quinta-feira, 10 de maio de 2012

Texto escrito de forma amadora em 1997, ano de término de graduação, e a que guardo com carinho, por ter o poeta Manuel Bandeira como um dos meus preferidos, sempre, devido ao seu olhar tão terno para o cotidiano e para as coisas simples e belas, consequentemente. Acho que é isso. Abraço a todos.


As mulheres de Manuel Bandeira

                                                                                               Por Simão Pedro dos Santos


Temática recorrente em Manuel Bandeira, o universo erótico constitui requinte, sofisticação, elegância, sensibilidade e sensualidade tão belas que fascinam e prendem o leitor.

O poema Nu, (Duas canções do tempo do beco), revela erotismo e volúpia intensos, trabalhados com a destreza de quem traz experiência e sabe desvestir a mulher. Nesse trato com as palavras, a impressão que se tem é a de que a mulher aflora, sai do poema, numa imagem plástica que traz perplexidade e surpresa:
           
                                                       Quando estás vestida
                                                       Ninguém imagina os mundos
                                                       que escondes
                                                       sob tuas roupas.

Há malícia no dizer, mas o eu lírico o faz com tanta sagacidade que deixa nua a beleza do poema. Há um despir, mas há um pudor natural que transparece em toda a linguagem palavra com que o poema é trabalhado. Interessante notar que a beleza dessa mulher não pode ser vista, contemplada à luz do dia. O dia, contrariamente, ofusca o que naturalmente era para ser percebido, exatamente por ser dia.  Só no recato e nos segredos da noite, porém, pode-se ter essa constatação:

Assim, quando é dia
Não temos noção
Dos astros
Que luzem no profundo céu.

A ideia de prazer se dá no campo semântico das palavras astros que luzem e profundo céu, o que expõe, mostra a noção mesma de se estar em outra dimensão, em outros mundos proporcionados pelo prazer e êxtase somente encontrados no vivenciar o amor  Eros.
Os desejos em torno da mulher se misturam ainda à profunda liberdade da noite nua e entre paredes misteriosas. Mulher e noite se fundem em metáfora do prazer e do desejo intensos, para possibilitarem ao eu lírico o sentido das descobertas e, consequentemente, das conclusões. Noite e mulher latejam, são profundas e ardem. Noite e mulher são para serem descobertas:

Mas a noite é nua
E, na noite
Palpitam teus mundos
E os mundos da noite

O corpo da amada agora aparece completo e essa totalidade se dá numa descrição fulcral de pontos sensíveis e desejados da mulher:

Brilham teus joelhos
Brilha teu umbigo
Brilha toda a tua
Lira abdominal

O detalhe de maior sensualidade se dá na comparação da mulher à árvore forte, robusta e seu fruto. Mulher e natureza se confundem sutilmente, pois seios quase sempre se traduzem em imagens poéticas que têm a ver com frutos, pomos vertidos para a metáfora do amor maduro, meigo, delicado e, certamente alvos de desejos e até de cobiça. Frutos maduros ensejam vontades, doçura, sonhos e ânsia de toque e conquista. Os seios da mulher despertam doçura, desejos e a vontade do toque. Ao utilizar essa imagem o poeta leva o leitor a despertar olfato, visão, tato e paladar, configurando o desejo de realização da conquista e conseqüente degustação do fruto:

Teus exíguos seios
- como na rijeza
Do tronco robusto
Dois frutos pequenos.

Acentue-se ainda o tocar do corpo, detalhadamente, a sensualidade e sutileza da descrição desse toque e a admiração com o corpo dessa mulher é tratado. Interrogação e exclamações depõem desse deslumbramento:

Teus seios?
Teus duros mamilos!
Teu dorso! Teus flancos!
Ah! Tuas espáduas!

O ponto mais alto desse erotismo dá-se nas três últimas estrofes, quando o grau máximo de todo um desejo é observado em versos como olhar mais longo, mais lento, mais líquido, o que denota libido, desejo incontido, incontrolável e algo que foge ao controle. O involuntário desejo se derrama em líquidos, como resposta do olhar voluptuoso, que quer e devora antes do banquete.

O encontro, porém, o conhecer-se, o penetrar é percebido na semântica de palavras como boiar, nadar e saltar, em sintonia com palavras-chaves de os sugestivos versos: Baixo num mergulho/ perpendicular.

Concluindo o ato, a satisfação mútua dos corpos, o prazer do encontro em profundidade:

Baixo até o mais fundo
Do teu ser, lá onde
Me sorri tu’alma
Nua, nua, nua.

Rio de Janeiro, 08/101997.

 






                                                              

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