JOSÉ FRANCISCO BORGES – HOMEM DE MADEIRA E CORDEL
*Pedro Pernambuco
J. Borges faz neste 20 de dezembro, 70 anos. Uma vida dedicada à arte. Literatura de cordel e xilogravura integram o seu universo. Traço inconfundível, sua gravura é toda uma concepção desse nosso mundo/Nordeste; de nossa alegria; de nossa tristeza; de nossa fé e esperança.
Saída do povo, a expressão de sua alma, só poderia estar em seu povo no seu sentido mais original. J. Borges é o próprio povo em suas representações. Seu cordel depõe de tudo isso e sua xilogravura não menos.
Na sua arte todo um universo do Nordeste é presença constante e não haveria de ser diferente: o cinzento das secas ou o verde cortante dos canaviais são motivos para o talhe de sua gravura e para a apreensão de sua sensibilidade.
É Borges o homem local se fazendo universal e isto se dá justamente porque seu olhar é aquele do cidadão imbuído na história e no mistério de seu povo.
De seu olhar e de suas mãos saem o traçado e o corte a que o nó da madeira tem de ceder. Nó. Nordeste. Nós todos embutidos na umburana. Nosso dia-a-dia eternizado por este cronista da madeira: casamentos de matutos; caçadores; agricultores a cavar o pão nas pedras; Lampiões e Marias Bonitas redivivos em nordestes bravios; o retirante; o forrozeiro em festa; o cantador ou o vaqueiro; prostitutas humanizadas sob a proteção de um céu borgeano e complacente; feirantes e feireiros; carnavais coloridos de papangus quase medievos em mundo pós-moderno; santos e diabos (mas diabinhos bons, brincalhões, quase bobos de corte) em representações de nordestes brincadores frente às adversidades. Nordestes joões grilos que tentam saltar as intempéries com um heroísmo entre o lúdico e o real. Eis a crônica de J. Borges.
Não é fácil discorrer sobre o homem que hoje deixa seu Nordeste e corre o mundo. Difícil dizer do homem que sai de Bezerros e atravessa fronteiras. Mas é também paradoxalmente fácil dizer deste homem que nos faz espectadores e personagens de sua narrativa de madeira e cordel. Fácil dizer desse homem que é ao mesmo tempo personagem de sua inventiva, pois sua madeira e sua história se confundem ou na verdade, se fundem e tornam-se uma coisa só. Única. Portanto, história verdadeira transposta para a linguagem da arte.
J. Borges é isto: identidade e identificação com seu povo e, desse modo, não se sabe se sua obra é arte disfarçada em verdade ou verdade disfarçada em arte. O que se sabe é que J. Borges é artista. O que se sabe é que J. Borges re-cria mundos, universos. Mundos em que gostaríamos todos de habitar, porque mundos da arte, da fantasia, da festa, do brinquedo. O não lugar a que todos gostariam de pertencer. Pasárgadas onde tudo fosse possível, como propunha e queria Manuel Bandeira.
J. Borges. 70 anos! Uma vida. Uma história. O papel e a madeira contando e cantando/encantando a todos. Encantando o mundo e re-fazendo a história deste Nordeste de homens fortes e bravos. Homens a quem J. Borges representa no cordel e na madeira em cotidiano às vezes crítico, noutras quixotesco, noutras evasivos... Nordestino.
Estamos todos de parabéns, porque J. Borges é de Bezerros. É de Pernambuco. É do Brasil. É patrimônio.
70 anos! Setenta dezembros! Parabéns! Uma saga de cordel esse J. Borges!
* Pseudônimo de Simão Pedro dos Santos, mestre em Literatura Brasileira, pela UFRJ e professor de Letras da Universidade Severino Sombra em Vassouras – RJ e do Centro de Estudos Integrados, em Barra do Piraí – RJ.
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