quinta-feira, 10 de maio de 2012




Texto feito para meu pai em 2004, por ocasião de seu aniversário. Foi publicado no jornal local, de nome Tribuna do Interior, aqui de Vassouras - RJ. Passados oito anos, meu velho criou asas, virou pássaro e foi para outra dimensão. Ao homenageá-lo novamente, compartilho com todos vocês este texto de que gosto muito. Abraços.


Aniversário de seu Biró. Festa!

Meu velho pai, hoje são 30 de novembro. Seu aniversário. Quantas coisas, meu velho! Lembro-me de uma infância pernambucana e cheia de surpresas. Lembranças de vê-lo chegando com cesto de vime cheirando a coisas frescas que da feira vinham. Lembro-me de seu cuidado com todos nós: seu cuidado de filho no trato com a nossa vó Mãe Bé e de pai e esposo em nossa casa de que guardo no canto da memória as recordações possíveis.

Meu velho pai, como esquecer o herói que víamos em você? Como esquecer que o víamos alto e forte? Imagem que todo filho em criança, projeta do pai... Que importa seu 1,55m? Importa que sua altura é aquela do herói que até hoje vemos. A do herói que luta e resiste naquele Nordeste tempestuoso e áspero, ressequido e medonho, porém belo e de sol e céu azul...  Como, meu pai, negar seu heroísmo numa labuta quase de tirar leite de pedras? Como esquecer sua imagem a cruzar a soleira da porta em passos firmes de homem forte e lutador?

Não há como esquecer também de seu barroquismo: tristeza e alegria a um só tempo. Esquecer como, de seu justificado nervosismo frente às intempéries porque passou? Mas como esquecer sua alegria a receber quaisquer de seus amigos?
Alma forte! Alma de gente que acredita e não desespera. Alma, talvez, de pedra e flores. Pedra porque delas é feito esse nosso chão; flores, porque esse nosso chão ensina-nos também a sermos de flores, e nesse contrabalanço de vida chegou o senhor aos 75 anos. Vitória, meu velho, porque Severinos morrem "de velhice antes dos trinta e de fome um pouco por dia", como escrevera um nosso poeta, João Cabral, a quem o senhor não conhece, mas ele conhece a todos nós.

Coincidência, meu pai, o senhor é um Severino. Severino José dos Santos, igual ao outros, "em tudo na vida". Não emigrou, é certo, como os outros, porém saiu junto com esse filho, no sonho e na esperança messiânica de dias melhores. E vencemos, meu velho! Vencemos todos! E a terra se fez no leite e mel que talvez de nossas pedras não tirássemos ou tirássemos pouco. Aquele pouco-quase-nada.
30 de novembro! Aniversário de seu Biró. Sabe, seu Biró, aqui em Vassouras, como aí em Bezerros desse Pernambuco, o senhor não é Severino, o senhor é Biró, e será assim. Este é o seu nome e todos aqui, a quem devoto carinho e amizade têm o igual carinho e amizade estendidos ao senhor. Seu Biró!

30 de novembro! Aniversário de seu Biró... Como esquecer, meu pai, de um dia em que me falou que sua casa seria sempre de seus filhos? Saiba, então, seu Biró, que esta casa que se chama coração será também sempre sua como nossa é essa casa grande, enorme que é seu coração de pai e amigo.
Receba meu pai, neste 30 de novembro, as honrarias que merece. Receba nesse dia todas as congratulações possíveis e tenha sempre no alto desses 1,55m de sabedoria todo um sacrário de vida e amor.

Quero meu pai, tributar-lhe toda uma vitória que alcancei nestes anos todos de luta e busca por dias melhores. Dizer ainda que essa vitória é tão sua que não consigo falar dela, sem antes mencionar sua importância no incentivo, no desprendimento e no acreditar na minha força de vencer em terra que não é a nossa, mas que me recebeu como a um filho, e por isso não me foi madrasta. Agradecer por sua confiança e fé é reconhecer toda uma coragem que o senhor teve de soltar para o mundo o seu filho que, como muitos nordestinos migram, sem lenço e sem documento, para citar Caetano Veloso, e de fato, na minha mala só vieram os sonhos e a vontade sem os quais, quem vence? Desde o começo o senhor acreditou e hoje eu apenas agradeço.

Lembre-se de que naquele 9 de setembro de 1988, o senhor embarcou comigo nesse sonho e nessa vontade. E vencemos.

Nesses 75 anos o que mais poderíamos dizer, senão que o senhor será sempre nosso herói? E não apenas aquele de nossa infância, em que víamos tudo grande, enorme, inclusive o senhor, mas o herói que sem armas, venceu. E vencer para nós tem todas as significações possíveis, principalmente esta de chegar aos 75 anos com a resistência das pedras e dos mandacarus que circundam nossa vida.

Daqui, meu pai, desse Rio de Janeiro que nos separa apenas fisicamente, imagino-o a soprar essas velinhas de vitórias tantas, na esperança de que muitas ainda sejam assopradas por este seu fôlego de vida e saúde.

Chegou a hora de apagar a velinha...
Vamos cantar aquela musiquinha?

Parabéns, meu velho, e para não ser repetitivo... Meu herói!

Vassouras, 30 de novembro de 2004.
Pedro Pernambuco.  

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