terça-feira, 8 de setembro de 2015

As cartas que minha mãe lia. As cartas que minha mãe escrevia
                                                                              Pedro Pernambuco
Era uma manhã de agosto. Dia frio como eram aqueles dos agostos de nossa terra. D. Aurora, a quem ninguém chamava assim, o que é comum nos pequenos arruados do interior, procurava minha mãe. Curiosa a pacata vida interiorana. Poucos vizinhos se conhecem pelos nomes que receberam na pia batismal. Quase chegam a esquecer os reais nomes dos seus mais achegados... Irmãos, primos, tios, todos são chamados por alcunha que vem da infância: Biró, Bira, Tota, Jura, Juca... D. Aurora, na verdade, era d. Mocinha. 
Naquela manhã de agosto d. Mocinha chegou com uma carta. Uma cartinha com fitinha preta em volta. Antes e ainda naqueles tempos, inícios de 1970, muitas cartas chegavam, às vezes, dos longes São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador e dos muito longe Mato Grosso, Goiás, Brasília com alguma marca preta já no envelope. Um traço, uma cruz, um rabisco qualquer na cor preta dava a pista e era motivo de súbita dor e prévia surpresa. Era o luto.
As cartas iniciavam à tinta preta se a morte era comum. Morrida. Vermelha, nos casos mais graves. Matada. As primeiras linhas, os primeiros trechos eram as janelas da dor incontida, doída, chorada antecipadamente. D. Mocinha chegara a nossa casa com a leitura pronta. Sabia do que se passara naqueles muito longes. O envelope anunciava o que d. Mocinha lia pelos olhos de minha mãe, mas só queria constatar. Tinha ciência das coisas boas ou ruins pelos próprios olhos, e dessa vez era uma ruim, pois o envelope anunciara. Envelope com tarja preta. O coração de mãe de d. Mocinha se cobrira já, por manto preto, pois a leitura se dava pelos olhos de mamãe...
E naquela manhã de agosto mamãe tinha uma dura notícia. Mamãe, cautelosa, lera toda a carta antes, silenciosamente, para se situar nos pontos, nas vírgulas, nas exclamações, nas interrogações que não havia. Mas lia em silêncio também para perceber a dor daquele texto. Carta escrita quase de um só fôlego por pessoa que, a exemplo de d. Mocinha e de minha mãe, pontuava intuitivamente, pela respiração, por pausas imaginárias. Mamãe tinha uma dura notícia para d. Mocinha, que já a adivinhara. Coração era de mãe.
Minha mãe lia o texto pausadamente e em voz baixa somente para d. Mocinha ouvir. As duas mastigavam cada palavra da missiva. As duas eram mães, as duas se atrapalhavam até mamãe decifrar algumas palavras que insistiam em ser misteriosas, difíceis de ler, como se teimassem em não ser tristes, já que fingiam emaranhadas, confusas. Minha mãe se esforçava por protelar ao máximo a notícia que d. Mocinha já sabia. Coração de mãe... Num momento de angústia naquele agosto frio, quase por terminar a leitura, mamãe escuta de d. Mocinha que podia dizer a notícia. Ela já sabia de tudo. Seu coração não se permitia enganar.
E minha mãe lera com o mesmo coração de d. Mocinha, com a mesma voz embargada de d. Mocinha e com os mesmos olhos em espelho de lágrimas, que Ebenezer fora sepultado há duas semanas. Que sua morte fora triste como todas as mortes. Que fora mais triste ainda, por ser a dor da mãe que tem o filho sepultado antes dela.
E minha mãe chorou junto à d. Mocinha com a mesma dignidade com que sorria das alegres notícias que tempos antes vinham. Minha mãe tinha naquele momento de dor, a dignidade dos ledores e dos escribas de tantas donas Mocinhas que lhes chegavam para pedir seus olhos e suas mãos emprestados.

          

Nenhum comentário:

Postar um comentário