Pra não dizer que não vi os protestos e as flores
No dia 15 de março de 2015 o Brasil explodiu em protestos,
sobretudo, anti-Dilma, em que se reivindicavam impeachment (ô
palavrinha!), justiça contra mensaleiros, a saída do Supremo da cena
da Justiça (pelo menos foi o que apareceu em uma faixa carente de
revisão de português), investigações quanto ao escândalo da
Petrobras, o fim da corrupção, entre outras propostas.
Exercer o direito de protestar é legítimo, democrático e,
sem dúvida, um ato político, e há de se fazê-lo, sim. Há de se apontar
os erros, os desmandos, as injustiças cometidas por quem está à
frente dos destinos do povo, o que envolve não somente o Executivo,
mas as outras instâncias como o Legislativo e o Judiciário, e em
todos os níveis da federação. Há de se protestar. Há de se gritar e
tomar as ruas. Nada demais! É direito. É legítimo, É democrático.
No entanto, o que se percebeu – e é só dá uma olhada nas
imagens, nos textos sobre o evento e nas atitudes de quem dele
participou – foi destilação de ódios, segregação de classes, divisão
da sociedade. O que se viu foi um movimento de orla, de cidadãos
que se vestiram com a camisa da Seleção Brasileira não em protesto
coletivo, no sentido real de povo, mas naquele em que o olhar para
umbigo prevalece. Algum ingênuo viu pessoas do povo – salvo um
ou outro desavisado que de tudo participa sem pensar – nessa
marcha de 15 de março?
Numa outra ocasião mencionei que não se podem esconder
sob o tapete os envolvimentos escusos do PT. E pelo que consta,
ninguém do partido deseja fazê-lo. Também não há como justificar
os desmandos do partido em comparação com o que sempre se viu
no passado. Na verdade, o Partido dos Trabalhadores não pode se
eximir de suas irresponsabilidades. Nem deve. Há de se permitir
investigação, julgamento e condenação, mediante a comprovação
dos fatos. Tarefa da Justiça. É notório que as investigações têm
sido permitidas e, devem ser, e os processos levados a cabo. Há de
ser.
Voltemos, porém, aos passeios de praia de março em todo
o Brasil. Impressionaram por demais os chamados selfies com
policiais a que as elites sempre detestaram, humilharam e em quem
sempre deram carteiradas. Era de se esperar que cassetetes
brandissem no ar? Não. De forma alguma. Pode-se protestar em paz,
civilizada e racionalmente, em qualquer circunstância. A sutileza
talvez não percebida na caminhada de 15 de março é que os cartazes
(algo estratégico?) em que se pediam a volta dos militares não
permitiam que houvesse repressão. Soaria contraditório e seria uma
lástima.
O pior de tudo foram os diversos textos em inglês em apelo
à volta desses mesmos militares. Num deles, na orla alagoana, (mas
frise-se, ocorreu em todo o Brasil), lê-se: “SOS FORÇAS
ARMADAS”. E na versão para a língua de Shakespeare: “SOS
ARMED FORCES”. Outras idiotices completavam a faixa ainda em
português e inglês.
O mais interessante e paradoxal, portanto, foi o clamor
pela volta das Forças Armadas com entoação de “Caminhando”,
mais conhecida como “Pra não dizer que não falei das flores”, de
Geraldo Vandré, (que até hoje sofre dolorosas consequências) e é
considerado o hino-símbolo de maior protesto contra a Ditadura
Militar que nos deu uma noite de vinte e um anos.
Será que o mundo velho ainda tem jeito?
Texto originalmente publicado no Tribuna do Interior, jornal que circula na cidade de Vassouras – RJ, região sul fluminense e baixada fluminense.
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