Texto escrito
há cinco anos, com as impressões que tive ao assistir a manifestação popular
conhecida como encontro de bacamarteiros, de tradição em minha cidade e em
muitos lugares do Nordeste. Tomara vocês gostem. Abraços.
Bacamarteiros: Homens de azul. Homens de paz
Por Pedro Pernambuco*
Manhã de sol. Inícios de janeiro de 2007. Na minha
Bezerros, em Pernambuco, assisti, a convite de meu amigo André, o André Eletro,
a uma apresentação de bacamarteiros. Coisa riquíssima, linda e que depõe de
nossa gente e de nossas raízes culturais.
Após missa matinal, os bacamarteiros fizeram suas
apresentações, a princípio, no pátio da Igreja de São José: tiros fortes e
cheiro de pólvora! Homens que se destinam a celebrar em salvas de bacamartes a
vida, a coragem, o destemor. Tiros que ecoam no centro da cidade, e chamam a
atenção dos passantes. Tiros que têm origem na Guerra do Paraguai.
Reminiscência, talvez, de vitória que trouxe o Brasil Imperial, das terras do Plata.
Tiros que dizem do homem e de seu desprendimento para o desafio.
Reparei, em meio àqueles homens
vestidos de azul, uma senhora, sobre quem, segundo ouvi de terceiros, ficou no
grupo em lugar do marido que morrera. Não quis deixar no esquecimento a memória
do companheiro e resolveu manter a velha tradição. Aguerrida, não desistiu por
ocasião de seus tiros falharem por duas ou três vezes. Com a solidariedade dos
amigos, finalmente, dispara o gatilho e catabum! Aplaudida, olha, com orgulho,
a plateia e sorri confortável. Venceu o desafio, e esta deveria ser a marca de
todos nós: não desistir!
Da Igreja, parte o Batalhão do
Bacamarte para outro lugar de comemoração e lá, a festa continua regada à
amizade. Vi em todos os participantes do festejo uma parcela de riso, de
alegria e de felicidade. Cada um que falava era solícito e generoso para com os
companheiros. Uma bela festa dos homens de azul. Uma linda e simples
comemoração à vida.
Bom seria se os homens fossem
sempre unidos em torno da vida. Bom se a vida fosse esse eterno comemorar.
Observei ali semblantes felizes e realizados. Notei que a vida é simples e para
vivê-la não precisamos de muito.
A vida se faz de pequenas coisas,
pequenos gestos e atitudes. Isto faz dos homens, homens. Isto faz das gentes,
gente. A vida é feita de pequenos atos. De generosidade e de amor. Amor ao que
se faz, mesmo que este fazer seja a realização pessoal de atirar com reluzente
bacamarte. Tiros de paz. Tiros lúdicos. De brincadeira. Por esporte. Tiros que
representam os desafios que a movem homens e mulheres e que nos trazem, na
serenidade do termo, autoafirmação, autoestima. Realização.
Homens de azul! Homens vestidos
de azul, com chapéus à cabeça e lenços de vermelho vivo ao pescoço. Homens que
atiram para o nada. Atiram sem ter de acertar o alvo. Ao acaso. Homens que
atiram por brincadeira, mas com seriedade. Que não visam à destruição.
Bacamarteiros! Atiradores de elite que visam acertar tão-somente o
coração e a alma dos que presenciam a brincadeira. Passatempo de homens que
sabem se unir em torno da festa, do encontro, do entretenimento saudável.
Bacamarteiros! Viva os
bacamarteiros de minha cidade de São José dos Bezerros. Tomara a lição desses
atiradores seja vista pela nossa cidade como alguma coisa que transmita paz e
traga a ideia de que a vida é para ser celebrada com salvas de bacamarte.
Salvas de palmas. Com alegrias e flores; com a delicadeza que deveria ser
inerente ao ser em sociedade.
Salvas
para nossos bacamarteiros. Vivas a vida!
*Pseudônimo
de Simão Pedro dos Santos. Da Universidade Severino Sombra – Vassouras – RJ e do Centro de
Ensino Integrado – Barra do Piraí – RJ.
Mestre em Letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro.
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