quase sempre procedentes de trabalhadoras,
suadas e humildes mãos, que sustentam o luxo, a riqueza e a ostentação daqueles
que pouca ou nenhuma oração fazem pelas ingênuas e amarguradas vidas que lhes
abarrotam cofres.
Mencione-se ainda o lamentável
comércio de amuletos: pedaços da cruz, óleos e azeites santos, terras e pedras
santas, fogueiras igualmente santas, lenços ungidos, toalhas isso, toalhas
aquilo, em extrema prática, que não sofre sansão de lei alguma. Liberdade de
expressão ou de culto? Aonde essa liberdade pode ir? Até esbarrar na ignorância
e no desconhecimento de muitos e na tolerância de todas as leis e suas exceções?
Enquanto isso, relógios de oração incessante e outros
estratagemas são postos em prática mediante pagamento de pedágio para fazer
funcionar a humilde fé dos muitos
desavisados. Falta, entretanto, se criar mecanismo que meça a consciência
dos que pedem, para que o façam segundo a justa porção que os mantenha, e a
seus templos, e faça lembrar e saber aos que doam, que em sua casa não come apenas
meio pão.
Em tempo: tem faltado um
Cristo que faça estalar o chicote sobre os vendilhões da fé!
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