As cartas que minha mãe lia. As cartas
que minha mãe escrevia
Pedro Pernambuco
Era uma manhã de
agosto. Dia frio como eram aqueles dos agostos de nossa terra. D. Aurora, a
quem ninguém chamava assim, o que é comum nos pequenos arruados do interior,
procurava minha mãe. Curiosa a pacata vida interiorana. Poucos vizinhos se
conhecem pelos nomes que receberam na pia batismal. Quase chegam a esquecer os reais
nomes dos seus mais achegados... Irmãos, primos, tios, todos são chamados por
alcunha que vem da infância: Biró, Bira, Tota, Jura, Juca... D. Aurora, na
verdade, era d. Mocinha.
Naquela manhã de
agosto d. Mocinha chegou com uma carta. Uma cartinha com fitinha preta em volta.
Antes e ainda naqueles tempos, inícios de 1970, muitas cartas chegavam, às
vezes, dos longes São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador e dos muito longe Mato
Grosso, Goiás, Brasília com alguma marca preta já no envelope. Um traço, uma
cruz, um rabisco qualquer na cor preta dava a pista e era motivo de súbita dor
e prévia surpresa. Era o luto.
As cartas iniciavam à
tinta preta se a morte era comum. Morrida. Vermelha, nos casos mais graves.
Matada. As primeiras linhas, os primeiros trechos eram as janelas da dor
incontida, doída, chorada antecipadamente. D. Mocinha chegara a nossa casa com
a leitura pronta. Sabia do que se passara naqueles muito longes. O envelope
anunciava o que d. Mocinha lia pelos olhos de minha mãe, mas só queria
constatar. Tinha ciência das coisas boas ou ruins pelos próprios olhos, e dessa
vez era uma ruim, pois o envelope anunciara. Envelope com tarja preta. O
coração de mãe de d. Mocinha se cobrira já, por manto preto, pois a leitura se
dava pelos olhos de mamãe...
E naquela manhã de
agosto mamãe tinha uma dura notícia. Mamãe, cautelosa, lera toda a carta antes,
silenciosamente, para se situar nos pontos, nas vírgulas, nas exclamações, nas
interrogações que não havia. Mas lia em silêncio também para perceber a dor daquele
texto. Carta escrita quase de um só fôlego por pessoa que, a exemplo de d.
Mocinha e de minha mãe, pontuava intuitivamente, pela respiração, por pausas
imaginárias. Mamãe tinha uma dura notícia para d. Mocinha, que já a adivinhara.
Coração era de mãe.
Minha mãe lia o texto
pausadamente e em voz baixa somente para d. Mocinha ouvir. As duas mastigavam
cada palavra da missiva. As duas eram mães, as duas se atrapalhavam até mamãe
decifrar algumas palavras que insistiam em ser misteriosas, difíceis de ler, como
se teimassem em não ser tristes, já que fingiam emaranhadas, confusas. Minha
mãe se esforçava por protelar ao máximo a notícia que d. Mocinha já sabia.
Coração de mãe... Num momento de angústia naquele agosto frio, quase por
terminar a leitura, mamãe escuta de d. Mocinha que podia dizer a notícia. Ela
já sabia de tudo. Seu coração não se permitia enganar.
E minha mãe lera com
o mesmo coração de d. Mocinha, com a mesma voz embargada de d. Mocinha e com os
mesmos olhos em espelho de lágrimas, que Ebenezer fora sepultado há duas
semanas. Que sua morte fora triste como todas as mortes. Que fora mais triste
ainda, por ser a dor da mãe que tem o filho sepultado antes dela.
E minha mãe chorou
junto à d. Mocinha com a mesma dignidade com que sorria das alegres notícias que
tempos antes vinham. Minha mãe tinha naquele momento de dor, a dignidade dos
ledores e dos escribas de tantas donas Mocinhas que lhes chegavam para pedir seus
olhos e suas mãos emprestados.
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