As mulheres de Manuel Bandeira
Por Simão Pedro dos Santos
Temática
recorrente em Manuel Bandeira, o universo erótico constitui requinte,
sofisticação, elegância, sensibilidade e sensualidade tão belas que fascinam e
prendem o leitor.
O poema Nu, (Duas
canções do tempo do beco), revela erotismo e volúpia intensos, trabalhados
com a destreza de quem traz experiência e sabe desvestir a mulher. Nesse trato
com as palavras, a impressão que se tem é a de que a mulher aflora, sai do
poema, numa imagem plástica que traz perplexidade e surpresa:
Quando estás vestida
Ninguém imagina os mundos
que escondes
sob tuas roupas.
Há malícia no
dizer, mas o eu lírico o faz com tanta sagacidade que deixa nua a beleza do
poema. Há um despir, mas há um pudor natural que transparece em toda a
linguagem palavra com que o poema é trabalhado. Interessante notar que a beleza
dessa mulher não pode ser vista, contemplada à luz do dia. O dia,
contrariamente, ofusca o que naturalmente era para ser percebido, exatamente
por ser dia. Só no recato e nos segredos da noite, porém,
pode-se ter essa constatação:
Assim, quando é dia
Não temos noção
Dos astros
Que luzem no profundo céu.
A ideia de
prazer se dá no campo semântico das palavras astros que luzem e profundo
céu, o que expõe, mostra a noção mesma de se estar em outra dimensão, em
outros mundos proporcionados pelo prazer e êxtase somente encontrados no
vivenciar o amor Eros.
Os desejos em
torno da mulher se misturam ainda à profunda liberdade da noite nua e entre paredes misteriosas. Mulher e noite se fundem em
metáfora do prazer e do desejo intensos, para possibilitarem ao eu lírico o
sentido das descobertas e, consequentemente, das conclusões. Noite e mulher
latejam, são profundas e ardem. Noite e mulher são para serem descobertas:
Mas a noite é nua
E, na noite
Palpitam teus mundos
E os mundos da noite
O corpo da amada
agora aparece completo e essa totalidade se dá numa descrição fulcral de pontos
sensíveis e desejados da mulher:
Brilham teus joelhos
Brilha teu umbigo
Brilha toda a tua
Lira abdominal
O detalhe de maior
sensualidade se dá na comparação da mulher à árvore forte, robusta e seu fruto.
Mulher e natureza se confundem sutilmente, pois seios quase sempre se traduzem
em imagens poéticas que têm a ver com frutos, pomos vertidos para a metáfora do
amor maduro, meigo, delicado e, certamente alvos de desejos e até de cobiça.
Frutos maduros ensejam vontades, doçura, sonhos e ânsia de toque e conquista.
Os seios da mulher despertam doçura, desejos e a vontade do toque. Ao utilizar
essa imagem o poeta leva o leitor a despertar olfato, visão, tato e paladar,
configurando o desejo de realização da conquista e conseqüente degustação do
fruto:
Teus exíguos seios
- como na rijeza
Do tronco robusto
Dois frutos pequenos.
Acentue-se ainda
o tocar do corpo, detalhadamente, a sensualidade e sutileza da descrição desse
toque e a admiração com o corpo dessa mulher é tratado. Interrogação e
exclamações depõem desse deslumbramento:
Teus seios?
Teus duros mamilos!
Teu dorso! Teus flancos!
Ah! Tuas espáduas!
O ponto mais
alto desse erotismo dá-se nas três últimas estrofes, quando o grau máximo de
todo um desejo é observado em versos como olhar
mais longo, mais lento, mais líquido, o que denota libido,
desejo incontido, incontrolável e algo que foge ao controle. O involuntário
desejo se derrama em líquidos, como resposta do olhar voluptuoso, que quer e
devora antes do banquete.
O encontro, porém, o conhecer-se, o penetrar é
percebido na semântica de palavras como boiar, nadar e saltar, em sintonia com
palavras-chaves de os sugestivos versos: Baixo
num mergulho/ perpendicular.
Concluindo o
ato, a satisfação mútua dos corpos, o prazer do encontro em profundidade:
Baixo até o mais fundo
Do teu ser, lá onde
Me sorri tu’alma
Nua, nua, nua.
Rio de Janeiro, 08/101997.
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